Hora do reforço: escolas do Rio vão começar ano letivo de 2021 com aulas de revisão

Madson Gama
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RIO — O ano letivo de 2021 começa ainda sob a ameaça da Covid-19, o que equivale a dizer que muitas dúvidas continuam rondando escolas e famílias. Uma delas é o quanto os estudantes foram capazes de apreender do conteúdo pedagógico no acidentado ano letivo de 2020, que começou com ensino presencial, foi bruscamente interrompido pela pandemia, retomado remotamente e, finalmente, adaptado para o sistema híbrido, com aulas na escola e em casa, na rede particular. Na rede pública, praticamente não houve aulas. Para evitar (mais) prejuízos ao aprendizado, grande parte das escolas decidiu reiniciar as atividades fazendo um diagnóstico de seu corpo discente, para identificar lacunas. A ideia é eliminar deficiências com diferentes estratégias de reforço, aplicadas antes ou concomitantemente ao ensino dos conteúdos deste ano.

O Colégio CEL — que de meados de março até o fim do ano passado ofereceu apenas aulas remotas— aplicou provas ao longo de 2020, através de uma plataforma digital, e sete simulados para o Enem. O resultado dessas avaliações está sendo analisado pela equipe pedagógica e orientará o que será feito em sala de aula. Durante todo o mês de fevereiro, a instituição fará uma revisão intensiva das matérias menos assimiladas por alunos a partir do 1º ano do ensino fundamental até o 3º do ensino médio e o pré-vestibular.

— Depois das provas, os alunos recebem um relatório com os erros mais comuns. O reforço será através de aulas: cada matéria será organizada dentro de sua grade de horário e incluirá exercícios que explorem essas dificuldades. Ainda estamos terminando de analisar as avaliações, mas matemática, uma área em que se aprende muito com exercícios e tem bastante conteúdo, é a disciplina que mais vai precisar de revisão. Em redação, a preocupação é porque os alunos digitaram mais do que escreveram, diferentemente do que exigem os exames externos— explica Romulo Braga, coordenador pedagógico do ensino médio da escola.

Como a maioria das escolas, o CEL retomará as aulas no formato híbrido, com os professores lecionando presencialmente nas unidades e os alunos que preferirem acompanhando as aulas de casa, por meio de transmissão ao vivo. O conteúdo do ano letivo de 2021 começará a ser dado em março. Os alunos que estiverem estudando remotamente farão as provas com a câmera do computador ligada e vestidos com o uniforme da instituição.

Novos conteúdos, só em março

No Colégio e Curso AZ, onde o ano letivo de 2020 já terminou no formato híbrido, as três primeiras semanas de aula de 2021, nomeadas de projeto AZ+, serão destinadas à revisão de conteúdos essenciais para alunos do 9º ano do ensino fundamental à 3ª série do ensino médio.

— No ano letivo de 2020, aplicamos diversos tipos de avaliações diagnósticas e formativas, que incluem questões mais interpretativas, abrangendo o conteúdo essencial de determinadas disciplinas, como matemática, química e física — conta Marina Stéfano, diretora das unidades Barra e Recreio. — A partir disso, geramos relatórios para balizar o planejamento pedagógico de 2021, com aulas de revisão das matérias em que os alunos tiveram mais dificuldade. Mais ou menos em março, começaremos o conteúdo do ano letivo de 2021, e só lá para o fim de abril teremos novas avaliações.

Já em 2020 a escola ofereceu reforço no contraturno das classes, abordando conteúdos básicos para que os estudantes conseguissem acompanhar as aulas. Segundo Marina, em geral os alunos tiveram bom desempenho, por já estarem acostumados ao ensino à distância:

— Nós já tínhamos uma plataforma on-line, com aulas gravadas, antes da pandemia. Só passamos a oferecer mais ferramentas, como aulas ao vivo e monitoria à distância. Então, as turmas foram muito bem. O que observamos como maior dificuldade foi o aspecto emocional dos alunos, pela falta de relação presencial com os amigos. Quando voltamos para a modalidade híbrida, percebemos que eles ficaram mais felizes.

