Homicídios e roubos mantêm queda no Rio, que também registra redução em índices de atividade policial

O estado do Rio manteve, em março, o ritmo de queda nas mortes violentas e nos roubos, em um fenômeno que vem se consolidando desde o primeiro semestre do ano passado. Os 256 homicídios dolosos computados no mês, conforme o divulgado nesta terça-feira pelo Instituto de Segurança Pública (ISP), bem como os 760 registrados no acumulado do trimestre, representam a menor marca em mais de três décadas, desde 1991, quando teve início a série histórica.

O mesmo aconteceu com o índice de letalidade violenta, que abrange, além dos homicídios dolosos, os casos de latrocínio (roubo com resultado morte), lesão corporal seguida de morte e os autos de resistência, hoje chamados de morte por intervenção de agentes do estado. Foram 1.099 vítimas de janeiro a março, e 386 apenas no mês mais recente, representando, mais uma vez, o patamar mais baixo para os dois indicadores em 31 anos. Tanto a letalidade violenta quando os homicídios dolosos, isoladamente, apresentaram queda por volta dos 20% na comparação com o mesmo período do ano passado.

A análise do indicador de letalidade, porém, traz um alerta. Apesar da queda de 22,2%, em março, diante do mesmo mês em 2021, os 123 autos de resistência computados no período correspondem a quase um terço das mortes violentas no estado, enquanto a média nacional é de 12%. Há cerca de uma década, enquanto o projeto das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) ainda estava a pleno vapor, o índice fluminense chegou a ser de apenas 9%.

— O ano passado foi o mais violento em termos de letalidade policial desde 2007, com a fatia de mortes pelas mãos de agentes do estado beirando os 40%. Assim, a redução registrada agora me parece muito mais um efeito desse patamar anterior elevadíssimo. E isso é um problema sobretudo porque, diante de todos os indicadores, com crimes contra o patrimônio e homicídios em queda, a questão das mortes em confronto é, hoje, o principal problema de segurança pública no estado. Mas pouco ou nada tem sido feito com o objetivo de reverter esse quadro — diz Daniel Hirata, professor de Sociologia e coordenador do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni), da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Em uma reportagem especial publicada em setembro do ano passado, o jornal O GLOBO mostrou que a redução nas mortes passa por um conjunto de fatores, como melhoras recentes na estrutura das polícias, questões demográficas e até mudanças na dinâmica entre grupos criminosos, sobretudo traficantes e milicianos. Isso porque as quedas mais expressivas, como o constatado à época, se dava justamente em locais que sofreram alterações profundas na geopolítica do crime organizado, seja com disputas históricas envolvendo quadrilhas rivais arrefecendo, seja com paramilitares conseguindo se instaurar e estabelecer o controle, sbujugando a concorrência.

Além disso, houve, nos últimos cinco anos, um incremento significativo em termos de investimento nas forças de segurança fluminenses, que vai desde a renovação da frota e a compra de fuzis e pistolas durante a Intervenção Federal até a recuperação recente nas contas do governo do estado. Há menos de uma década, entre 2014 e 2016, era comum que não fosse possível sequer comprar combustível para abastecer viaturas. Por fim, especialistas citam também a composição da pirâmide etária no Rio, com o número de idosos crescendo, e o de jovens, diminuindo.

A curva dos roubos, assim como a das mortes, também manteve a tendência recente de queda. Diversas modalidades do crime apresentaram, se não o número mais baixo de registros da história, reduções significativas diante dos anos anteriores. Foi o menor patamar para março e no acumulado desde 2013 nos roubos de carga (342 e 1.054, respectivamente), desde 2012 nos roubos de veículo (5.168 e 14.499) e desde 2006 nos roubos de rua (2.146 e 5.776), que medem a soma dos roubos de celular, a pedestre e em coletivos.

Considerando todos os tipos de assalto, o estado computou 25.191 ocorrências entre janeiro e março, no menor índice desde 2001. Apesar da redução recente, a média ainda corresponde a 280 vítimas diárias no Rio, ou uma a cada cinco minutos, aproximadamente. Na comparação com o mesmo período do ano passado, quando houve 32.929 casos, a queda é de 23,5%.

— Além dos crimes contra a vida, que estão atingindo regularmente os melhores números, os crimes contra o patrimônio seguem o mesmo caminho. Os dados só reforçam a importância de um trabalho integrado entre as polícias — afirmou, em declaração divulgada à imprensa, a diretora-presidente do ISP, Marcela Ortiz.

Se as mortes e os roubos diminuíram, o mesmo aconteceu com alguns indicadores de atividade policial. O número de armas apreendidas, por exemplo, caiu 6,3% em março, na comparação com o mesmo mês do ano passado. As 598 armas retiradas de circulação pela polícia, contra 638 em março de 2021, representam o segundo número mais baixo para o índice da última meia década. Já o total de fuzis recolhidos sofreu queda ligeiramente maior, de 9,3%, passando de 43 para 39 ao longo do mês.

As prisões em flagrante, bem como os mandados de prisão cumpridos pelos agentes, seguiram o mesmo caminho. No primeiro caso, a desaceleração foi sutil, de 3.110 para 3.055 detenções, enquanto no segundo a redução se deu de modo mais expressivo, indo de 1.069 a 967 — por essa comparação, é como se mais de uma centena de foragidos deixasse de ir parar atrás da grades em março passado. Por fim, as apreensões de droga por pouco não se mantiveram estáveis, mas também caíram de 3.110 para 3.055 ocorrências ao longo do mês.

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