HQ ilustrada por brasileiro reflete sobre relações sociais entre humanos e robôs

No futuro distópico da HQ “Nem todo robô”, cada família tem um autômato para chamar de seu. A máquina trabalha para os humanos, mas não em serviços domésticos. Os robôs são tão desenvolvidos que possuem inteligência artificial e são eles que trabalham fora, para obter o sustento dos donos.

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Assim, as famílias se tornam financeiramente dependentes das máquinas, que reclamam publicamente da condição. Para as criaturas eletrônicas, nós, humanos, além de emotivos, precisamos de manutenção constante. E de três refeições por dia!

“Ouvi falar que tem humano que dorme até oito horas por dia!”, comenta, surpreso, um robô em um programa de TV, ao vivo.

Recheado de crítica social, o quadrinho escrito pelo americano Mark Russell e ilustrado pelo brasileiro Mike Deodato Jr. acaba de sair no Brasil pela editora Comix Zone e foi indicado ao Prêmio Eisner, considerado o Oscar dos comics, como melhor série de humor, além de melhor nova série.

— Fiquei impressionado com o script, em poucas páginas Russell conseguiu introduzir o cenário, os principais personagens, e ainda dar voz para cada um deles, tudo isso de maneira natural — conta por e-mail o desenhista paraibano, que já trabalhou com grandes escritores nas HQs, como Brian Michael Bendis, J. Michael Straczynski e Jeff Lemire. — É um dos roteiros mais inteligentes que já li.

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Deodato diz que topou o convite do editor Axel Alonso, da AWA Studios, mas logo ficou em dúvida, pois achou que o tipo de humor de Russell combinaria mais com a arte do britânico Dave Gibbons ou Steve Dillon (morto em 2016):

— Expliquei isso ao Axel e ele me disse que eu era Mike Fucking Deodato, e que poderia desenhar qualquer coisa, que meu estilo serviria para deixar o humor mais sutil. No final, ele tinha razão.

Para um artista como Deodato, que trabalha há quase 30 anos para o mercado americano de quadrinhos, desenhando para Marvel, DC e, atualmente, editoras novas como a AWA Studios, a indicação ao Eisner foi uma agradável surpresa. Mesmo que indiretamente, foi a primeira vez que “disputou” o prêmio.

— Porém, o mais importante é que é um projeto autoral, meu e de Russel — conta o desenhista paraibano. — Não são personagens de uma editora, são nossos, criação nossa. Isso faz a indicação ser ainda mais especial. Talvez se fosse para alguma revista da Marvel ou da DC, com personagens deles, eu me sentisse um pouco com síndrome de impostor.

Por falar em impostor, é possível reconhecer alguns dos rostos em “Nem todo robô”, como Michael Douglas, Jennifer Jason Leigh e Michael K. Williams. Usar atores de cinema como referência é uma das características do estilo de Deodato.

— Isso começou quando li o quadrinho “Mestre do Kung Fu”, de Gulacy, nos anos 70, em que ele usou Bruce Lee, Marlon Brando, James Coburn e outros como referência. Fiquei muito impressionado e inspirado a fazer o mesmo — explica Deodato, de 59 anos. — Escolho “meu elenco” baseado na descrição do personagem no roteiro. Depois, vou atrás de referências em filmes.

Segundo Deodato, há planos de continuar a série com Russell. Mas só no ano que vem, pois existem outros projetos na fila, como “Newthink”, com Gregg Hurwitz, e “Absolution”, com Peter Milligan, além de outros dois com a AWA e mais um com o jornalista Rodrigo Salem, que ele ainda mantém sob sigilo.

“Nem todo robô”. Autores: Mark Russell e Mike Deodato Jr. Tradução: Érico Assis. Editora: Comix Zone. Páginas: 120. Preço: R$ 94,90.

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