Hospital de Bonsucesso tem atendimentos suspensos e recebe somente pacientes com diálises marcadas nesta quinta-feira

Rafael Nascimento de Souza
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Pacientes do Hospital Federal de Bonsucesso buscam por informações sobre consultas na manhã desta quinta-feira
Pacientes do Hospital Federal de Bonsucesso buscam por informações sobre consultas na manhã desta quinta-feira

Mais de 48 horas após o incêndio que atingiu o Hospital Federal Bonsucesso, na Zona Norte do Rio, bombeiros ainda tentam apagar focos de incêndio que insistem em continuar na unidade. Enquanto isso, pacientes que tinham diálises marcadas para esta quinta-feira estão fazendo o tratamento no prédio anexo ao do hospital. É o caso do estudante Douglas Ribeiro da Silva, de 25 anos. De Paraíba do Sul, no Sul Fluminense, o rapaz percorreu quase 100 quilômetros, em um carro da prefeitura municipal de sua cidade, para fazer o tratamento de câncer. Esse é um dos casos de exceção nesta manhã. Consultas, no entanto, estão suspensas no momento.

Muitos pacientes continuam indo até a unidade em busca de atendimento previamente agendados para algum tipo de consulta. Estes serviços já não estão sendo realizados no HFB. Os pacientes devem buscar por informações através do telefone.

Pouco depois das 9h, acompanhado de um familiar, o rapaz entrou na universidade de saúde para fazer a hemodiálise. Douglas tem um linfoma de Hodgkin, que se origina no sistema linfático. O estudante começou a fazer a hemodiálise hoje. No hospital, chegou a ser informado que não poderia fazer o tratamento, mais conseguiu. Com um semblante abatido, mas com esperança de se curar, o jovem disse:

— Graças a Deus que eu consegui (fazer a quimioterapia). Hoje vou fazer a hemodiálise — afirmou Douglas.

A direção da unidade afirma que apenas pacientes que fizeram cirurgias recentemente estão sendo atendidos nesta quinta-feira. A partir de amanhã, os pacientes serão realocados em outras unidades federais.

Enquanto isso, uma funcionária do hospital fica na porta do local anotando dados de pacientes que tinham consultas já agendadas ou que precisam de acompanhamento oncológico.

Um dos pacientes que foi ao local nesta manhã é o frentista Sebastião José de França, de 51 anos. Morador da Penha, Sebastião fez no ano passado uma cirurgia para a retirada de um câncer no fígado e desde então faz tratamento no hospital. O medo do paciente é que o acompanhamento oncológico seja interrompido.

— Eu estava com uma consulta de acompanhamento marcada para hoje. Eu fiz uma cirurgia no ano passado para a retirada de um câncer no fígado. Há um ano e meio estou nessa luta. Agora, a minha preocupação é ficar sem atendimento. Estou afastado do trabalho e isso dificulta a vida — lembra o frentista.

Sebastião ouviu da funcionária que anota os nomes na porta do hospital que ele deve aguardar por um telefonema da unidade em casa.

Um funcionário do HFB diz que a grande quantidade de pacientes procurando a unidade na manhã desta quinta-feira diz respeito aos agendamentos para algum tipo de consulta. Por serem, a grande maioria de outros municípios, a própria direção do hospital afirma que está tendo dificuldade para avisá-los que todas as consultas estão temporariamente suspensas.

— Não estamos conseguindo falar. O paciente tem que ligar para saber se vai ou não conseguir atendimento. Só estamos atendendo hoje nefrologia. As pessoas estão fazendo a diálise e serão transferidas. Eles serão atendidos em hospitais como o da Lagoa e dos Servidores. Mas pedimos que eles nos liguem — disse um funcionário sem se identificar.

Desde as primeiras horas do dia, a movimentação de pacientes é intensa no hospital. Muitos tentam informações sobre a continuação de tratamentos, consultas e operações.

É o caso da dona de casa Thais Marques, 37, que foi à unidade saber como será a continuidade do tratamento de câncer da avó. A paciente de 83 anos está com câncer de pele e há três anos faz acompanhamento na unidade de saúde.

— Não sabemos como será. Ela faz tratamento desde 2017. Agora, é aguardar e torcer para que esse problema se resolva logo.

Flávio Antonio de Sá Ribeiro, diretor tesoureiro do Conselho Regional de Medicina (Cremerj) e cirurgião licenciado do HFB, afirma que “hospital público que fecha não reabre”, fazendo alusão a interrupção temporária da unidade de saúde do Governo Federal. O médico teme que milhares de pessoas fiquem sem os atendimentos especializados que o hospital oferece gratuitamente.

— É um absurdo completo (a interrupção temporária). Por ano, (o Hospital de Bonsucesso) atende entre 50 mil e 70 mil consultas só no ambulatório. Nenhum hospital do Rio de Janeiro tem condições de absorver isso. Você tem mais de cinco mil pacientes oncológicos em acompanhamento aqui dentro. Tem as quimioterapias em curso, que não pode ser interrompida. Você não pode simplesmente dizer: “a partir de hoje você não faz mais quimioterapia aqui, fará em Ipanema”. Não pode ser assim. Tem que ter uma prestação do ambiente, compras de insumos para o paciente começar com o tratamento. Então, são pacientes com gravidades variáveis e dentro dessa gravidade você descontinuar, é muito grave — destaca.

O Hospital de Bonsucesso tem atendimentos específicos como hemodiálise e transplante renal em crianças, além de ser especializado em nefrologia.

— A cidade e o estado não podem ficar sem esse hospital. O Governo Federal tem que recuperar esses 40 anos de irresponsabilidade e tomar uma atitude. Esse carro não pode parar no estacionamento porque terão mortes. O Cremerj está junto dessa situação. Vamos perturbar em todas as instâncias para manter esse hospital aberto.

Pouco depois das 10h, três servidores do Cremerj chegaram ao hospital para vistoriarem às instituições da unidade de saúde. Os funcionários não quiseram falar com à imprensa.