Homicídios têm queda histórica no Rio, mas disparam no interior, que supera a Baixada Fluminense pela primeira vez

Giampaolo Morgado Braga e Luã Marinatto
·7 minuto de leitura
Hermes de Paula/30.12.2020 / Agência O Globo

No ano da pandemia, o perfil da violência no estado sofreu mudanças. O balanço final do ano passado, divulgado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) na última semana, apontou que o Rio registrou, em 2020, o menor número de homicídios dolosos desde 1991, o início da série histórica. A marca positiva, porém, não foi a única detectada pelas estatísticas. Pela primeira vez, as 67 delegacias situadas no interior, somadas, registraram mais casos de assassinato em um ano do que as 19 da Baixada Fluminense, tida como a região mais violenta do Rio.

Os municípios fora da Região Metropolitana computaram 1.242 homicídios dolosos no ano passado, contra 1.186 em 2019 — alta de 4,7%. A Baixada, por sua vez, viu as mortes do gênero caírem 20,3%, de 1.205 para 960 ocorrências. Desde 2003, ano mais antigo disponibilizado com separação por delegacia pelo ISP, a fatia dos assassinatos ocorridos no interior em relação ao total do estado disparou: eram 17% há quase duas décadas, agora são 35%, o maior percentual já registrado. É como se, em média, uma a cada três mortes no Rio ocorresse nas menores cidades.

Ainda na contramão dos dados gerais do estado, o interior fluminense concentrou, também, as cinco áreas com maior aumento percentual nos homicídios dolosos entre 2019 e 2020. No topo da lista está Itaperuna, no Noroeste, atendida pela 143ª DP, onde as mortes saltaram de 17 para 40 em apenas um ano, em um aumento de 135%. Foi o segundo maior número anual de assassinatos ocorridos no município desde 2003. Fenômeno semelhante deu-se na (já não tão) pacata Santo Antônio de Pádua, também no Noroeste Fluminense: os pouco mais de 40 mil paduanos observaram a cidade computar, em 2020, 14 homicídios dolosos, quase o dobro dos oito do ano anterior e o maior total da história em um único ano.

A escalada na violência no município não se reflete somente nas estatísticas. Cenas antes estranhas para a população tornaram-se bem mais comuns. Entre junho e agosto do ano passado, dois chefes do tráfico foram presos pela 136ª DP. Um gerenciava a venda de drogas no Morro da Borracha e é acusado por várias mortes ocorridas nos meses anteriores. O outro atuava no bairro Cidade Nova e, segundo a polícia, chegou a incendiar casas de moradores que seriam usadas por criminosos de uma facção rival.

— Essas cidades que apresentaram índices muito acima da média merecem sempre uma atenção especial do Estado, mas cada área tem características diferentes, e as motivações podem ser totalmente distintas — afirma o antropólogo e coronel da reserva Robson Rodrigues, que já ocupou cargos de chefia na Polícia Militar e, hoje, atua como pesquisador do Laboratório de Análise de Violência da Uerj.

Para Rodrigues, uma das hipóteses que poderia explicar o avanço dos homicídios rumo às menores cidades do estado é uma espécie de “segunda onda” da chamada interiorização, fenômeno ocorrido em vários pontos do Brasil na primeira década do século. Na época, o que se viu foi uma expansão nos crimes violentos, até então concentrados nas capitais e maiores municípios.

— Como os principais centros vivenciaram o problema primeiro, agiram antes para conter. Além disso, as cidades menores sofriam ainda mais com a falta de políticas públicas municipais, o que favorece o aumento da criminalidade. Para uma análise mais detalhada, contudo, seria preciso mergulhar com mais profundidade nas curvas de tendência, entre outros pontos — explica o coronel.

Búzios: 143% mais mortes

Além de afligir quem vive em locais até então vistos como mais tranquilos, a aceleração das mortes no interior também atinge áreas muito turísticas, como a Região dos Lagos. A 126ª DP (Cabo Frio), por exemplo, é a única delegacia do interior entre as dez com mais casos de homicídios dolosos em números absolutos no ano passado. Já na área da 127ª DP (Búzios) os registros deram um salto de 143%, passando de sete casos em 2019 para 17 em 2020.

