Hong Kong vota no próximo domingo sob olhar atento de Pequim

Por Elaine YU
Principais candidatos nas eleições de Hong Kong

Hong Kong designará domingo seu próximo chefe de governo em uma eleição inclinada para o lado de Pequim, o que aumenta as linhas de divisão política na antiga colônia britânica.

O grupo democrata classifica o processo eleitoral de farsa, num momento em que as perspectivas de reformas políticas no território semiautônomo parecem mais distantes do que nunca.

O chefe do Executivo da ex-colônia britânica, que voltou em 1997 sob as asas de Pequim, será designado por um comitê central de 1.194 membros representativos de grupos de interesse em grande parte coincidentes com o governo chinês. Apenas um quarto destes eleitores são simpatizantes do grupo pró-democracia.

Após as grandes manifestações do outono de 2014, os democratas haviam pedido a Pequim a instauração de um verdadeiro sufrágio universal para a eleição do chefe de governo.

Mas a China não cedeu um palmo: de fato, muitos habitantes do enclave têm a impressão de que Pequim aumentou sua intervenção em âmbitos como a política, a imprensa ou a educação.

A ex-chefe adjunta de Governo Carrie Lam é considerada a favorita do governo chinês e certos membros do establishment informaram sobre pressões para votar a seu favor.

Lam foi muito criticada pelos democratas por ter apoiado o projeto de reformas políticas defendido por Pequim que desencadeou o movimento de 2014, batizado como "a revolução dos guarda-chuvas".

- 'Falsa democracia' -

O projeto instaurava o sufrágio universal para a eleição de 2017, mas a reforma finalmente foi enterrada.

Para seus opositores, Lam é sócia do chefe do governo em fim de mandato, o detestado Leung Chun-ying, considerado um fantoche de Pequim.

Seu principal rival é John Tsan, ex-ministro das Finanças e encarado como mais moderado. Os democratas apostam nele como o menor dos males e, de fato, não apresentaram candidato para não dividir o voto e poder provocar um curto-circuito em Lam. Tsang se apresenta como o candidato de união e é o favorito nas pesquisas.

Mas muitos jovens ativistas contestam a legitimidade das eleições e falam de uma "falsa democracia".

Joshua Wong, que se converteu no rosto visível da "revolução dos guarda-chuvas", rejeita todos os candidatos e anunciou que participará de uma manifestação prevista para domingo.

As eleições são "uma seleção, mais que uma eleição", explica à AFP o estudante de 20 anos. "Ninguém pode negar que Carrie Lam seja a pior, mas isso não significa que possamos deixar de lado nossos princípios e apoiar (outros) candidatos pró-China".

De qualquer forma, a margem de manobra do vencedor com a China será escassa, já que o chefe do Executivo sempre pisará em ovos para agradar Pequim, considera Yvonne Chiu, professora da Universidade de Hong Kong.

A ex-colônia goza, teoricamente, de uma série de liberdades desconhecidas na China continental em virtude do princípio "um país, dois sistemas" acordado na retrocessão do enclave e em vigor até 2047. Mas, na prática, Hong Kong segue dependendo fortemente das ordens de Pequim.

Por isso, a revolta dos guarda-chuvas, que defende sem rodeios a independência, enfureceu em seu nascimento e segue irritando as autoridades chinesas.