Ibovespa tem forte queda após Haddad não falar em fiscal

Por Paula Arend Laier

SÃO PAULO (Reuters) - O Ibovespa encerrou a última sessão da semana com forte queda, com agentes financeiros reagindo a incertezas sobre o rumo fiscal do país, principalmente após Fernando Haddad (PT), apontado como favorito ao Ministério da Fazenda, não abordar ajuste fiscal em discurso a executivos de bancos nesta sexta-feira.

O Ibovespa caiu 2,55%, a 108.976,70 pontos. O volume financeiro somou 20 bilhões de reais, afetado pelo fechamento antecipado de Wall Street, ainda em razão do feriado do Dia de Ação de Graças, que voltou a reduzir a liquidez na bolsa paulista.

Na semana, porém, o Ibovespa contabilizou um acréscimo de 0,1%, endossado particularmente pela alta de 2,7% na quinta-feira, marcada por giro financeiro enxuto com o feriado nos Estados Unidos e estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo.

Na sessão, Itaú Unibanco foi a principal influência negativa ao Ibovespa, enquanto CSN foi a única do índice a fechar no azul.

Em evento da Febraban nesta sexta-feria, Haddad, ex-prefeito de São Paulo, discursou em nome do presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e afirmou que uma reforma tributária ampla terá prioridade total no início da gestão, mas não fez referência a uma âncora fiscal para controlar o gasto público.

A jornalistas após o evento, ele defendeu que a discussão da âncora fiscal fique para depois da transição de governo, para que se possa criar uma regra com sustentabilidade e que seja crível.

Haddad também driblou perguntas diretas sobre a possibilidade de assumir o Ministério da Fazenda e defendeu que Lula tenha tempo para nomear seu gabinete ministerial.

"Olha, não se deve constranger um presidente. A gente tem que deixar o presidente com a maior liberdade possível para compor sua equipe e sua escalação", disse Haddad ao ser questionado se aceitaria um eventual convite. "Deixa o Lula escalar a seleção dele."

A afirmação sobre a Fazenda não convenceu, enquanto o tom generalista do discurso do ex-prefeito de São Paulo decepcionou aqueles que esperavam uma sinalização mais rigorosa do ponto de vista fiscal.

Para Luis Novaes, analista na Terra Investimentos, o fato de ele ter sido escolhido por Lula para ser seu porta-voz em um evento de grande repercussão para o mercado financeiro foi visto como um sinal claro de que há uma significativa possibilidade de ele ser o próximo ministro da Fazenda.

"E essa é uma escolha que não agrada o mercado por ser um nome, sobretudo, político", acrescentou. "As pautas que o mercado vê com maior importância poderiam ser postas em um plano secundário, tendo em vista a visão do ministro. Portanto, a reação nesse primeiro momento é negativa", disse o analista.

Na visão de Alfredo Menezes, gestor e sócio da Armor Capital, o discurso de Haddad decepcionou. "Ele foi supérfluo sobre responsabilidade fiscal e o mercado esperava algo mais forte", acrescentou.

Haddad subiu ao palco do evento da Febraban logo após o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, alertar que não se pode ter a política monetária de um lado e a fiscal do outro.

Novaes destacou que o adiamento do anúncio da PEC da Transição sinaliza uma resistência do Congresso que pode limitar os impactos fiscais da proposta sugerida pelo governo eleito, mas que o risco de alternativas para garantir recursos a programas sociais e de que o titular da Fazenda tenha perfil político mantém o desconforto.

Em Brasília, o ex-ministro Aloizio Mercadante, coordenador técnico da transição, disse que alternativas à PEC ainda não estariam na mesa ainda e que teria havido avanços nas negociações sobre o texto final da proposta.

A falta de acordo político levou a mais um adiamento da apresentação do PEC que, na melhor das hipóteses, deve ser protocolada pelo autor, o senador Marcelo Castro (MDB-PI), apenas na terça-feira da semana que vem.

"O risco fiscal é o mais relevante para o cenário econômico doméstico", afirmou a equipe da Rio Bravo, gestora que tem entre seus sócios o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco.

Em Nova York, os principais índices acionários não fecharam em direção comum, com tímidas variações.

DESTAQUES

- CVC BRASIL ON encerrou em baixa de 6,85%, a 5,03 reais, afetada pela alta do dólar ante o real, em um momento no qual também crescem os casos de Covid no país e autoridades retomam algumas medidas adotas anteriormente, como a obrigatoriedade de máscaras em transportes públicos em São Paulo.

- VIA ON caiu 6,28%, a 2,24 reais, com o setor de varejo como um todo na ponta negativa, apesar da Black Friday, uma vez que o cenário macroeconômico do país não referenda otimismo para as compras na data ou no final do ano, em período ainda marcado pela Copa do Mundo. MAGAZINE LUIZA ON cedeu 5% e AMERICANAS ON recuou 2,06%.

- LOJAS RENNER ON recuou 6,26%, a 23,97 reais, também contaminada pelas perspectivas mais desfavoráveis para consumo dado o risco de um eventual descontrole fiscal e seus reflexos na inflação e taxas de juros. No segmento de varejo de vestuário, GRUPO SOMA ON caiu 4,66%.

- QUALICORP desabou 8,39%, a 5,68 reais, liderando perdas no Ibovespa e fechando sua terceira semana consecutiva de queda.

- B3 ON perdeu 4,82%, a 12,05 reais, devolvendo parte do avanço da véspera, quando fechou em alta de 5,6%.

- PETROBRAS PN caiu 1,61%, a 23,86 reais, corrigindo parte da alta da quinta-feira, uma vez que persistem incertezas sobre o futuro da companhia com a troca de governo no país. Investidores estão na expectativa da primeira reunião da equipe de transição do governo eleito com o presidente da Petrobras, Caio Paes de Andrade, agendada para a próxima segunda-feira. No exterior, o petróleo também terminou o dia em queda.

- VALE ON recuou 0,68%, a 80,9 reais, cedendo à pressão vendedora, mesmo após os futuros do minério de ferro na China ampliarem rali, amparados em medidas de suporte reveladas para o setor imobiliário chinês, embora os casos recordes de Covid-19 no país asiático preocupem. O contrato mais negociado na Dalian Commodity Exchange encerrou as negociações diurnas com alta de 3,3%.

- CSN ON destoou do restante da bolsa e subiu 0,81%, a 14,99 reais, em sua quarta alta seguida, impulsionada em parte pela alta do minério de ferro.

- ITAÚ UNIBANCO PN recuou 3,53%, a 25,99 reais, e BRADESCO PN cedeu 1,85%, a 15,35 reais.