Outro balneário que sofre com a escalada da violência é Rio das Ostras, vizinho à Região dos Lagos — a 128ª DP, responsável pela cidade, presenciou um crescimento de 103% nos assassinatos em 2020. Uma tragédia local ainda sem resposta é a morte da pequena Mariana Regina Valadão, de apenas 2 anos. Ela fazia um piquenique com os pais no bairro Cantagalo quando foi atingida por disparos, em dezembro do ano passado.

Os autores, ainda não identificados, eram dois homens em uma moto. Nas redes, chegou a circular a informação de que o crime teria sido motivado por um sentimento de vingança contra o pai da menina. O primo da vítima, Maycon Valadão Marquês, nega. “Meu tio trabalha de domingo a domingo na roça. Não tem nenhum tipo de envolvimento com criminosos”, garantiu o rapaz em um desabafo público sobre o caso.

— Durante anos, a criminalidade ostensivamente armada esteve concentrada na capital, sobretudo em favelas, e em algumas cidades da Baixada. Isso se espraiou primeiro para Niterói e arredores, depois para Angra dos Reis e, mais recentemente, Campos e Barra Mansa. Agora, chega também nas cidades pequenas— analisa a cientista social Silvia Ramos, uma das coordenadoras do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (Cesec), da Universidade Candido Mendes: — O Rio de Janeiro conta nos dedos as pequenas cidades com problemas realmente baixos de violência. Algo que não acontece, por exemplo, nos municípios de pequeno porte de Minas Gerais. Isso mostra que o problema está na atuação do Estado. E que um modelo de polícia extremamente voltado para a guerra às drogas estimula uma criminalidade armada e violenta.

Procurada, a Polícia Militar classificou o cenário como “aumentos pontuais dos índices de assassinatos em algumas regiões do interior do estado”. Segundo a corporação, “o fenômeno está relacionado à disputa violenta por território entre facções rivais”.

Já a Polícia Civil afirmou que “trabalha para reduzir continuamente a taxa de homicídios, que está em queda na atual gestão do governo do estado” e negou que haja uma “migração da criminalidade para municípios do interior”. O órgão creditou a alta nas mortes a “disputas territoriais, principalmente em municípios maiores”, e a “casos isolados não relacionados a organizações criminosas”.

Veja, abaixo, a íntegra das notas enviadas pela PM e pela Polícia Civil

POLÍCIA MILITAR

"A Assessoria de Imprensa da Secretaria de Estado de Policia Militar informa que os índices de homicídio doloso têm registrado reduções expressivas e contínuas, sobretudo nos últimos dois anos e principalmente nas áreas de maior incidência dessa modalidade criminal. Os números referentes a 2020 são os mais baixos da série histórica, iniciada em 1991.

Em relação aos aumentos pontuais dos índices de assassinatos em algumas regiões do interior do estado, onde os números absolutos são historicamente baixos quando comparados com as áreas de maior densidade demográfica, o fenômeno está relacionado à disputa violenta por território entre facções rivais. Tanto assim, que, em praticamente todos os municípios onde houve aumento de homicídios, os demais crimes contra a vida, como latrocínio e lesão corporal dolosa, como também os crimes contra o patrimônio, registraram queda, acompanhando a tendência verificada em praticamente todo o território estadual.

Vale ressaltar que os aumentos pontuais dos casos de homicídios constatados pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) estão sendo analisados em conjunto pelas forças de segurança do estado para inverter a curva de crescimento.

Fenômeno semelhante foi verificado em passado recente nas regiões de Angra dos Reis, na Costa Verde, e de Campos, no Norte Fluminense, que vinham registrando índices de homicídios muito altos até 2018. Depois de uma série de ações, a incidência de homicídio nessas duas áreas do estado está agora em declínio."

POLÍCIA CIVIL

"A Polícia Civil do Rio de Janeiro trabalha para reduzir continuamente a taxa de homicídios, que está em queda na atual gestão do governo do estado do Rio de Janeiro, ao contrário da maioria dos estados brasileiros. Tais dados apresentados pela reportagem não indicam que há uma tendência de aumento no número de assassinatos em decorrência de migração da criminalidade para municípios do interior. Em grande parte são disputas territoriais, principalmente em municípios maiores. Em algumas cidades menores os índices tiveram uma variação maior, pois não registraram homicídios em períodos anteriores e no último ano aconteceram alguns casos isolados não relacionados a organizações criminosas."