‘Ida de Moro ao Ministério da Justiça é cinismo completo’, diz líder do MST

Joao Pedro Stédile no Festival de Artes do Movimento Sem Terra em Curitiba (PR). Foto: Joka Madruga/Futura Press

Por Rafa Santos 

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra completou 34 anos em 2018. Entre perdas e conquistas, uma das maiores iniciativas populares do mundo terá no governo de Jair Bolsonaro um grande adversário. Sempre que pode, o presidente eleito faz questão de manifestar o desejo de tipificar o MST e o MTST como entidades terroristas.

Principal líder do movimento, o economista João Pedro Stédile concedeu entrevista exclusiva ao Yahoo Notícias. Ele ponderou sobre o atual cenário político, a derrota da esquerda na eleição presidencial, atuação do judiciário e fez um balanço das gestões petistas no plano federal.

Yahoo Notícias: O que a vitória de Bolsonaro nas urnas significa para os movimentos sociais?

João Pedro Stédile: Houve uma vitória eleitoral do projeto do capital financeiro, aliado com o capital estrangeiro, apoiado na militância de direita encrustada nas PMs, nas FFAA, no agronegócio e na maçonaria.  Essa vitória só foi possível porque utilizaram de forma ilegal, a partir de apoio externo de potentes computadores para disseminar mentiras, de forma sistemática através das redes sociais, em especial WhatsApp, e Facebook.  Foram milhões de mensagens incontroláveis, construídas de forma científica para atender os grupos sociais segmentados.

Agora, teremos um governo de natureza neofascista, com um plano econômico ultraneoliberal, que vai aumentar ainda mais as dificuldades do povo e aprofundar a crise econômica no país.  Seu projeto se baseia unicamente em beneficiar o grande capital, e para isso se concentrará na liberdade total ao capital, com as privatizações, o desmonte dos serviços públicos, da previdência,  para sobrar mais dinheiro para pagamento de juros. E haverá uma maior subordinação de nossa economia aos interesses do capital dos Estados unidos.

E aos que não concordarem, prometem repressão, como disse na campanha que iria massacrar a minoria.

Yahoo Notícias:  A historiadora francesa Maud Chirio em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo afirmou que o que pode ser encarado como “bravata” do discurso de Bolsonaro é, na verdade, um sistema de pensamento. Ela acredita que a eleição do candidato do PSL representa o fim da Nova República e prevê que movimentos sociais como o MST e o MTST serão declarações organizações terroristas e o PT interditado. Como o senhor enxerga essa análise?

João Pedro Stédile: Claro, que as bravatas fazem parte de uma forma de comunicação com seus apoiadores, com uma base social dispersa, que é anti-sistema,  anti-elites, por ironia e aos que eram  anti-pt. Mas esse discurso não tem ressonância numa base social real organizada na sociedade brasileira. Por isso, já está mudando. O discurso foi apenas cortina de fumaça, para não se discutir os projetos antagônicos que estavam em disputa na eleição. Como disse o historiador Murilo de Carvalho, se ele transformar o discurso de campanha em prática política, seria burrice e suicídio.

Os movimentos populares em geral, e em particular o MST e MTST  se baseiam no direito constitucional, de liberdade de expressão e organização, para organizar nosso povo a resolver seus problemas concretos, de moradia, de trabalho e acesso a terra.  Estamos protegidos pela constituição e pela sociedade. Se ele cometer a besteira de nos criminalizar, se isolaria da sociedade.   E teria que rasgar a constituição.     

Parece que pelo menos o futuro ministro da justiça já entendeu isso e se manifestou publicamente contra criminalizar movimentos populares.

A luta social e coletiva  é a única forma democrática e civilizada do povo enfrentar e resolver seus problemas de melhoria das condições de vida.  Fora disso é a barbárie, o vale tudo, o salve-se quem puder.

Yahoo Notícias: Qual a sua opinião sobre a ida do juiz Sérgio Moro para o Ministério da Justiça?

João Pedro Stédile: Achei que foi um escárnio, um cinismo completo, um tapa na cara do povo brasileiro.  Porque ficou claro que o juiz agia o tempo inteiro para impedir a candidatura Lula, que ganharia em qualquer cenário, e beneficiar o candidato Bolsonaro.  Em qualquer sociedade democrática, que as instituições jurídicas funcionassem de forma neutra, o processo eleitoral seria investigado e anulado.  Aquilo que dizíamos de que uma eleição sem Lula seria uma fraude planejada.  Agora se revelou, com todos os seus contornos.

