IBGE mostra que a desigualdade no Brasil não vê “mérito”, mas vê cor

 

Manifestantes protestam contra morte de jovens negros no Rio (Tomaz Silva/Agência Brasil)

Existe um país, dentro do Brasil, em que a taxa de desemprego não atinge dois dígitos (9,5%). Neste país, o rendimento médio é de três salários mínimos, o analfabetismo está quase erradicado (3,9%), a informalidade atinge apenas 35% dos moradores e sete em cada dez têm acesso a saneamento.

Esse é o país dos brasileiros branco.

O dos negros é um outro Brasil, onde a taxa de desocupação chega a 14,1%, o rendimento médio é menor do que dois salários mínimos, quase um em cada dez é analfabeto e metade da população não têm trabalho formal ou acesso a esgoto.

No primeiro país, 15,5% das pessoas vivem abaixo da linha de pobreza. No segundo, a taxa é quase o dobro: 32,9%.

Os números do levantamento “Desigualdades Sociais por Cor e Raça” foram divulgadas na quarta-feira, dia 13, pelo IBGE.

O estudo apontou que pretos e pardos, que representam 56% da população brasileira, vivem em desvantagem no mercado de trabalho mais de 130 anos após o fim da escravidão. 

Para cada R$ 1.000 pagos a uma pessoa branca, um trabalhador preto ou pardo ganha R$ 575. Se for mulher e negra, o valor chega a R$ 444.

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A discrepância pode ser observada na ocupação de cargos gerenciais, dominados por brancos (70%), e na composição dos 10% mais ricos e dos 10% mais pobres no Brasil. 

Traduzidos, os números mostram 75% dos mais pobres são negros, e os brancos, 70% dos mais ricos.

A distância entre negros e brancos no Brasil apontados pelos número desmascara qualquer delírio sobre meritocracia em um país de bases escravocratas e tem no acesso à educação uma rara boa notícia: pela primeira vez, pretos e pardos são maioria no ensino público superior. Coincidência ou não, é justamente neste momento em que o desmonte da universidade é uma proposta que toma fôlego e ganha corações e mentes. 

A constatação é parte da PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) também divulgada pelo IBGE na quarta-feira. 

Em 2018, o grupo de pessoas negras chegou a 50,3% - índice ainda inferior ao da população em geral (vale lembrar, de 56%). 

O avanço é atribuído ao sistema de cotas, que ganhou força a partir de 2016, quando pelo menos 50% das vagas do Sistema de Seleção Unificada do Ministério da Educação passaram a ser reservadas por critérios de renda ou cor.

Na rede privada, porém, negros ainda são minoria: 46,6%.

Hoje, é possível dizer que o portão de entrada da universidade é a principal ferramenta para aproximar os dois países dos primeiros parágrafo.

Isso se o governo atual deixar.

Uma das propostas da PEC do Pacto Federativo apresentada pelo governo Bolsonaro prevê a desobrigação do poder público de expandir sua rede escolar em regiões com carência de vagas e alunos, conforme mostrou uma reportagem da Folha de S.Paulo.

A ideia é ampliar a participação do ensino privado no país.

A meritocracia dos que podem pagar agradece.