Identificados restos mortais do jornalista britânico desaparecido na Amazônia

A Polícia Federal (PF) anunciou nesta sexta-feira (17) que foram identificados os restos mortais do jornalista britânico Dom Phillips entre "o material" encontrado em uma zona remota da Amazônia onde um dos suspeitos da sua morte disse que o enterrou, juntamente com o corpo do indigenista Bruno Pereira.

"A confirmação foi feita com base no exame de Odontologia Legal combinado com a Antropologia Forense", informou a PF em um comunicado.

A PF acrescentou que trabalha para estabelecer a "identificação completa" do material encontrado no local, onde também se acredita que esteja enterrado o corpo de Pereira, um respeitado indigenista.

Os restos mortais de Phillips, 57 anos, colaborador do jornal "The Guardian", estavam em uma área apontada pelo pescador Amarildo da Costa de Oliveira, conhecido como 'Pelado', que confessou na terça-feira ter enterrado os corpos na floresta, perto da cidade de Atalaia do Norte.

No dia seguinte, 'Pelado', um dos dois suspeitos detidos pelo crime, levou as autoridades até o local onde os enterrou. O outro detido é seu irmão, Oseney.

A polícia encontrou ali os restos humanos e os levou de avião para Brasília na quinta-feira, onde continuavam em análise nesta sexta "para a compreensão das causas das mortes, assim como para indicação da dinâmica do crime e ocultação dos corpos".

A Polícia Federal anunciou em um novo comunicado publicado na noite desta sexta-feira que busca um terceiro homem, Jeferson da Silva Lima, de quem se desconhece sua relação com o caso.

- Versões desencontradas -

Phillips e Pereira, de 41 anos, estavam na Amazônia como parte da preparação de um livro do jornalista sobre a preservação ambiental na região.

Eles foram vistos pela última vez em 5 de junho, quando viajavam de barco rumo a Atalaia do Norte. Dali começaram a se retirar boa parte dos militares, muitos deles fortemente armados, enviados para os trabalhos de buscas, constataram jornalistas da AFP.

A cidade fica no Vale do javari, que abriga uma imensa reserva indígena perto da fronteira com o Peru e conhecida por sua periculosidade. Ali operam narcotraficantes, pescadores e garimpeiros ilegais.

A polícia havia dito mais cedo nesta sexta-feira que suas investigações indicam que os grupos criminosos que atuam naquela área não têm relação com a morte do jornalista e do indigenista.

Mas a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), cujos membros participaram ativamente das buscas, refutou quase que imediatamente a versão policial.

"Não se trata apenas de dois executores, e sim de um grupo organizado que planejou minimamente os detalhes desse crime", afirmou a Univaja, ressaltando que autoridades haviam ignorado numerosas denúncias sobre as atividades de grupos criminosos naquele território.

- Medo entre os indígenas -

Em abril, a organização enviou a autoridades um relatório no qual explicava que "Pelado" estava envolvido em atividades de pesca ilegal e já havia sido "acusado de ser autor de ataques com armas de fogo em 2018 e 2019 contra uma base da Funai".

Vários especialistas acreditam que grande parte da pesca ilegal de espécies ameaçadas no Vale do Javari está sob controle de narcotraficantes, que usam a venda do pescado para lavar o dinheiro da droga.

A Univaja refere-se a uma "poderosa organização criminosa que tentou a todo custo ocultar seus rastros durante a investigação" do duplo homicídio, lembrando que Bruno Pereira, que trabalhava na Funai, já havia sofrido ameaças de morte.

Após a saída das autoridades, uma vez concluído o resgate dos corpos, a população teme por sua segurança após ter participado das operações de buscas e denunciado atividades ilícitas, disse à AFP o coordenador-geral da Univaja, Paulo Marubo.

"A Polícia Federal quer retirar a equipe e deixar as outras pessoas, aqueles que fizeram de testemunhas, deixar as vidas delas em risco. Porque nós vamos continuar morando aqui. E o Estado não vai fazer nem a mínima segurança", afirmou Marubo, que diz ter recebido ameaças.

O caso de Phillips e Pereira suscitou uma onda de solidariedade internacional e voltou a provocar críticas contra o governo do presidente Jair Bolsonaro, acusado de incentivar as invasões de terras indígenas e sacrificar a preservação da Amazônia para sua exploração econômica.

Os Estados Unidos pediram nesta sexta "justiça" pelos assassinatos e proteção aos defensores do meio ambiente.

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