Mas aqui no Brasil o poder judiciário, formado majoritariamente por  filhinhos da burguesia e da pequena burguesia, sem legitimidade do voto popular, que se escudam em concursos fajutos, (porque a autoridade não pode vir do concurso, segundo a constituição, todo poder, e portanto o poder judiciário) deve emanar do povo.  E o povo,  a sociedade não tem nenhum controle social sobre o Judiciário, que faz o que quer, como quer.  Haja visto esta afronta do auxilio moradia, das férias… E dos altos salários. E agora o STF aumentar seus próprios vencimentos em 16%. Porque não aplicam então para todos trabalhadores?

O general Mourão  deveria explicar agora, se o 13 salário, uma conquista histórica, é mochila  de peso para os empresários, como se pode classificar os altos salários e mordomias do intocável poder judiciário?

Em algum momento da nossa história teremos que fazer uma reforma política, do modelo de aplicação da democracia que inclua a reforma do poder judiciário.

Yahoo Notícias: Uma característica comum no processo eleitoral neste ano é o discurso de relativização e até desrespeito aos direitos humanos. Essa retórica foi adotada por diferentes personagens. Desde candidatos à presidência até postulantes ao legislativo estadual e se mostrou vitorioso em muitos casos. O senhor acredita que caminhamos para o desrespeito sistemático dos direitos humanos por agentes do Estado?

João Pedro Stédile: Não acredito. A sociedade brasileira não se organiza apenas através do estado. O governo, o poder judiciário e as forças policiais podem ser mais repressores, porem há na sociedade brasileira, outras formas de organização social, que servirão como barreira, resistência e anteparo, contra essa ofensiva conservadora.  Além das contradições que existem dentro do próprio governo eleito e seus aliados.  Ele vai continuar discriminando negros e índios, quando grande parte dos membros das PMs e FFAA são negros e índios? Continuará com discurso e práticas homofóbicas, e como será quando se encontrar com governadores eleitos que são homossexuais?

Yahoo Notícias: Após quatro vitórias seguidas, o PT foi derrotado. Como o campo da esquerda brasileira pode ser encarado após esse insucesso? 

João Pedro Stédile:  A esquerda brasileira tem muitos problemas.  Evidentemente que cometeu muitos erros nos seus governos, e não soube ter a humildade de reconhece-los e fazer a autocrítica. Mas fundamentalmente a esquerda perdeu a batalha ideológica com a direita, quando a direita, usando todo seu poder econômico, midiático e do judiciário, impôs a sua narrativa para a sociedade.  E conseguiu convencer uma grande parcela dos pobres, do proletariado.

Estamos enfrentando uma crise econômica histórica, estrutural e internacional.  É da natureza e da responsabilidade do sistema capitalista essas crises, como aconteceu na década de 30, 60 e  80, em nosso país.  Mas agora a direita disse e convenceu de que a culpa da crise foram os governos do PT.  A corrupção faz parte dos métodos dos capitalistas se apoderarem dos recursos públicos e para isso pagam as volumosas propinas a alguns operadores políticos.  Os dois maiores partidos em numero e volume denunciados na Lava-jato foram o PP e o MDB.  No entanto só aparece que o Lula é o culpado.

Os governos do PT foram governos neo-desenvolvimentistas, um pouco abaixo da social-democracia europeia clássica. A direita emplacou a marca de que eram comunistas, que distribuíam kit gays, mamadeiras de todo tipo…etc

E infelizmente com a força do capital e da mídia, uma parte do povo acreditou e deu a vitoria ao Bolsonaro. Precisamos enfrentar essa batalha ideológica na sociedade com todas as ferramentas possíveis.

Precisamos fazer um profundo debate estratégico. Retomar o trabalho de base, para conscientizar e organizar os trabalhadores. Priorizar o trabalho com as redes e meios de comunicação próprios. E pensar novas formas de lutas populares que melhorem as condições de vida do povo.

A esquerda não pode pensar apenas em ganhar eleições. Precisa ter como meta fundamental organizar o povo e recuperar a hegemonia das ideias da classe trabalhadora na sociedade.  Recuperar os valores humanistas e socialistas, e praticá-los, como a solidariedade, a defesa da justiça social e da igualdade entre todos os seres humanos.

Yahoo Notícias: Liderados por Ciro Gomes e o PDT, uma nova frente pretende se contrapor ao protagonismo do PT no campo da esquerda. Como o senhor encara esse movimento?

