Humanidade, vítima de sua ação destrutiva sobre a natureza

Por Amélie BOTTOLLIER-DEPOIS
1 / 2
Florestas e plantações na Indonésia

Como deter a destruição da natureza, vital para a humanidade? Governos e cientistas se reúnem na semana que vem em Paris para alertar sobre o estado dos ecossistemas do planeta, atingidos, como o clima, pela ação do homem.

Esta avaliação mundial é a primeira em quase 15 anos: 150 especialistas de 50 países trabalharam durante três anos, reunindo milhares de estudos sobre biodiversidade.

Seu informe de 1.800 páginas será submetido a partir de segunda-feira aos Estados-membros da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), que discutirão ponto por ponto.

"O patrimônio ambiental mundial - a terra, os oceanos, a atmosfera e a biosfera -, do qual depende a humanidade está sendo alterado em um nível sem precedentes, com impactos em cascata sobre os ecossistemas locais e regionais", indica o rascunho do resumo do informe obtido pela AFP, que ainda poderá ser modificado.

Água potável, ar, insetos polinizadores, florestas que absorvem o CO2... A constatação sobre estes recursos é tão alarmante como o último informe do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que no ano passado destacou a brecha crescente entre as emissões de gases de efeito estufa e o objetivo de limitar a mudança climática e seus efeitos catastróficos.

O texto relaciona além disso a perda de biodiversidade com o aquecimento, na medida em que ambos os fenômenos estão acentuados em parte pelos mesmos fatores, como as práticas agrícolas e o desmatamento, responsáveis por cerca de um quarto das emissões de CO2 mas também por graves danos aos ecossistemas.

A exploração de terras e de recursos (pesca, caça) são as maiores causas da perda de biodiversidade, seguidas das mudanças climáticas, da poluição e das espécies invasivas.

- 6ª extinção em massa -

O resultado é "uma aceleração rápida, iminente do nível de extinção de espécies", segundo o rascunho. Das oito milhões de espécies estimadas no planeta - das quais 5,5 milhões são de insetos -, "entre meio milhão e um milhão estarão ameaçadas de extinção, muitas delas nas próximas décadas".

Estas projeções correspondem às advertências de muitos cientistas que estimam que a Terra está no início da "6ª extinção em massa", a primeira desde que o homem habita o planeta.

Mas várias fontes próximas às negociações lamentaram que o projeto de síntese não seja tão claro e não mencione esta extinção em massa.

"Não há dúvida de que estamos caminhando em direção à 6ª extinção em massa, a primeira causada pelo homem", declarou recentemente à AFP o presidente do IPBES, Robert Watson. "Mas não é algo que o público possa ver facilmente".

Para que haja uma tomada de consciência, "é preciso dizer a eles que perdemos insetos, florestas, espécies carismáticas".

Também "os governos e o setor privado devem começar a levar a sério a biodiversidade, tanto quanto o aquecimento", insistiu o cientista.

Um ano antes da esperada reunião na China dos Estados-membros do Convênio da ONU sobre Diversidade Biológica (COP15), muitos especialistas esperam que o informe do IPBES seja uma etapa crucial em direção a um acordo de envergadura como o assinado em Paris em 2015 contra a mudança climática.

A WWF espera que esta COP15 fixe "objetivos de alto nível".

"Se queremos um planeta sustentável em 2050, devemos contar com uma meta muito agressiva para 2030", indicou Rebecca Shaw, cientista-chefe da ONG. "Devemos mudar de trajetória nos próximos 10 anos, como com o clima".

Mas dado que os remédios para o aquecimento global que implicam mudanças maiores no sistema produtivo e de consumo já suscitam grandes resistências, o que acontecerá com a biodiversidade?

"Será ainda mais difícil, porque as pessoas são menos conscientes dos problemas de biodiversidade", afirma Jean-François Silvain, presidente da Fundação francesa para a Pesquisa sobre a Biodiversidade.