No pH, instrumentos já usados para monitorar e melhorar o desempenho dos alunos rotineiramente serão usados mais intensamente em 2021. Como de hábito, no ano passado a aprendizagem dos estudantes foi mapeada por meio de provas e de uma lista semanal de exercícios de todas as disciplinas. O projeto de reforço inclui uma monitoria de apoio, que oferece exercícios extras e encontros individuais do estudante com o professor para alunos de todas as séries que apresentaram dificuldades nos testes e atividades.

— Convocamos o aluno a participar da monitoria de apoio quando percebemos que ele precisa de reforço em determinado conteúdo que já foi dado. Isso é feito para evitar que leve defasagem para a vida futura. O primeiro bimestre de 2021 será muito voltado para esse método. Além disso, começaremos o ano dando atenção a conceitos fundamentais do ano anterior nas aulas regulares. Só depois é que entraremos nos assuntos deste ano — explica o diretor de planejamento, Vicente Delorme.

Outro método de reforço que será bastante utilizado na escola este ano é a monitoria ao vivo, através da plataforma Google Meet. Neste caso, em vez de os alunos serem convocados, eles mesmos se inscrevem nos horários das disciplinas que têm interesse, para tirar dúvidas de determinada matéria em tempo real com o professor.

— A interação é total na sala virtual. Os alunos podem abrir o microfone e perguntar; o monitor compartilha a tela e conversa com os estudantes. Na monitoria ao vivo, as dúvidas surgem na hora, enquanto o docente explica o assunto, e são sanadas na hora também — explica Delorme.

Para as dificuldades que surgem enquanto o jovem estuda sozinho, a alternativa é o “Caminho das pedras”, um podcast para discentes a partir do 6º ano que oferece orientações, sem dar as respostas certas, para a resolução dos exercícios semanais, a fim de conduzir a aprendizagem.

O Santo Agostinho aplicou, ao longo do ano passado, uma sequência de avaliações diagnósticas. As provas abarcavam os conteúdos estruturantes das disciplinas, fundamentais para que o avanço nos estudos. Os alunos foram orientados a não fazer nenhum estudo prévio para os testes, nem recorrer à ajuda, e marcar a opção “não sei” quando não dominassem o assunto. O resultado servirá para nortear os planos de aulas deste ano letivo. A estratégia é que cada disciplina encaixe a revisão como for melhor para a dinâmica das aulas, paralelamente ao conteúdo de 2021 ou não.

Atenção personalizada se necessário

A Escola Eleva adota um programa de reforço personalizado, com uma estratégia diferente para cada aluno. Denominado Momento Flex, ele consiste numa parte da aula em que o estudante com alguma defasagem sai de sua turma regular e vai para uma outra sala a fim de revisar determinado conteúdo individualmente. Após a primeira semana do ano letivo de 2021, destinada a uma avaliação dos alunos, será este o processo utilizado para eliminar possíveis lacunas no aprendizado.

— A primeira semana terá uma sondagem, sem valor de prova e sem os alunos precisarem estudar previamente. Incluirá a construção do conhecimento através de grupos pequenos de discussão, em disciplinas como história. A partir daí, faremos um plano de ação. Se Maria, por exemplo, não conseguir atingir os objetivos em dada disciplina, no horário tal ela vai ficar com a professora para rever as matérias. O professor pode gravar um vídeo para o aluno ver em casa e trazer de volta dizendo o que achou. Tudo bem individualizado, porque acreditamos que possam estar em níveis diferentes, já que tiveram uma aprendizagem diferenciada num contexto atípico em 2020 — afirma Carmén Badaró, diretora da unidade Barra.

A Escola Parque também prevê reforço individualizado, mas apenas em casos pontuais, por acreditar que, apesar das adaptações necessárias, os alunos tiveram, em geral, um desempenho satisfatório no ano passado.

— A dificuldade de um aluno em uma matéria pode ter sido causada por conta de sua pouca participação nas aulas virtuais. Nesse caso, vamos aumentar a carga horária dele e pedir que o professor explique com mais calma e por algum método diferente os conteúdos, inclusive passando exercícios para a continuidade, em casa, do que aprender em sala de aula — explica a diretora, Mary Ferraz.

