Brasil recupera mercados de carne e tenta minimizar efeitos do escândalo

Por Damian WROCLAVSKY
Mercado de carnes em Hong Kong

Hong Kong suspendeu nesta terça-feira o veto total à carne brasileira e se tornou o último dos grandes importadores a restringir seu bloqueio aos 21 frigoríficos investigados pelo escândalo da carne adulterada.

Mas o maior exportador de carne bovina e de frango do mundo deverá agora percorrer um árduo caminho para recuperar a confiança plena dos mercados, admitiu o ministro brasileiro da Agricultura, Blairo Maggi.

O Centro de Segurança Alimentar de Hong Kong (CSA) informou em um comunicado que "as autoridades brasileiras entregaram informação atualizada e declararam que farão uma rígida implementação dos processos internacionais de certificação para demonstrar a credibilidade do sistema. E continuarão realizando auditorias regulares para garantir seu funcionamento pleno".

A decisão da região administrativa autônoma chinesa, maior compradora de carne bovina brasileira, foi celebrada pelo governo do país.

"O Brasil recebeu hoje (28/3), com satisfação, a notícia de que Hong Kong reabriu o mercado para as carnes brasileiras. Com essa medida, todos os grandes mercados para exportações de carnes brasileiras encontram-se novamente reabertos", destacou um comunicado da Presidência.

Hong Kong importou 718 milhões de dólares de carne bovina em 2016, segundo dados do Ministério da Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e suas compras totais de carne brasileira (de boi, frango, porco, etc) superaram no ano passado a marca de 1,3 bilhão de dólares.

- No alvo -

O setor de carne brasileiro foi alvo de uma investigação da Polícia Federal que em 17 de março denunciou mudanças nas etiquetas e o uso de ácidos e substâncias supostamente cancerígenas para adulterar cortes vencidos ou em mal estado.

Desde então, mais de 20 mercados fecharam totalmente ou parcialmente suas portas ou intensificaram seus controles sobre as carnes brasileiras, entre eles Hong Kong, China e Chile, três mercados-chave para um setor que emprega mais de 6 milhões de pessoas e que gerou 13 bilhões de dólares no ano passado.

Hong Kong e o próprio governo brasileiro chegaram a ordenar a retirada de alguns cortes de carnes por não poder garantir sua inocuidade para a saúde.

Mas no final de semana passado apareceram sinais de alento, após de árduas negociações para minimizar os danos, estimados inicialmente pelo governo em 1,5 bilhão de dólares.

China, Chile e Egito restringiram o bloqueio aos 21 frigoríferos envolvidos na investigação, sob suspeita de ter participado de uma rede de corrupção em que os fiscais sanitários eram subornados por frigoríficos para autorizar a venda de carne não apta para o consumo humano.

O caso envolveu a JBS e a BRF, gigantes globais do setor.

O governo criticou a "narrativa" do caso divulgada pela PF.

- Reconstruir a confiança -

O comissário europeu de Saúde e Segurança Alimentar, Vytenis Andriukaitis, se reuniu nesta terça-feira em Brasília com o ministro Maggi para inteirar-se sobre as medidas adotadas pelo governo brasileiro, depois que a União Europeia (UE) informou que não receberá carne dos frigoríferos investigados.

"Há muitos, muitos problemas sobre a mesa e vamos ver como procedemos para avançar", disse Andriukaitis a jornalistas depois do encontro.

O funcionário europeu disse que acha possível "que as autoridades brasileiras realmente façam tudo o que é possível para que a confiança seja restaurada".

Maggi admitiu na segunda-feira que a reabertura dos mercados é apenas o primeiro passo para recuperar a confiança internacional nos produtos.

"Nossa imagem foi muito atacada nos últimos dias, os comentários fora são muito ruins", disse em uma entrevista coletiva em Brasília.