João Pedro Stédile:  Isso é natural, mas é um movimento de articulação apenas parlamentar, institucional. Como movimentos populares, nós precisamos ajudar a constituir uma Frente Ampla Democrática, aonde todos os democratas, progressistas, religiosos e intelectuais possam participar. Sem o protagonismo de partidos políticos. Formar essas frentes em cada estado, para serem uma resistência e denunciar iniciativas fascistas e de retirada dos direitos dos trabalhadores. Uma frente que tenha como plataforma a defesa da democracia, da soberania nacional, dos direitos sociais, da pluralidade de ideias e da defesa do meio ambiente.

Yahoo Notícias: Lideranças políticas consolidadas como Geraldo Alckmin, Marina Silva e Ciro Gomes amargaram resultados ruins nesse processo eleitoral. Quais lideranças, não só no campo da esquerda, saíram fortalecidas desta eleição?

João Pedro Stédile: As lideranças que quiseram defender uma proposta de centro, foram derrotadas, porque a eleição se transformou numa luta de classes, entre dois projetos.  Um projeto do grande capital e um projeto da classe trabalhadora.   Quem ficou no meio, não teve espaço, independente de sua trajetória, natureza ou vontade política.

Também foram derrotados todos os políticos que estavam identificados com o governo golpista do Temer.  O povo não perdoou o golpe.  Todos eles foram derrotados, Perondi, Romero Jucá, Magno Malta, Eunício de Oliveria e os líderes dos tucanos.

No quadro eleitoral, há diversas expressões importantes que se elegeram na esquerda, no centro e na direita. E por tanto do ponto de vista eleitoral saíram vitoriosos. Houve vitoriosos de todos os matizes ideológicos.  Não houve uma vitória única, de um setor.

Na direita, houve substituição de velhos quadros, por novos quadros, ainda mais reacionários, e alguns originários das forças policiais e militares. Sem nenhuma experiência da luta política institucional.

Na esquerda, acho que a eleição dos 12 governadores do Nordeste que formam um arco geográfico do Pará até Espirito Santo, foi muito importante. E entre eles a vitória de Fátima Bezerra, no Rio grande do Norte, é um alento.  Pois ela derrotou uma oligarquia que controlava o estado, há 400 anos…  E se transformou a única governadora do país.  Tenho esperanças que haverão mudanças positivas muito importantes por lá.

Movimentação na 3ª Feira Nacional da Reforma Agrária que acontece no Parque da Água Branca em São Paulo (SP). Foto: Ronaldo Silva/Futura Press

Yahoo Notícias: Durante muito tempo, o MST foi encarado com simpatia pela opinião pública. Nos últimos anos essa percepção mudou. O que aconteceu?

João Pedro Stédile: O MST só existe porque a sociedade brasileira nos apoia, nos defende e compreende nossa luta histórica. Numa sociedade que levou 400 anos para derrotar a escravidão de pessoas.  Em que tivemos jornais, como o “Estadão”, que no seu nascimento vendia pessoas nos classificados… lutar pela democratização da propriedade da terra é uma luta histórica, que vai levar também muitos  anos… Que aliás já tem décadas, desde a luta dos quilombolas, Canudos, ligas camponesas , até o dia de hoje.

A burguesia, as elites, claro, sempre combatem com todo seu arsenal midiático, dos governos e do poder judiciário, qualquer iniciativa do povo se libertar e democratizar a terra, água, os bens da natureza que deveriam ser comuns.    

Apesar disto a sociedade nos defende.  Veja, nós realizamos feiras de reforma agrária com produtos agroecológicos em todos os estados.  O apoio é impressionante.  Aqui em São Paulo todos os anos fazemos uma feira nacional.  Na última realizada em maio de 2018, passaram pelo Parque da Água Branca 150 mil pessoas.  Acho inclusive, que agora, além da democratização do direito a terra, que é uma bandeira democrática, que todos países desenvolvidos aplicaram, nós estamos avançando para que a população entenda que o modelo do capital, o agronegócio não consegue produzir alimentos sadios.  Só produz com agrotóxico e expulsando a população do campo.  Nós defendemos a produção agroecológica, para garantir alimentos sadios, preservar a saúde das pessoas, o equilíbrio com meio ambiente e prover mais trabalho no meio rural. Felizmente  estamos encontrando aliados até entre a elite também, que sabe que agrotóxico gera câncer e outras doenças. Alguns deles já estão produzindo nesta forma, como o empresário Paulo Diniz e sua esposa.

O MST vai muito bem obrigado, o que vai mal é a reforma agraria, como um processo de democratização da propriedade da terra…

Yahoo Notícias: Vivemos um período marcado pela distribuição massiva de fake news e do assassinato de reputações via redes sociais. Como o MST se prepara para lidar com mentiras sobre o movimento disseminadas no ambiente virtual?

