Idosos de 75 anos se frustram com adiamento de vacinação contra Covid-19: 'Desorganização total'

Rodrigo de Souza e Márcia Foletto
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RIO — A enfermeira aposentada Teresa de Lourdes, de 75 anos, não via a hora de o dia 12 de março chegar. Era a data da distribuição da vacina contra a Covid-19 para pessoas com 75 anos ou mais, segundo o calendário de vacinação da prefeitura divulgado no dia 2. No entanto, ela foi dormir sem saber da suspensão da campanha, anunciada pelo prefeito Eduardo Paes em sua conta no Twitter às 21h19 desta quinta-feira (11). Às 8h45 desta sexta, ela chegou ao Palácio do Catete, na Zona Sul, onde há um ponto de vacinação, com um documento de identidade na mão e o braço preparado para a injeção. Estranhou o movimento — havia "pouquíssimas pessoas", diz. E logo recebeu dos funcionários da unidade a notícia de que não havia vacina para ela.

— Eu disse a eles, então, que estava marcada para o dia 12 a vacinação de pessoas com 65 anos, e que eu estava ansiosa para esse dia. Como é que dizem que não tem vacina para uma pessoa que viu na televisão, na noite anterior, que receberia vacina? Isso é uma desorganização total, falta de respeito com as pessoas. Os próprios governantes dizem uma coisa e noutra hora dizem outra. Como suspendem a campanha depois que o prefeito e o Ministério da Saúde disseram que novas remessas haviam chegado? — desabafa.

Em entrevista ao GLOBO, o secretário municipal de Saúde Daniel Soranz atribuiu a suspensão da campanha a duas razões: um déficit no repasse de doses pelo Ministério da Saúde — que não entregou a quantidade prevista de frascos para o início de março — e a vinda de idosos de outros municípios para se vacinar no Rio. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), dos 469 mil idosos imunizados até agora, 42 mil moram em outras cidades.

Nossa reportagem visitou alguns postos de vacinação do município na manhã desta sexta-feira (12). No Palácio do Catete, o movimento era consideravelmente menor do que nos outros dias, até para a distribuição da segunda dose: por volta das 10h, pouquíssimos frascos reservados a injeções de reforço haviam sido aplicados, segundo a coordenação do posto. No CMS Heitor Beltrão, na Tijuca, Zona Norte, a procura era maior: 250 das 450 doses destinadas à segunda aplicação já tinham sido distribuídas, informou a direção do local. No CMS João Barros Barreto, em Copacabana, na Zona Sul, uma fila para a vacinação chegou a se formar por volta das 8h.

— Naturalmente, pessoas que não são da região entraram na vez de quem se vacinaria agora. Me desculpe, está uma bagunça. E quem se prejudica é a população. Nem sequer há previsão de retomada da vacinação — diz Teresa.

Julieta Salgado, de 75 anos, também se frustrou ao tentar uma dose do imunizante nesta sexta-feira. Ela chegou às 8h no CMS João Barros Barreto, em Copacabana, na Zona Sul.

— Ontem à tarde, meu marido chegou a ir ao posto para confirmar que haveria vacina para mim no dia seguinte. Fui hoje ao posto e descobri que não tinha — conta.

A aposentada ressalta que, apesar das dificuldades do confinamento, não abriu mão das medidas de contenção da doença, como ficar em casa e não promover reuniões presenciais. Tudo na expectativa da vacinação em massa.

— É nossa única esperança, né? Para não morrermos — desabafa. — Estamos vivendo uma guerra contra o vírus, e temos que esperar. O Ministério da Saúde não manda a vacina, como é que vamos nos vacinar?

Para ela, a organização da campanha de imunização no Rio "poderia ser bem melhor". Julieta também expressa preocupação quanto à vacinação das próximas faixas etárias, que tendem a ter populações ainda maiores.

— Se o número de pessoas com 75 anos foi maior que o previsto, imagina o de pessoas com 65?

O que diz a prefeitura

Para resolver o gargalo da vacinação contra a Covid-19 no Rio, a prefeitura considera pedir uma maior parcela das futuras remessas de vacina que chegarem ao estado, segundo o secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz. A medida é uma tentativa de compensar as doses aplicadas no Rio a pessoas vindas de outros municípios, conforme apontam os dados da prefeitura.

A pasta já confirmou que proporá um calendário de vacinação estadual único, para evitar o deslocamento de pessoas entre as cidades. Quando a campanha for retomada, o município do Rio poderá também antecipar a data de vacinação de alguns grupos para reparar o atraso desta semana, disse ainda Soranz.