Homenageado pela Vila Isabel este ano, Martinho diz que escolas de samba precisam pensar no futuro: 'Estão muito parecidas'

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Devagar, devagarinho, de fala pacífica e com o talento de cantar sorrindo. E, nesse tom, também se faz revolucionário! É Martinho José Ferreira, o Martinho da Vila, artista que é celebrado este ano na Sapucaí pela escola cuja história se confunde com a dele: a Unidos de Vila Isabel. Foi após os desfiles de 1965 que o cantor e compositor fincaria raízes na branca e azul do bairro de Noel Rosa e do povo do Morro dos Macacos. Era um encontro que geraria transformações não só no carnaval, mas na cultura brasileira. Martinho já mudou a forma de compor samba, conceber enredos e até de as escolas se reconhecerem como voz política, de reivindicações sociais. O antológico “Kizomba, festa da raça”, de 1988, está aí, potente até hoje, para comprovar.

Com todo esse repertório, Martinho mantém a modéstia para o amanhecer do próximo domingo — quando a Vila encerrar as apresentações do que vem sendo chamado de “carnaval preto”. Só fez um pedido: quer atravessar a Avenida com a família e amigos, revela o carnavalesco Edson Pereira. Confraternização, aliás, é o sentido de kizomba, explica o homenageado. Anos antes daquela festa memorável, nem ele conhecia a palavra, da língua kimbundu, de Angola. Pensou que fosse algo semelhante a quizumba. E, mesmo já sendo o Martinho que havia carregado o samba mundo afora, enfrentou percalços para que seus parceiros de Vila comprassem a ideia que ele propôs: um verdadeiro manifesto da negritude, no centenário da abolição da escravatura, e com uma estética que destoava completamente do luxo daquele tempo.

— No conselho deliberativo da Vila, alguns achavam que não podia. Tive que explicar tudo. Depois, ir no morro para falar com o pessoal. A velha guarda viria vestida de soba. Mas eles não queriam sair assim, de fantasia. Uma das alas seria a das mumuílas, mulheres de uma região de Angola onde as moças andam de seios à mostra. No carnaval, havia modelos e atrizes que desfilavam de bustos de fora. Mas queríamos que fossem jovens do Macacos. E para convencer os pais delas? Foi difícil — conta Martinho, soltando uma risada.

O jornalista e escritor Leonardo Bruno, autor de livros como “Cartas para Noel: Histórias da Vila Isabel”, reforça que as escolas de samba sempre foram expressão do povo preto. Mas, em Kizomba, considera que, pela primeira vez (e de forma muito bem realizada), evidencia-se que as agremiações são, por si só, um movimento negro.

— Foi quase um carnaval metalinguístico: uma manifestação de um movimento negro falando de uma movimento de negritude. Nos anos seguintes, a Vila ainda cantaria, em 1989, a Declaração dos Direitos Humanos e, em 1990, a reforma agrária. Eram enredos engajados, mas diferentes das sátiras políticas da época — diz Leonardo.

Fazia anos, porém, que Martinho vinha operando suas revoluções. Reescreveu, por exemplo, os rumos do samba-enredo. E isso foi logo que chegou à Vila, pouco depois de apresentar o partido alto “Menina Moça” no Festival da Canção de 1967. Ele compôs, em anos consecutivos, “Quatro séculos de modas e costumes” (1968), “Iaiá do Cais Dourado” (1969) e “Glórias Gaúchas” (1970).

— Botei a cadência do partido alto no samba-enredo. Mas, lá atrás, um diretor de harmonia e alguns membros da diretoria resistiram — relembra Martinho.

As modificações não se restringiam à melodia. As letras também se tornaram diferentes. No lugar dos sambas longos e com palavras rebuscadas, nasciam outros de menos versos e com um linguajar mais popular e coloquial. Era o que faltava para que o gênero explodisse, reverberando nas alas de compositores de outras escolas, como a do Salgueiro.

Maior campeão das disputas na Vila e um dos autores do samba deste ano, o compositor André Diniz, no entanto, não vacila e afirma que Martinho é “incopiável”.

— São inovações muito próprias dele. A gente ouve e sabe que é do Martinho. Acelerar o andamento de um samba dele é impossível. Além disso, ele tem uma capacidade de síntese incrível. Quando o enredo da Vila foi “Gbalá, viagem ao templo da criação” (1993), podia-se perguntar: o que é Gbalá? Martinho conseguiu dissecar tudo num verso: “Gbalá é resgatar, salvar”. E completou: “E a criança, esperança de Oxalá”. Ele eleva a outro patamar — destaca André Diniz.

Martinho e Diniz chegaram a compor juntos, o já clássico “Festa no Arraiá”, como ficou conhecido o samba da Vila no campeonato de 2013. Ainda para a Avenida, Martinho ousou fazer um samba sem rima, em “Raízes” (1987). Em “Para tudo se acabar na quarta-feira” (1984), traçou uma ode às escolas e aos segmentos das agremiações que virou uma espécie de hino. Pouco antes, em 1980, compôs, com Rodolpho e Graúna, “Sonho de um sonho”, baseado em um poema de Carlos Drummond de Andrade.

Na letra que se aproxima de um poema musicado, ainda em período de ditadura militar, havia versos como “A prisão sem tortura, inocência feliz / Ai, meu Deus / Falso sonho que eu sonhava”. Era uma fase na qual as escolas de samba não escapavam do crivo da censura, como mostram documentos do antigo Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Martinho também foi investigado como comunista. Mas, como o artista já chegou a declarar ao GLOBO no passado, em 1980, ele acha que “eles comeram uma mosca. Afinal, o samba falava até da tortura”.

Muitos desses sambas, e não apenas os de enredo, estarão representados no desfile da Vila deste ano. O carnavalesco Edson Pereira conta que as baianas lembrarão “Iaiá dos Cais Dourado”. Já a bateria lembra “O pequeno burguês”, música lançada nos anos 1960 em que abordava as dificuldades dos mais pobres de ter acesso ao ensino superior. E uma das alas remontará a “Raízes”. Já nos carros alegóricos, o Morro dos Macacos é mostrado logo no abre-alas. Martinho diz que, no barracão, é uma de suas alegorias favoritas, junto com a que tem esculturas de lavradores, porque lembra seus pais na roça.

— O enredo também tem esse lado onírico, que está na poesia, no jeito simples, no chinelo de dedo de Martinho — diz Edson.

São facetas de um artista que, aos 84 anos, continua inquieto, lançando novos livros e discos. E sobre o carnaval, ele diz ainda desejar outras transformações. Os fundamentos, diz ele, precisam ser mantidos, como as características de cada bateria. Mas temer, jamais!

— Hoje, acho que as escolas estão muito parecidas. Quando vou assistir ao desfile, vejo a primeira e acho uma beleza. A segunda, uma maravilha! Na terceira, já está bom. Já quero ir embora. Esse modelo que está aí dá para ficar alguns anos. Mas as escolas precisam pensar no futuro. As coisas que permanecem iguais tendem a perder a graça, às vezes até acabam — alerta.

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