Homem morre por suspeita de coronavírus após procurar atendimento na rede pública por cinco dias

Marcos Nunes
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Abrahão Vanderlei Campos Santana, de 37 anos, passou por pelo menos quatro unidades de saúde entre Baixada e capital

Morador de Mesquita, na Baixada Fluminense, cidade onde não há um único leito municipal de isolamento para pacientes com coronavírus, o técnico de informática Abrahão Vanderlei Campos Santana, de 37 anos, morreu nesta quarta-feira, com sintomas da doença, no Hospital Ronaldo Gazolla, em Acari, na Zona Norte do Rio. Com dificuldades de respirar, ele chegou a buscar atendimento por cinco dias em pelo menos quatro diferentes unidades de saúde, até perder a batalha pela vida. Pai de uma criança de 2 anos, e com uma renda mensal de pouco mais de um salário mínimo, o técnico de informática não terá provavelmente seu último desejo realizado pela família.

Ele queria que seu corpo fosse cremado e que suas cinzas fossem jogadas no mar, mas parentes alegam não ter dinheiro suficiente para cobrir tal despesa. Sem recursos, a família ainda não marcou sequer a data do sepultamento do rapaz.

— O corpo foi liberado, mas ainda não tem enterro marcado. Ele queria que o corpo fosse cremado. Sempre disse isso pra gente. Falava que, quando morresse, queria suas cinzas fossem jogadas no mar ou num lugar bem bonito. Não temos dinheiro. A funerária perguntou se a morte era suspeita de coronavírus. Eu disse que sim e me informaram que provavelmente não haverá nem velório — disse a mulher de Abrahão, que pediu para não ter seu nome divulgado.

Segundo sua família, Abrahão foi submetido a uma testagem para coronavírus, feita no Ronaldo Gazolla, na última segunda-feira. No entanto, ainda não saiu o resultado do exame. Apesar disso, na declaração de óbito, consta que a morte ocorreu por suspeita de infecção por Covid-19.

O técnico de informática começou a sentir os primeiros sintomas da doença há pouco mais de uma semana. Com a garganta doendo, fadiga e tosse, ele passou a usar uma máscara improvisada com um guardanapo e um elástico, já que não havia conseguido comprar o equipamento de proteção. Mas,seu sofrimento começou a ter contornos de drama na última quarta-feira, quando buscou socorro pela primeira vez na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Edson Passos, em Mesquita. Era só a primeira de muitas tentativas de ficar curado.

— Ele deu entrada lá na quarta-feira à noite. Fez exame de sangue e raio-x, e também foi submetido a uma nebulização. Já estava com febre também. O resultado do exame apontou pneumonia. Deram dipirona e amoxicilina (antibiótico) e mandaram ele voltar para casa — disse a mulher do técnico.

Por volta das 11h da quinta-feira, ele acordou ofegante e com febre de 40 graus. Voltou mais uma vez, já durante a noite, para a mesma UPA. Segundo familiares, Abrahão foi liberado mais uma vez para voltar para casa, após passar por um exame clínico. Já na sexta-feira, voltou a ter dificuldades para respirar e, desta vez, procurou um polo de atendimento médico de Mesquita.

— Lá, ele entrou e saiu rápido. Me disse que não conseguiu passar nem na triagem — disse X., esposa do técnico.

Abrahão voltou a ter febre alta e, no sábado, pediu para ser levado para um hospital. Um amigo da família percorreu cerca de 38 quilômetros, levando o técnico de informática de carro até o Hospital Salgado Filho, no Méier. Lá, ele ficou numa cadeira até receber a informação de que a unidade estava cheia. Segundo parentes, a família recebeu a sugestão de procurar a UPA do Engenho Novo, onde o paciente foi atendido inicialmente na sala amarela, sendo depois transferido para a sala vermelha. Na unidade, X. recebeu pela primeira vez a informação de que o marido poderia estar com o coronavírus.

— No domingo, fui visitá-lo e ele estava entubado porque teve muita dificuldade para respirar. Comecei a tentar uma transferência para um hospital de referência. Na segunda-feira, o quadro piorou, ele entrou em coma induzido e foi transferido para o Hospital Ronaldo Gazolla, em Acari. Na terça-feira, houve nova piora. Estava com oxigenação baixa no sangue. Nesta quarta-feira, quando tentavam trocar o respirador, por volta das 9h11, ele morreu — disse a viúva.

A tentativa de trocar o respirador ocorreu porque Abrahão tinha 1,83 de altura e pesava cerca de 150 quilos, e precisava de um equipamento maior. Segundo sua família, Abrahão Vanderlei era hipertenso. Sem dinheiro, a família do técnico de informática está usando apenas álcool em gel para evitar uma possível contaminação por Covid-19.

— Meu marido era a melhor pessoa do mundo. Ajudava a todos, sempre que podia. Não tinha vícios e vivia só pra família. Sem ele, não sei como vai ser. Eu não trabalho, e ele era a nossa única fonte de renda. Nem máscaras temos para nos proteger. Na nossa casa, além de mim e da minha filha, de 2 anos, ainda tem minha mãe de 63. Todos nós estamos com medo desta doença e do que ainda pode acontecer com a gente — disse X.

O EXTRA procurou os órgãos públicos de saúde envolvidos no caso e a matéria será atualizada assim que os posicionamentos forem enviados.