Hospital de Bonsucesso atende pacientes ao reabrir quatro prédios nesta quarta-feira

Rafael Nascimento de Souza
·4 minuto de leitura
Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo
Foto: Fabiano Rocha / Agência O Globo

Era pouco depois das 6h desta quarta-feira, quando, carregando duas bolsas de feira, a zeladora Maria Angélica da Silva, de 49 anos, chegou ao Hospital Federal de Bonsucesso. De Barra Mansa, no interior do estado, a senhora vinha para uma sessão de quimioterapia. Desde 2014 ela luta contra um câncer no pescoço que nos últimos meses se espalhou e já está na boca, provocando a queda de seus dentes.

Assim como dona Maria Angélica, dezenas de pessoas compareceram à unidade de saúde que pegou fogo há uma semana e estava fechada desde então. Muitas delas vindas de outros municípios. A partir de hoje quatro prédios (3, 4, 5 e 6) do complexo hospitalar de Bonsucesso serão reabertos para a retomada de parte das consultas e dos exames.

— Fiz (todo) o tratamento de pescoço e cabeça na Lagoa, mas agora o meu estado de saúde piorou. Cheguei a fazer cirurgia, a quimioterapia e a radioterapia, tudo na Lagoa. Mas, como atingiu a minha boa, me mandaram vir para cá — lamenta a zeladora.

Dona Maria Angélica comemorou a volta de atendimento na unidade de saúde. O que vai possibilitar sua cura.

— Graças a Deus (reabriram) porque eu preciso. Necessito de um tratamento, porque com o câncer eu nem consigo fazer um tratamento dentário porque se não quebra o meu maxilar. Tenho três filhos e meu sonho é ficar boa.

Nesta manhã, já é possível notar dezenas de pacientes que esperam atendimento no prédio 6, onde funciona o ambulatório.

Serão retomados os atendimentos ambulatoriais, sessões de quimioterapia, entrega de medicamentos oncológicos, realização de exames laboratoriais, retiradas de consultas e doações de sangue.

E seguem suspensos os serviços de emergência, cirurgias, internações, hemodiálise e exames de imagens.

O aposentado Félix Macedo Araújo, de 70 anos, morador da Vila do João, no Complexo da Maré, era um dos pacientes que estavam internados na unidade de saúde no dia do fogo. Com um problema crônico renal, na terça (27) o idoso fazia uma diálise.

Ele, que teve uma das pernas amputadas, conta que quando viu o fogo ficou desesperado e temeu pelo pior.

— Como um aleijado sem perna iria correr? Começou um corre-corre e de repente uma enfermeira me pegou pelo lençol e descemos as escadas correndo. Graças a Deus foi sorte. Naquele dia eu fazia diálise — disse seu Félix.

Carlos Antônio Corrêia, filho do idoso, conta que, como ele temia pelo pior, caso o pai não conseguisse fazer as diálises na unidade.

— Graças a Deus reabriu. Meu pai estava internado aqui há oito dias antes do incêndio. Ele recebeu alta e desde então estava em casa. Ontem, eles ligaram e disseram que ele poderia vir para a consulta de pneumologia. Estamos aliviados porque o problema dele é renal crônico e precisa de acompanhamento específico — contou Carlos.

O aposentado Alexander Costa também fez um transplante de rins há 43 dias. Ainda com pontos da cirurgia, o morador de Nova Iguaçu foi ao HFB para uma consulta de rotina e para a avaliação da retirada dos pontos.

Com diabetes, o que culminou na perda de uma das visões e com a necessidade de um transplante, o receio do aposentado era a rejeição do novo órgão.

— Nosso medo era não ter o acompanhamento, já que alguns pacientes têm reação a algum medicamento. Quando ficamos sabendo que tinha pego fogo e estava tudo paralisado, pensamos: e agora? Como será o tratamento e o acompanhamento? E isso causou um desespero na gente, pelo tempo do transplante. Desde a semana passada mandamos mensagens, e ontem eles marcaram a consulta. É um alívio muito grande. Não encontrar esse atendimento aqui é um risco de vida — lembra Alexander Costa.

Hospital reaberto por completo em até 60 dias

O diretor do Hospital Federal de Bonsucesso, Edson Joaquim Santana, garantiu na tarde desta terça-feira, durante uma reunião com a deputada federal Jandira Feghali (PC do B), o corpo clínico do HFB e representantes dos servidores, o retorno do funcionamento do prédio 1, atingido pelo incêndio, em até 60 dias. Santana também afirmou que mil funcionários concursados e terceirizados que atuam nos setores paralisados serão emprestados para outras unidades federais, mas que retornarão para a unidade de origem ao fim da reforma,

Ainda na conversa, ele afirmou que a perícia da parte elétrica do prédio 2 ficará pronta, e em até 15 dias o edifício será liberado para atendimentos.

A Polícia Federal já começou a investigar o que culminou no incêndio, que terminou com a transferência de cerca de 200 pacientes, interdição dos prédios 1 e 2 e acabou causando a morte de oito pessoas após o acidente.