Hospital volta atrás e desiste de demolir casarão histórico em Botafogo

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RIO — Após o anúncio da demolição de um casarão de mais de 80 anos da Rua Marechal Niemeyer, em Botafogo, que seria feita pelo Hospital Samaritano, causar revolta no bairro, a direção do hospital voltou atrás da decisão de levar abaixo a construção da década de 1920. Agora, o casarão passará por obras que ter sua fachada preservada e restaurada, o que resguardará as características originais da edificação. Assim, o casarão passará a servir para o setor administrativo da unidade hospitalar.

De acordo com o hospital, antes, a demolição no imóvel tinha sido definida, após laudos técnicos emitidos por empresas especializadas, em 2017 e em 2019, apontarem para o risco de desabamento. Já o Conselho Municipal de Patrimônio havia aceitado que a demolição fosse feita no dia 10 de maio, sem nada a opôr. Porém, moradores da região, memorialistas e até funcionários do próprio hospital se mostraram insatisfeitos com o processo. Por conta do choque com a decisão, chegou a ser realizada, às pressas, um protesto na frente do casarão na manhã da segunda-feira, 31, com a presença do presidente do Instituto Rio Antigo, o advogado e memorialista Daniel Sampaio.

— Agora, a história da casa será pesquisada e uma placa será colocada no local. A pressão da Associação de Moradores e Amigos de Botafogo (Amab), do Instituto Rio Antigo e de tantos outros cidadãos surtiu efeito. É um enorme alívio — afirma Daniel, que foi procurado pela direção do hospital para que desse sugestões ao projeto.

Por ser um imóvel anterior a 1930, o processo de licença para a intervenção também havia passado pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH) e pelo Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural (Sedrepahc), obtendo um nada a opor à demolição. Com a mudança de postura do hospital, o advogado também espera que se dê tempo de se levantar a história da construção, provando, assim, que ela é, de fato, de interesse cultural e histórico para o bairro:

— A gente sabe que não dá para se engessar uma cidade, pois os direitos de propriedade estão aí, mas não dá também para a gente ser tão radical. Pelo menos alguma discussão precisa existir e o povo precisa ter a chance de dizer qual é a memória de cada um que está contida ali.

Em nota, a Secretaria Municipal de Planejamento Urbano informa que o imóvel está fora do perímetro da Área de Proteção do Ambiente Cultural (Apac) do bairro, sem ser um bem tombado ou preservado e sem se encontrar na proximidade de bens tombados. Por isso, qualquer modificação no mesmo não depende de aprovação do Conselho Municipal de Patrimônio. "O bairro de Botafogo já foi amplamente estudado, inventariado e as devidas proteções foram feitas, grande parte destas expressas na Apac de Botafogo", diz a nota. Já Daniel propõe um novo modelo de discussão:

— Nós precisamos começar a pensar em um novo inventário de imóveis antigos, que vá além das Apacs, que são instrumentos importantes de proteção. Mas e as casas que estão fora do limite delas? Quem as protege?

Moradora de Botafogo há 10 anos, a jornalista Maria Cristina Costa e Silva da Cunha conduz uma página no Instagram com informações sobre o bairro da Zona Sul, e afirma que não dá para tratar o casarão como se fosse apenas uma "casa velha".

— Este seria o desaparecimento de um bem precioso, datado do século XX. A gente está cansado de ver a nossa história desaparecer não só aqui em Botafogo, mas em todo o Rio de Janeiro. Passou da hora da população ser ouvida sobre isso.

Ainda na segunda-feira, o casarão foi cercado de tapumes de metal e as obras estão começando pelos fundos, ainda sem a presença de maquinário.