João Pedro Stédile: Esse realmente é um problema muito grave. E não só do MST mas de toda sociedade brasileira.  Veja que até a ministra Rosa Weber, de forma patética, disse que não tinha o que fazer… Imagino que ela deveria saber que as mentiras eram disparadas por potentes computadores desde o exterior, de forças reacionárias que apoiaram o Bolsonaro, desde os Estados Unidos, Israel e Taiwan.

O desafio das forças populares e da sociedade brasileira é como se proteger dessa avalanche de mentiras.  E que vai continuar.  O esquema continua montado, como revelou um empresário do sul, do Instituto Liberdade, agora vão usar o mesmo esquema para convencer a população da necessidade da reforma da previdência, da pressão sobre os parlamentares etc.

Precisamos encontrar formas de bloquear as mentiras, e se contrapor com as verdades,  e isso deve ser feito em todos os espaços, seja nas redes sociais, mas também e sobretudo no trabalho de base, na conversa de casa em casa, nos locais de trabalho, escolas, e nas ruas.

E espero que o poder judiciário, em especial o TSE crie vergonha, contrate especialistas para bloquear o uso de Facebook e do WhatsApp, na difusão dessas mentiras.

Recomendo que os leitores procurem ler o livro “Guerras Híbridas”, publicado pela expressão popular, escrito em 2014, que descreve com detalhes esses métodos como parte da nova estratégia do governo dos Estados Unidos e da direita mundial, para controlar os governos.  Já foi aplicado para eleger o Trump, para Brexit na Inglaterra, na Índia, e agora no Brasil.  E um dos seus mentores e assessor do Trump, o senhor Steve Bannon,  anunciou que essas novas forças reacionárias se aglutinarão numa articulação que se chama “Movimento”  e que farão a primeira reunião em janeiro na Bélgica, para se contrapor ao encontro de Davos, dos capitalistas. Ou seja, eles conseguem ser mais reacionários, e por isso também são neofascistas, do que os 500 capitalistas mais inteligentes que se reúnem  todos os janeiros na Suíça em Davos, para debater formas de continuar acumulando capital.

Yahoo Notícias: O MST completou neste ano 34 anos de atuação. Quais foram os maiores erros e maiores acertos da entidade?

João Pedro Stédile: Nos sempre adotamos a metodologia de fazermos avaliação interna de nossos erros e acertos.  Como forma de corrigir e seguir adiante, e por isso estamos firmes e fortes há 34 anos.   Nenhum movimento de camponeses que lutou pela reforma agraria, sobreviveu no Brasil tanto tempo.

Há temas e erros, que procuramos manter de forma interna, até para não servir de munição para nossos inimigos, os reacionários do latifúndio.

Mas entre nossos acertos, foi ter  focado na educação, e compreendido que não basta ter terra, é preciso ter conhecimento.  E por isso incorporamos na nossa luta, a conquista da educação, em todos os níveis.  Desde a alfabetização dos adultos, na nossa base, até a conquista ainda no governo FHC, do direito dos camponeses entrarem na universidade em cursos especiais, na forma de alternância, que é o Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (PRONERA).  E nós já formamos mais de cinco mil militantes em cursos superiores, e centenas em mestrados e doutorados.  Este é o nosso maior orgulho.

Também acertamos, ainda que tardiamente, em adotar a agroecologia, como um conjunto de técnicas agrícolas para produzir alimentos de forma saudável e em equilíbrio com meio ambiente. Enfim tivemos muitos erros, mas os acertos nos permitiram chegar até aqui.

Yahoo Notícias: Seja por falta de políticas públicas de incentivo ou pelo poder financeiro do agronegócio, muitas famílias assentadas passaram a vender suas terras nos últimos anos. O que o MST faz para coibir a prática?

João Pedro Stédile: A questão da venda de lotes conquistados na reforma agraria, tem vários aspectos que precisam ser compreendidos. Primeiro, o MST e todos os movimentos somos contra a venda de terra, e aprovamos na constituinte, uma lei que garante a titularidade dos lotes na forma de  concessão de uso real,  ou seja, a terra é destinada a uma família, que pode deixar para seus herdeiros, pode até trocar com outro beneficiário, mas não pode vender ou comprar.  O governo golpista do Temer, tentou aplicar nos últimos anos, uma política de estimulo, para que os assentados aceitassem a titulação privada, com objetivo de estimular a venda. Cada funcionário do Incra que conseguisse  convencer famílias assentadas  ganhava como premio um Laptop.  Pode?  Felizmente a força de nosso movimento esta barrando essa política, e o Temer, além de sair logo, terá que responder na justiça, por suas falcatruas, a não ser que o senhor Bolsonaro, garanta uma embaixada…

Segundo, a existência de venda de lotes existe, e na média nacional atinge 10% dos beneficiários, o que é muito baixo.  O índice mundial segundo a FAO é de 15%. E aqui ela acontece mais na região amazônica, aonde a pressão do capital  é maior, pois é uma forma rápida e legal, dos fazendeiros ampliarem suas fazendas, com áreas publicas antes destinadas a reforma agraria.

