'Homem negro I; homem negro II': o que revelam os boletins de atendimento médico de mortos no Jacarezinho

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Blood covers the floor of a home during a police operation targeting drug traffickers in the Jacarezinho favela of Rio de Janeiro, Brazil, Thursday, May 6, 2021. At least 25 people died including one police officer and 24 suspects, according to the press office of Rio's civil police. (AP Photo/Silvia Izquierdo)
Sem identificação, os cinco baleados foram descritos da seguinte forma nos documentos: homem negro, homem negro II, homem negro III, homem pardo I e homem pardo I. (Foto: AP Photo/Silvia Izquierdo)
  • Os boletins de atendimento médico de cinco dos 28 mortos na Favela do Jacarezinho descrevem como chegaram a uma unidade de saúde na Zona Norte

  • Em todos as avaliações médicas está assinalado que os pacientes chegaram já "cadáveres". Ou seja, morreram na operação ou no caminho ao hospital, pois nenhum desses cinco chegou vivo

  • Sem identificação, os cinco baleados foram descritos da seguinte forma nos documentos: homem negro, homem negro II, homem negro III, homem pardo I, homem pardo II

Os boletins de atendimento médico de cinco dos 28 mortos na Favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, descrevem como chegaram a uma unidade de saúde na Zona Norte da cidade os corpos baleados na operação mais letal da história do estado. Os documentos foram obtidos pelo G1.

Segundo o jornal, os boletins foram produzidos a partir da avaliação dos corpos de cinco homens levados por policiais para a Coordenação de Emergência Regional (CER) da Ilha do Governador, à emergência do Hospital Evandro Freire. 

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O médico responsável por redigir os relatórios apontou "faces dilaceradas", "dilacerações", ferimentos em membros inferiores compatíveis com disparos de arma de fogo e "desvios ósseos em membros superiores". Há uma série de lesões apontadas nos documentos.

Em todos as avaliações médicas está assinalado que os pacientes chegaram já "cadáveres". Ou seja, morreram na operação ou no caminho ao hospital, pois nenhum desses cinco chegou vivo.

Vítimas são descritas como "homem negro I; homem negro II..."

Sem identificação, os cinco baleados foram descritos da seguinte forma nos documentos: 

  • homem negro

  • homem negro II

  • homem negro III

  • homem pardo I

  • homem pardo II

Veja abaixo o que diz cada boletim, na ordem cronológica de atendimento:

"Homem negro"– atendido às 9h19

  • "Trazido pela polícia já cadáver, com ferimento por arma de fogo em face. Apresenta face totalmente dilacerada", consta no boletim.

"Homem pardo" – atendido às 9h25

  • "Apresenta orifício, aparente de entrada de projétil, em hemitórax direito com orifícios de saída em hemitórax esquerdo. Membros superiores com desvios ósseos e dilacerações, compatíveis com ferimento por arma de fogo".

"Homem pardo I" – atendido às 13h07

  • Assim como o "homem negro", apresentava ferimento dilacerante em face, compatível com PAF [projétil de arma de fogo].

"Homem negro II" – atendido às 13h11

  • "Trazido por policiais, já cadáver, com ferimentos em abdômen e MMII [membros inferiores] compatível com PAF."

"Homem negro III" – o último a ser atendido na unidade, às 13h13

  • "Trazido por policiais, já cadáver, com ferimento em parte posterior do tórax compatível com PAF".

Relatives pray and mourn during a Mass for the victims of a deadly police raid, outside the Nossa Senhora Auxiliadora church in the Jacarezinho favela of Rio de Janeiro, Brazil, Wednesday, May 12, 2021. A bloody, hours-long gun battle last Thursday, left authorities saying the police mission killed two dozen criminals while residents and activists claimed human rights abuses. (AP Photo/Silvia Izquierdo)
O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, Álvaro Quintão, afirmou ao G1 na segunda-feira (10) que o transporte dos baleados feito pela polícia foi uma "clara tentativa de que a perícia não fosse feita no local" (Foto: AP Photo/Silvia Izquierdo)

De acordo com o G1, os boletins foram apresentados à Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (OAB-RJ) pela direção do complexo hospitalar. 

A Comissão foi a responsável por divulgar uma lista com os nomes das 15 primeiras vítimas identificadas do massacre na comunidade.

No sábado (8), dois dias depois da operação, a polícia afirmou que todos os mortos foram identificados. Segundo a polícia, todos tinham ligação com o crime. 

