Hostilizados por bolsonaristas em bloqueio de estrada, alunos da UFRJ desistem de viagem para estudos

Em meio às manifestações dos caminhoneiros nas estradas, um ônibus com trinta estudantes e três docentes de Geologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) não conseguiu ultrapassar os bloqueios da Via Dutra, na altura de Barra Mansa, no Rio. Eles viajavam para a cidade de Uberaba, em Minas Gerais, quando foram hostilizados por apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL), como antecipou a coluna do jornalista Ancelmo Gois, do GLOBO.

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A universidade informou, através de nota, que para proteger a vida do grupo, "os professores orientaram os estudantes a se dividirem em grupos e se encaminharem até o hotel mais próximo, portando apenas as roupas do corpo e documentos. Durante o caminho, os estudantes foram xingados, filmados, ameaçados e hostilizados pelos manifestantes, que impediram o direito constitucional de ir e vir".

O episódio levou a manifestações de repúdio ao longo desta terça, em grande parte porque o grupo viajava para a cidade de Uberaba, em Minas Gerais, para fazer pesquisa de campo, e foi obrigado a descer do ônibus.

— Estamos desde 10 horas da manhã (desta segunda) sem conseguir sair. Quando conseguimos ultrapassar a barreira, uma multidão de bolsonaristas não deixou a gente passar. Nos sentimos intimidados a todo momento. Eles cercaram o ônibus e começaram a filmar. Tivemos que sair, atravessar a pista, e ir para uma churrascaria. A gente passa, e as pessoas perguntam se votamos no Lula. Não nos sentimos seguros, estamos com medo — disse uma das alunas, em áudio.

No texto, consta ainda que os alunos, motoristas e professores estiveram parados no bloqueio em Barra Mansa desde as 10 horas da manhã de segunda, até a noite, enquanto eram sujeitos a retaliação por parte dos protestantes.

“Fomos informados que alguns ônibus foram liberados para furar o bloqueio, porém a viatura oficial da UFRJ foi barrada e não pode continuar a viagem. Os alunos já conseguiram sair do bloqueio a pé e caminharam por 6km na beira da estrada, sem o devido EPI (Equipamento de Proteção Individual), para conseguirem se instalar em um hotel de Barra Mansa. No caminho se sentiram acuados e amedrontados com as provocações recebidas”, diz a nota.

A reitora da UFRJ Denise Pires de Carvalho, em resposta, destacou que “os estudantes são o futuro do Brasil”, e que “as universidades significam a possibilidade de uma nação mais desenvolvida e merecem respeito, sejam elas públicas ou privadas”.

“Nós não teremos uma nação desenvolvida sem que essas instituições de Estado sejam respeitadas. É inadmissível que os estudantes tenham que seguir quilômetros a pé para o centro de Barra Mansa para ficar hospedados em um hotel, porque foram impedidos de seguir o caminho para essa aula. Mais do que isso, os estudantes foram ameaçados e atacados pelos manifestantes”, afirmou, em vídeo.

A reitoria da UFRJ atualizou uma nota nesta manhã, em que condenou o bloqueio e a hostilização por parte dos manifestantes, que impediram a continuação do trajeto. A instituição também lamentou a postura da Polícia Rodoviária Federal (PRF) que, ao tentar evitar “conflito com os caminhoneiros manifestantes”, não atuou prontamente para garantir o direito da comunidade acadêmica em estudar e seguir com a viagem.

“Os estudantes, professores e motoristas estão bem e devem desistir de seguir a aula que aconteceria em Uberaba, infelizmente, retornando ao Rio. A Reitoria espera que eles cheguem o mais rápido possível e em segurança, dado o estado de apreensão da comunidade acadêmica e, principalmente, de suas famílias”, afirmou a instituição, em nota.

Na noite de ontem, a reitoria havia declarado que, caso os estudantes e professores não fossem liberados até esta terça-feira, a reitora Denise Pires de Carvalho iria pessoalmente ao local para dialogar e interceder junto à PRF pela liberação pacífica do tráfego.

O Diretório Acadêmico do Instituto de Geociências da UFRJ também repudiou o episódio e “qualquer tentativa de tumultuar o resultado democrático obtido nas urnas no dia 30 de outubro, que deu fim a quatro anos de um governo truculento que incita o ódio às universidades federais”.

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A Sociedade Brasileira de Geologia também protestou contra o que chamou de “ação violenta, contrários a democracia”. “Reforçamos a importância e urgência na identificação e punição das pessoas envolvidas na promoção das agressões e violências políticas”, escreveu a instituição.