Homem mata funcionária da polícia francesa a facadas, e governo investiga terrorismo

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BAURU, SP (FOLHAPRESS) - Autoridades francesas investigam, sob a hipótese de terrorismo, um ataque a faca ocorrido nesta sexta-feira (23) contra a oficial administrativa de uma delegacia em Rambouillet, a cerca de 60 km de Paris. A mulher de 49 anos chegou a ser socorrida por profissionais de saúde, mas não resistiu aos ferimentos. Segundo as primeiras informações, a vítima voltava ao trabalho após o horário de almoço quando foi esfaqueada duas vezes na garganta por um homem de 36 anos identificado apenas por sua nacionalidade tunisiana. O criminoso foi morto a tiros por policiais. Autoridades disseram à agência de notícias Reuters que o homem chegou ilegalmente à França em 2009, mas obteve uma autorização para continuar no país. Ele não tinha antecedentes criminais e sua motivação ainda é desconhecida. De acordo com a agência AFP, três homens também foram detidos. Uma fonte judicial informou que eles atuaram em conjunto com o suspeito. Depois de avaliar o caso, no entanto, a Procuradoria Nacional Antiterrorismo assumiu o comando das investigações. Em uma publicação no Twitter, o presidente Emmanuel Macron se referiu a vítima pelo primeiro nome, Stéphanie, e disse que a França "está ao lado de sua família, de seus colegas e da polícia" "Na luta contra o terrorismo islâmico, não vamos desistir", afirmou Macron, embora a polícia não tenha confirmado oficialmente indícios de motivação religiosa. Policiais bloqueiam quadra da delegacia onde um homem tunisiano esfaqueou uma funcionária em Rambouillet, na França - Bertrand Guay - 23.abr.21/AFP O primeiro-ministro da França, Jean Castex, foi a Rambouillet. Falando a jornalistas, também considerou o crime "mais um ataque terrorista" e disse que a determinação do país em "lutar contra o terrorismo em todas as suas formas permanece intacta". "A República [francesa] acaba de perder uma de suas heroínas do cotidiano, em um gesto bárbaro de covardia infinita", escreveu Castex, mais cedo, em uma publicação no Twitter. "Aos seus entes queridos, quero expressar o apoio de toda a nação. Às nossas forças de segurança, quero dizer que compartilho sua emoção e sua indignação." ​ De acordo com o jornal Le Monde, testemunhas do ataque disseram que o criminoso foi visto passando várias vezes em frente à delegacia de polícia com um telefone na mão. Em um determinado momento, ele aproveitou a entrada da vítima por uma porta protegida e conseguiu travar o mecanismo de controle eletrônico. Em seguida, segundo os relatos, o homem teria mostrado uma faca aos funcionários do posto de atendimento, que estavam do outro lado do vidro protegido, antes de esfaquear a agente administrativa. Depois de desbloquear a porta, um dos policiais atirou no homem, que morreu em decorrência dos ferimentos. Outras testemunhas disseram ter ouvido o homem gritar "Allahu Akbar" (Alá é grande). Apesar de não confirmada oficialmente, essa informação foi considerada no processo de tomada de decisão para que o crime fosse investigado como um ataque terrorista. Jean-François Ricard, chefe da Procuradoria Nacional Antiterrorismo, disse que assumiu as investigações "pelo próprio curso dos fatos —que inclui elementos de identificação, a modalidade do crime, a pessoa que foi vítima, mas também comentários feitos pelo autor do crime no momento da ocorrência dos fatos". Circunstâncias parecidas —ataques a faca com policiais como alvos— já foram identificadas no modus operandi de outros crimes cometidos na França e associados ao terrorismo com motivação religiosa. Além disso, até o dia escolhido para o ataque desta sexta está sendo considerado, visto que a sexta-feira é considerada o dia mais importante da semana para os muçulmanos. Rambouillet, cidade com pouco mais de 26 mil habitantes, fica no departamento de Yvelines, o mesmo onde Samuel Paty, um professor de história e geografia