Huawei apresenta sistema operacional para competir com Android

Por Sébastien RICCI
Richard Yu, diretor de negócios de consumo da Huawei, revela o novo sistema operacional HarmonyOS da empresa durante uma conferência de imprensa em Dongguan, província de Guangdong

Ameaçada de perder seu acesso ao Android devido às sanções dos Estados Unidos, a gigante de telecomunicações chinesa Huawei apresentou nesta sexta-feira (9) o novo sistema operacional que deve equipar seus celulares.

O sistema, chamado HarmonyOS, foi apresentado pelo diretor-executivo da divisão de consumo, Richard Yu, em uma coletiva de imprensa na cidade de Dongguan (sul).

"Queremos trazer mais harmonia ao mundo", disse ele.

O sistema operacional vai equipar os diferentes dispositivos da marca dentro do mesmo "ecossistema".

Considerada a líder da tecnologia 5G, a Huawei foi incluída na lista negra do governo Trump por suspeita de servir como um canal para a espionagem chinesa, uma acusação que o grupo nega.

Consequentemente, as empresas americanas não são mais autorizadas, em tese, a vender produtos tecnológicos.

As autoridades americanas decidiram adiar as sanções por três meses, uma extensão que expira na semana que vem. Essa proibição também afeta o Google e o fornecimento de seu sistema operacional Android, que equipa a grande maioria dos telefones celulares do mundo, incluindo a Huawei.

O grupo sempre defendeu publicamente o desejo de substituir o Android em seus telefones por um sistema operacional próprio, mas afirma ter sido forçado a fazê-lo pelas sanções dos Estados Unidos.

Richard Yu disse que a Huawei pode assim prescindir do Android.

"Se não podemos mais usá-lo, podemos passar todos os nossos aplicativos para o HarmonyOS", destacou.

"Poderíamos fazê-lo imediatamento, mas nossa prioridade ainda é continuar utilizando o ecossistema Android", garantiu o diretor, que classificou a Google como uma "empresa muito boa".

- "Completamente distinto" -

Lançar um sistema operacional com todo ecossistema que o acompanha e conseguir convencer usuários e programadores a utilizá-lo é uma tarefa árdua.

Além do Android, do Google, o único sistema operacional suficientemente ampliado é o iOS da Apple, disponível apenas no iPhone.

A empresa de Shenzhen vem trabalhando em seu próprio sistema operacional desde 2012, inicialmente projetado para a Internet das Coisas (IoT).

"O HarmonyOS é completamente diferente do Android e iOS", afirmou Yu.

O Google também está trabalhando em um sistema de operacional multiuso, "mas que ainda não está em estado de utilização", completou.

Em 2010, a Microsoft tentou lançar uma versão móvel de seu Windows, mas conseguiu oferecê-lo apenas em seus próprios telefones celulares.

Quanto ao sistema "isento de royalties" Tizen, que a Samsung criou, é confidencial até o momento.

Sem acesso à versão completa do Android, dos populares serviços do Google e dos múltiplos aplicativos disponíveis na loja do Google Play, a Huawei poderá enfrentar dificuldades para conquistar os consumidores fora da China.

Yu disse que o HarmonyOS será instalado nas telas inteligentes que o grupo começará a vender no final do ano.

Em seguida, ele será incorporado a outros dispositivos (relógios inteligentes, alto-falantes inteligentes, sistemas de automotivos) primeiro na China e, depois, no restante do mundo.

Richard Yu respondeu evasivamente quando questionado sobre o cronograma de implementação do sistema operacional.

"Ainda não é a ordem do dia", disse ele, explicando que a decisão dependerá da evolução das sanções dos EUA.

O sistema estará disponível a todos na forma de "open source".

"Queremos construir um sistema operacional global que não será usado apenas pela Huawei", afirmou Yu.

Enquanto isso, a Huawei permanece no meio do embate aberto entre China e Estados Unidos.

Na quinta-feira, a China denunciou as regras anunciadas pelos Estados Unidos para vetar o grupo e outras empresas chinesas nos mercados americanos, acusando Washington de "abuso de poder".

A Huawei foi fundada na década de 1980 por um ex-engenheiro do Exército chinês, Ren Zhengfei.

A filha dele, Meng Wanzhou, foi presa no ano passado no Canadá a pedido dos Estados Unidos. É acusada de ter violado um embargo contra o Irã, quando era a diretora financeira da Huawei.

Meng continua no Canadá, e um pedido de extradição ainda está pendente. Sem esses "elementos externos", a Huawei poderia ter-se tornado a primeira fabricante mundial de celulares desde o início deste ano, observou Yu.

O grupo ocupa a segunda posição, à frente da Apple, mas atrás da sul-coreana Samsung.