O Colégio Santo Agostinho aplicou, ao longo do ano passado, uma sequência de avaliações diagnósticas. As provas abarcavam os conteúdos estruturantes das disciplinas, fundamentais para que o aluno avance nos seus estudos.

Para a realização dos testes, os alunos foram orientados a não fazer nenhum estudo prévio nem recorrer à ajuda e marcar a opção “não sei” quando não dominassem o assunto da questão. O resultado servirá para nortear os planos de aulas para este ano letivo. A estratégia é que cada disciplina encaixe a revisão como for melhor para a dinâmica das aulas, paralelamente ao conteúdo de 2021 ou não.

Rede pública fornecerá acesso à internet

Na rede estadual, as aulas recomeçarão em 1º de março, mas, a partir de 8 de fevereiro, haverá aplicação de avaliações diagnósticas para todos os alunos dos ensinos fundamental e médio. Serão provas escritas, que não valerão nota, produzidas por um grupo de 70 professores, de diferentes áreas do conhecimento, representando todas as regiões do estado. Os exames vão incluir questões sobre aspectos socioemocionais, para que se entenda a situação do estudante neste retorno.

Os testes serão aplicados presencialmente nas unidades escolares, em esquema de escala, com horários marcados, para não haver aglomeração. A Secretaria de Estado de Educação (Seeduc) espera avaliar cerca de 600 mil alunos entre 8 e 26 de fevereiro.

A partir de março, começa o programa de reforço escolar, com a recuperação de matérias perdidas em 2020. Além das aulas ao vivo pelo Google Classroom, o conteúdo será disponibilizado em um novo aplicativo ao qual os alunos terão acesso a qualquer momento do dia, usando um pacote de internet da Seeduc.

— Lançaremos, no fim de fevereiro, um link através do qual o aluno, com uma senha, terá acesso ao aplicativo. Quando o estudante abrir o programa, deixará de usar a própria conexão e passará a usar a internet patrocinada pela secretaria. Isso é fruto de um contrato feito com as quatro operadoras, já que o funcionamento de cada uma oscila de acordo com a localização no estado. Cerca de 10% dos alunos da nossa rede não têm dispositivo eletrônico. Para essa parcela, entregaremos material impresso nas unidades — explica o secretário estadual de Educação, Comte Bittencourt.

O aplicativo terá material escrito em formato PDF, com orientações para guiar o estudo do aluno, incluindo links que ele pode acessar para realizar pesquisas que facilitem a compreensão do conteúdo, podcasts e videoaulas, que ajudarão a esclarecer os conceitos do material teórico.

A Seeduc selecionou 96 professores para elaborar material didático e gravar as aulas — às quais todas as escolas da rede estadual terão acesso —, para todas as séries, com os principais temas de cada disciplina. O conteúdo será dividido em bimestres e inclui os assuntos do ano letivo de 2021, que começará a ser dado a partir de maio.

Professor de matemática e física, Geneci Alves de Souza foi um dos docentes da rede escolhidos para a produção de material. Ele conta que busca recorrer a exemplos práticos para garantir melhor compreensão dos conteúdos de sua área:

— A internet tem vários simuladores de velocidade, por exemplo, importantes para a compreensão de conceitos da física, e nós os mostraremos. Acredito que a principal lacuna que será identificada pelas avaliações diagnósticas nessa área estará na parte de dinâmica, que envolve principalmente energia e Leis de Newton. Espero ser surpreendido, mas se presencialmente os alunos já apresentam uma certa dificuldade de compreender esses assuntos, com o trabalho remoto esse problema deve aumentar.

Na rede municipal, as aulas remotas voltarão no dia 8 de fevereiro; e as presenciais, no dia 24. Nas duas primeiras semanas, serão distribuídos materiais didáticos para que os alunos estudem em casa. Depois, a prefeitura pretende oferecer dados de internet aos 641 mil alunos, para assegurar que todos consigam acessar uma plataforma de aulas ao vivo, o aplicativo Rio Educa, cujo lançamento está previsto para meados de fevereiro. Os estudantes sem equipamentos eletrônicos vão receber material didático impresso nas escolas.