Homicídios de jovens de 10 a 19 anos mais que dobraram no Brasil entre 1990 e 2017, diz Unicef

Daniel Biasetto e Camila Zarur
Luciana Pimenta, mãe de Kauan, cobra investigação do assassinato do filho

RIO — Kauan Pimenta Peixoto, de 12 anos, havia saído para comprar um lanche com o primo, na Chatuba, bairro de Mesquita, na Baixada Fluminense. No caminho, porém, a Polícia Militar fazia uma operação. O garoto até tentou correr para não ficar na linha de tiro, segundo testemunhas, mas acabou sendo atingido por dois disparos. O menino não resistiu aos ferimentos e morreu na madrugada de 17 de março deste ano.

Kauan é mais uma das crianças e jovens vítimas fatais da violência armada no Rio de Janeiro e em sua região metropolitana. Sua história ilustra a segunda reportagem da série sobre o relatório elaborado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) para marcar os 30 anos da Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança.

Na primeira reportagem, O GLOBO mostrou que 44% dos brasileiros menores de 18 anos têm ao menos um dos direitos fundamentais descumpridos — acesso à educação, informação, água, saneamento, moradia ou proteção contra o trabalho infantil.

Um dos grandes desafios do país nos últimos anos é a violência contra crianças e adolescentes, em especial a armada — estatística da qual Kauan faz parte. Entre 1990 e 2017, os homicídios de adolescentes mais que dobraram no Brasil: se, antes de 1990, morriam 15 jovens a cada dia, nos 27 anos seguintes a taxa passou para 32 a cada 24 horas.

Segundo o relatório “Avanços e desafios para meninas e meninos no Brasil”, do Unicef, 107 mil crianças e adolescentes de 10 a 19 anos foram vítimas de homicídio no país entre 2007 a 2017. No Rio de Janeiro, no mesmo período, foram 10.914 meninos e meninas da mesma faixa etária mortos nas mesmas condições. Ou seja, um em cada dez jovens foram assassinados na capital fluminense, a mais violenta.

— A gente vive o dia a dia da violência do estado do Rio. Depois do Kauan, outras crianças foram vítimas — conta Luciana Pimenta, mãe de Kauan, e que denuncia o Estado pela morte do filho. — A gente tem uma política de violência vinda do Estado, uma política em que o jovem negro, pobre e favelado é desrespeitado o tempo todo.

Kauan estava no 4º ano do Ensino Fundamental e morava com Luciana e seus três irmãos em Nilópolis, outro município da Baixada e que faz fronteira com Mesquita.

Desigualdade territorial

De acordo com a coordenadora do Unicef no Rio, Luciana Phebo, os homicídios de crianças e adolescentes pela violência armada têm relação direta com a região em que eles vivem.

— No geral, as mortes acontecem em um local muito próximo de onde as vítimas moravam. Isso ficou evidente em um estudo feito no Ceará, também pelo Unicef, chamado “Trajetórias interrompidas” — explica Phebo.

Segundo a coordenadora, o estado nordestino evidenciou essa característica, mas ela se repete em outras capitais do Brasil. A partir de dados do DataSUS e do IBGE, o Unicef analisou dez delas (Belém, Fortaleza, Maceió, Manaus, Rio de Janeiro, Recife, Salvador, São Luís, São Paulo e Vitória) e descobriu que no total há 2,6 milhões de meninas e meninos sujeitos a uma superexposição a violências e privações de direitos. Os homicídios são apenas a expressão mais extrema do impacto da violência armada na infância e adolescência.

Segundo estimativa do órgão das Nações Unidas, na capital do Rio, são quase 500 mil crianças e adolescentes vivendo em áreas diretamente afetadas pela violência armada. Na cidade de São Paulo, mais de 1 milhão. E quase 300 mil em Manaus, o mesmo número em Fortaleza, um desafio em várias regiões do país.

— Na cidade do Rio, por exemplo, quase um terço das mortes se concentram em um desses três territórios da cidade, Pavuna, Costa Barros e Barros Filho (todos na Zona Norte da cidade) — explica Phebo.

Esse foi o caso de Kauê Ribeiro dos Santos, de 12 anos, que morreu ao ser baleado durante uma operação da Polícia Militar, em 8 de setembro deste ano, no Complexo do Chapadão, que fica na região da Pavuna.

Mesmo com a pouca idade, o menino havia deixado de estudar para ajudar as contas da família vendendo bala na rua. Assim, além da estatística de vítimas da violência armada, Kauê fazia também parte do grupo de jovens que saíram da escola, a evasão escolar.

— A desigualdade territorial, tão marcante nas cidades, é marcada por vários indicadores, como os homicídios de crianças e adolescentes e a evasão escolar — relata a coordenadora do Unicef do Rio, que completa:— A violência traz várias consequências a esses jovens. A educação, por exemplo, é afetada pelo número de aulas que essa criança ou adolescente deixa de frequentar por causa de tiroteios. Ou, quando o aluno já está na aula, mas não consegue se concentrar por causa do medo e da angústia que eles sentem nessas situações.