Terceiro, a sociedade precisa compreender, que esse processo de venda ou troca,  é normal, em qualquer agrupamento social.  Mesmo nos prédios da classe media, ou do programa minha casa minha vida,  tem mudanças, vendas… E nem por isso se disse, que não vale a pena construir prédios.

Nós procuramos evitar a pratica da venda,  por vezes ajudando a troca de lotes, quando os vizinhos não se entendem ou o beneficiário quer ficar mais perto de outros familiares.  E fazemos campanha permanente contra a venda.  Infelizmente quem está  estimulando a venda é o governo golpista, e seus burocratas oportunistas, os fazendeiros vizinhos, justamente para desmoralizar nossa luta e nossa causa.

Yahoo Notícias: Qual o balanço que o senhor faz dos anos do PT no poder no que diz respeito à reforma agrária?  Poderia ser feito mais? 

João Pedro Stédile: Nós sempre tivemos uma postura crítica aos governos do PT no quesito da reforma agraria, basta acompanhar a memória histórica de nossa página na internet.  Seguimos nossa luta,  tivemos que fazer muitas ocupações, fizemos muitas marchas, para seguir pressionando. E sempre defendemos o princípio da autonomia dos movimentos populares em relação aos partidos, aos governos, às igrejas e ao estado.

Houve avanços em termos de desapropriação de latifúndios no primeiro mandato do Lula, e depois houve uma lentidão e no último governo da Dilma, a reforma agraria parou.  Muitos fatores influenciaram: a política econômica, a falta de preparo dos gestores, um INCRA (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) muito burocratizado, o poder judiciário sempre contra a reforma agrária.  E a própria natureza do governo, que era um governo de composição de classes.   Muitos latifundiários faziam parte do governo e impediam o avanço da reforma agrária.   

Mas o principal debate de fundo é que os governos Lula-Dilma acreditaram que era possível compartilhar as políticas públicas entre a reforma agraria e o agronegócio.  Porque o agronegócio estava dentro do governo também.

Nós  dizíamos, que o problema não era a convivência entre a grande propriedade produtiva e a necessidade de reforma agraria. O que o governo precisava deixar claro é que o agronegócio é o modelo do capital de espoliação da agricultura, e por tanto deveria ficar apenas na esfera do mercado, que eles tanto defendem. E que as políticas públicas e a preocupação do governo deveria ser com os camponeses, sem terra e com os agricultores familiares.

Entre as políticas públicas  que representaram avanços nesses governos, que  conquistamos, de forma coletiva com todos os movimentos e os parlamentares progressistas, tivemos o programa de compra antecipada de alimentos dos agricultores.  A expansão do PRONERA, como acesso a universidade,  a política de merenda escolar, dirigida para agricultura familiar e agroecológica. E a elaboração do plano de redução do uso de agrotóxicos.

A expansão do crédito do  Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF), que muitos elogiam, na nossa opinião, atendeu apenas aos interesses das agroindústrias que integravam os camponeses, e por isso 75% era aplicado no sul.

Yahoo Notícias: Qual a sua opinião sobre a escolha da deputada Tereza Cristina para o cargo de Ministra da Agricultura? 

É natural que com a nova correlação de forças oriundas das urnas, o governo indicasse de novo, uma deputada ruralista para o cargo.

Não conheço a trajetória dessa senhora.  Só sei que no parlamento ficou conhecida como a Rainha dos agrotóxicos. Ou seja, lá atuava em defesa dos interesses das multinacionais como a  Bayer, BASF, Syngenta, DuPont e Monsanto, que são as que produzem e ficam com o lucro do agrotóxico.

No passado recente, havíamos tido outro rei dos agrotóxicos, no parlamento, era o deputado Moreira, do Mato grosso. Infelizmente não está mais conosco, morreu de câncer no estômago, provavelmente causado por alimentos contaminados por agrotóxicos.

Espero apenas que ela compreenda algum dia, que a função primordial da agricultura na sociedade, o ato de cultivar o agro, é produzir alimentos saudáveis e garantir acesso a toda população.  Já que o alimento é um direito de todo ser um humano e  não uma mercadoria. E o modelo do agronegócio não consegue e nem quer desempenhar essa função social.