"Homem Onça": filme retrata angústia dos deserdados da "modernização"

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O personagem de Chico Diaz em cena de
O personagem de Chico Diaz em cena de "Homem Onça"

Em uma das primeiras cenas de “Homem Onça”, filme de Vinícius Reis que estreou nesta quinta-feira 26 nos cinemas do país, Pedro, o personagem de Chico Diaz, percorre os corredores de uma empresa com uma mochila nas costas quando esbarra com uma colega do trabalho ao fim do expediente. Pelo tom, descobre-se que a funcionária é sua subordinada.

Ele avisa que precisa conversar com ela. Ela assente e diz que está à disposição.

“Amanhã conversamos”, avisa, sem interromper o fluxo em direção à porta de saída.

Quem assiste ao longa com a lógica do mundo empresarial provavelmente estranha o desfecho da conversa. Como assim, amanhã? Pelas regras do ambiente corporativo, qualquer um teria interrompido os passos e estendido a jornada para resolver ali mesmo, naquele instante, a questão. Seja ela qual for.

Mas não estamos exatamente num corredor de uma empresa dita moderna. Estamos na sede de uma estatal de produção e distribuição de gás.

Daquela cena em diante, cada um segue seu destino. Pedro percebe a tensão no ambiente ao chegar à sala de seu superior. Ainda assim avança. Chega a um departamento onde, não demoramos a descobrir, importantes decisões estão sendo tomadas. É a sala do diretor.

O diretor, seu amigo, pergunta se ele trouxe a bomba. No caso, para encher a bola, guardada na mochila do gerente da área ambiental com quem, no minuto seguinte, seguirá para uma quadra de futebol society onde outros funcionários os esperam.

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Sim, porque o horário do expediente se encerrou — e a distância para aquele momento-chave dos anos 1990, quando se passa a história, impede de perceber que a obediência ao horário de trabalho, ao fim do qual existem espaços demarcados de lazer e descanso, é, ou deveria ser, respeitada. Nada de jornada estendida noite adentro com café, pó de guaraná e otras cositas más para induzir a produtividade e trabalhar cada vez mais por menos —um mantra dos tempos das metas corporativas e da pejotização.

Na cena, a quebra de uma lógica já introjetada ao longo dos anos, ao menos desde que grandes empresas nacionais foram privatizadas ou entraram no radar de investidores estrangeiros, funciona quase como uma ironia. Tudo ali está prestes a mudar.

Essa mudança é quase sempre, e com certa razão, contada pela ótica do beneficiário da ponta que consome o produto ou serviço. É nele que costumamos pensar quando alguém na contracorrente, como a personagem em direção à porta ao fim do expediente, questiona se a tal modernização vai mesmo desburocratizar a produção e baratear seus custos.

Quem acompanha a conversão dos Correios e aeroportos-chave da malha aeroviária em empresas privadas, hoje na agenda, pode aqui ou ali questionar quantos empregos serão cortados e seguir a vida. Uma vida cada vez mais imersa nas reuniões corporativas, online e à distância ou não.

O filme de Vinícius Reis traz a perspectiva dos derrotados nesta queda de braço.

Apesar de ter uma vida fora das oito horas de expediente, o personagem de Chico Diaz não representa o estereótipo associado ao funcionário público, encostado, sem planos para a vida além de enriquecer sem muito esforço —como se os responsáveis pela administração de uma empresa do tipo não tivessem interesse em mostrar serviço e prestar contas para população/consumidores a cada quatro anos. Como se a estabilidade para tocar projetos que transcendem quatro anos de mandato não fosse uma espécie de vacina, também, para planos meramente eleitoreiros.

Pedro não tem uma vida nababesca, guarda uma relação de idealismo com o trabalho, conta com uma equipe enxuta, premiada e reconhecida internacionalmente por projetos na área ambiental.

Sua única extravagância é manter um pé de café em seu departamento. O que o leva a ser chamado pejorativamente pela nova presidente da empresa como “o cara do pé de café”. Quando ouve a referência, ele a corrige. Seu nome é Pedro.

O filme é contado em dois momentos. No primeiro, o espectador acompanha as tensões envolvendo as mudanças naquele ambiente. Engajados em projetos que em breve serão limados das prioridades da empresa, seus personagens se questionam onde está a lógica de quem prioriza produtividade cortando mão-de-obra já escassa. O facão em seu departamento deixará os quatro pés (ou patas, para ficar na alegoria do título) sem meios de locomoção.

A crise decorrente das mudanças do mercado, e de seu departamento especificamente, leva a uma sucessão de crises pessoais. Pedro já não sabe como sobreviver fora daquele habitat.

Na segunda parte do filme, já com seu destino selado e podado na velocidade da tal “modernidade” — essa que limpa gavetas e joga fora a planta cultivada durante anos— Pedro volta à sua cidade-natal, no interior, para se reconectar com as origens. O mato.

Se, no primeiro momento, ele mostra que é possível sair do campo, mas o campo não sai da gente, no segundo fica evidente como no retorno fica impossível se desfazer dos ritmos e valores introjetados em seu corpo pelos anos dedicados a uma única empresa. Fora daquele habitat, mesmo de volta ao seu lugar de origem, ele é ainda um bicho solto, perdido e entregue ao vício. Outras crises se sucedem. A maioria é resultado ou resultante das ansiedades e neuroses incorporadas na cidade grande.

A debandada de colegas e amigos cria marcas. A turma do futebol é agora um companheiro canino.

Nas histórias de transformação do modelo e relacionamento entre trabalhadores e empresas contadas nas últimas três décadas, o impacto psicológico de quem ficou de fora da festa do desmonte embrulhado como modernização, até hoje palavra mágica no noticiário, é quase sempre nota de rodapé. Como Pedro, muita gente se perdeu, sem qualquer acompanhamento ou apoio, inclusive psicológico. Não era só dinheiro.

O filme é a história de quem foi soterrado pela seta de uma meta, como cantaria Paulinho Moska.

Ao redor de gavetas, mesas, computadores e até vaso de plantas havia gente que se dedicou a vida toda por um projeto e, de uma hora para outra, se viu metamorfoseado no espectro do atraso, alguém a ser eliminado, com um modo de vida até então consagrado, para que a empresa batesse metas e seguisse seus planos de decolagem. Uma decolagem que, ao menos por aqui, tem sido contada pelos escombros e pela lama das barragens mal construídas ou construídas às pressas para dar resposta rápida, em forma de retorno, a seus investidores.

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