do ensino fundamental, foi decapitado por um jovem refugiado de origem tchetchena após ter mostrado charges do profeta Maomé aos estudantes, durante uma aula sobre liberdade de expressão. O caso levou à abertura de investigações contra dezenas de militantes de origem muçulmana e reacendeu discussões sobre a islamofobia na França, gerando inclusive crises diplomáticas para o governo do presidente Emmanuel Macron. Além disso, os ataques mais recentes tiveram peso decisivo para a aprovação de uma lei pela Assembleia Nacional francesa em fevereiro que, na prática, contém o avanço do islamismo no país —para o governo, uma questão de unidade nacional. A legislação não destaca nenhuma religião específica, mas prevê medidas mais duras contra temas que vão dos casamentos forçados e testes de virgindade à apologia de atos violentos na internet e à educação de crianças fora das escolas regulares —algumas famílias muçulmanas matriculam seus filhos em instituições islâmicas consideradas clandestinas. Além disso, a lei estabelece um controle mais rígido sobre associações religiosas e suas finanças, o que, segundo críticas ao projeto, limita a liberdade de culto na França. "Trata-se de uma ofensiva secular extremamente forte. É um texto duro, mas necessário para a República", disse o ministro do Interior, Gérald Darmanin, à época. OUTROS ATAQUE SIMILARES NA FRANÇA 29.out.20: um homem tunisiano empunhando uma faca decapitou uma mulher e matou outras duas pessoas em uma igreja na cidade de Nice antes de ser baleado e levado pela polícia. 16.out.20: o professor Samuel Paty foi decapitado na rua de um subúrbio de Paris. Paty mostrou a seus alunos charges do Profeta Maomé em uma aula sobre liberdade de expressão, irritando alguns pais muçulmanos. Para o Islã, qualquer representação do Profeta é considerada blasfêmia. A polícia matou a tiros o agressor de 18 anos de origem tchetchena. 25.set.20: duas pessoas foram esfaqueadas em Paris perto dos antigos escritórios da revista satírica Charlie Hebdo, onde militantes islâmicos realizaram um ataque em 2015. Um homem paquistanês foi preso pelo crime. 3.out.19: Mickael Harpon, 45, um especialista em TI com habilitação de segurança para trabalhar na sede da polícia de Paris, matou três policiais e um funcionário civil antes de ser morto a tiros pelos agentes. Ele havia se convertido ao Islã 10 anos antes. 23.mar.18: um atirador matou três pessoas em Trèbes, no sul da França, após assaltar um carro, atirar na polícia e fazer reféns em um supermercado. As forças de segurança invadiram o prédio e o mataram. 26.jul.16: dois agressores mataram um padre e feriram gravemente outro refém em uma igreja no norte da França antes de serem mortos a tiros pela polícia. François Hollande, o presidente da França na época, disse que os sequestradores juraram fidelidade ao grupo terrorista Estado Islâmico. 14.jul.16: um homem armado dirigiu um caminhão contra uma multidão que comemorava o Dia da Bastilha em Nice, matando 86 pessoas e ferindo várias outras em um ataque reivindicado pelo Estado Islâmico. O agressor foi identificado como um francês nascido na Tunísia. 14.jun.16: um francês de origem marroquina matou comandante da polícia a facadas em sua casa em um subúrbio de Paris e também seu parceiro, que também trabalhava para a polícia. O agressor disse à polícia que estava respondendo a um apelo do Estado Islâmico. 13.nov.15: Paris foi atingida por vários ataques com armas e bombas em locais de entretenimento ao redor da cidade, nos quais 130 pessoas foram mortas e 368 feridas. O Estado Islâmico disse que foi o responsável. Dois dos dez terroristas identificados eram cidadãos belgas e outros três eram franceses. 7 e 9 .jan.15: dois militantes islâmicos armados invadiram os escritórios do Charlie Hebdo em 7 de janeiro e mataram 12 pessoas. Outro terrorista matou uma policial no dia seguinte e fez reféns em um supermercado em 9 de janeiro, matando mais quatro pessoas antes de ser morto por policiais.