No entanto, o próprio relatório da polícia com as fichas criminais dos baleados mostrou que, dos 27 mortos (o policial não entar nessa conta), 25 tinham passagens pela polícia.

Os nomes são os seguintes:

  1. André Frias - policial civil

  2. Bruno Brasil

  3. Caio Da Silva Figueiredo

  4. Carlos Ivan Avelino Da Costa Junior

  5. Cleyton Da Silva Freitas De Lima

  6. Diogo Barbosa Gomes

  7. Evandro Da Silva Santos

  8. Francisco Fábio Dias Araújo Chaves

  9. Guilherme De Aquino Simões

  10. Isaac Pinheiro De Oliveira

  11. John Jefferson Mendes Rufino Da Silva

  12. Jonas Do Carmo Santos

  13. Jonathan Araújo Da Silva

  14. Luiz Augusto Oliveira De Farias

  15. Márcio Da Silva Bezerra

  16. Marlon Santana De Araújo

  17. Matheus Gomes Dos Santos

  18. Maurício Ferreira Da Silva

  19. Natan Oliveira De Almeida

  20. Omar Pereira Da Silva

  21. Pablo Araújo De Mello

  22. Pedro Donato De Sant'ana

  23. Ray Barreiros De Araújo

  24. Richard Gabriel Da Silva Ferreira

  25. Rodrigo Paula De Barros

  26. Rômulo Oliveira Lúcio

  27. Toni Da Conceição

  28. Wagner Luiz Magalhães Fagundes

Todos chegaram mortos

Assim como no Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro, para onde foi levada a maioria dos baleados, também no CER da Ilha todos os atingidos chegaram mortos.

A identificação das vítimas cabe ao Instituto Félix Pacheco e ao Instituto Médico Legal, para onde os corpos foram encaminhados.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ, Álvaro Quintão, afirmou ao G1 na segunda-feira (10) que o transporte dos baleados feito pela polícia foi uma "clara tentativa de que a perícia não fosse feita no local".

O que diz a Polícia

A Polícia Civil informou que "o fato de criminosos chegarem mortos à unidade hospitalar não quer dizer que não foram resgatados com vida". A corporação alegou, ainda, que "as mortes podem ter acontecido no caminho ou na entrada ao hospital" e que "sobre as circunstâncias de eventuais socorros e da retirada de corpos do cenário, os fatos serão esclarecidos durante a investigação policial que está em andamento e sendo acompanhada pelo Ministério Público".

A Secretaria Municipal de Saúde informou que, entre a manhã e tarde do dia da operação, chegaram, já mortas, 20 pessoas no Hospital Municipal Souza Aguiar, cinco na CER Ilha e uma no Hospital Salgado Filho, no Méier.

Como foi a o peração

A Polícia Civil afirma que lançou a operação na quinta-feira (6/5) após receber denúncias de que traficantes locais estariam aliciando crianças e adolescentes para a prática de ações criminosas.

Dois passageiros do metrô foram atingidos — um por bala perdida e outro por estilhaços de vidro — mas sobreviveram.

Num post no Facebook, a Secretaria de Polícia Civil afirmou que Frias "honrou a profissão que amava e deixará saudade" e que "lamenta, ainda, pelas vítimas inocentes atingidas no metrô".

Um morador foi atingido no pé, dentro de casa, e passa bem. Dois policiais civis também se feriram.

Entidades de direitos humanos condenaram a operação e pediram que eventuais irregularidades sejam investigadas.

Polícia nega que tenham acontecido execuções

Em coletiva de imprensa após a operação, a Polícia Civil negou que tenham acontecido execuções e criticou o que chamou de "ativismo judicial" que estaria impedindo uma presença maior do Estado nas comunidades.

Segundo o Geni-UFF (Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense), a operação policial de quinta-feira foi a mais letal da história do Rio de Janeiro, superando os recordes anteriores registrados na Vila Operária em Duque de Caxias (23 mortos em janeiros de 1998), no Alemão (19 mortos em junho de 2007) e em Senador Camará (15 mortos em janeiro de 2003).

Conforme o grupo de pesquisa, desde 1989, foram identificadas 23 operações policiais com 10 ou mais mortos na Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

"O episódio de hoje nos leva a lamentar que a Polícia Civil tenha agido como um grupo de extermínio e não como órgão de segurança pública. Realizaram uma operação absolutamente desastrosa", declararam os pesquisadores da UFF em nota oficial. "Os danos causados pela operação são infinitamente mais graves do que os crimes que ela pretendia combater."

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