Idosos com mais de 85 anos fazem planos na fila de vacinação em SP

ALFREDO HENRIQUE
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Na fila para tomar a primeira dose da vacina contra a Covid-19, no autódromo de Interlagos (zona sul da capital paulista), idosos com idades entre 85 e 89 anos já faziam planos para quando estiverem completamente imunizados. Nesta quinta-feira (11), primeiro dia de vacinação para essa faixa etária na capital, no sistema drive-thru, mais de 40 veículos se alinharam em um dos portões de acesso do local, desde as 5h50. A vacinação para idosos com mais de 85 anos estava prevista para começar na segunda-feira (15), mas foi antecipada para a sexta-feira (12) em todo o estado. Porém, na noite de quarta-feira (11), o prefeito (PSDB), anunciou mais uma antecipação da imunização para esta quinta. O aposentado José Pinheiro de Andrade, 86 anos, era o primeiro da fila, formada na avenida Jacinto Júlio. Ele e seu filho, o empresário José Newton de Andrade, 60, chegaram ao local por volta das 5h50. Confinado em casa desde o início da quarentena, em março do ano passado, o aposentado afirmou não ver a hora de voltar à sua rotina, na qual se mantinha em constante movimento na rua. "A primeira coisa que irei fazer, vai ser ir à missa. Assisto pela televisão, mas não é a mesma coisa." O filho dele afirmou levar o pai para uma chácara em Sorocaba (99 km de SP), quando sente que o pai está mais deprimido. "Meu pai é um trator, ele é muito ativo. A pandemia deixou ele um pouco para baixo, pois não consegue se movimentar como antes. Quando dá, levo ele para a chácara. Lá, ele carpe terreno, não para um segundo." O aposentado foi o primeiro idoso, com idade entre 85 e 89 anos, a ser vacinado no drive-thru da zona sul. Segundo o prefeito , a cidade conta com 86 mil pessoas com essa faixa etária. O segundo vacinado foi o aposentando José Freire de Carvalho, 85. Acompanhado da esposa, 71 anos, e do filho, 49, ele afirmou estar em casa há 11 meses. "Faço caminhadas dentro da vila [onde mora] ou na esteira", afirmou. A primeira coisa que ele pretende fazer, após a imunização, é um churrasco para aglomerar toda a família. O aposentado Manoel Afonso Araújo, 85, gosta de tomar bons drinques, algo que a pandemia não impediu de ser feito em casa. Porém, ele sente falta de se sentar na mesa de um bar ou no balcão e curtir um dia preguiçoso regado a cerveja, caipirinha e um bom papo, sem precisar usar máscara de proteção. "A primeira coisa que vou fazer, depois de tomar a segunda dose [da vacina] é sentar em um bar e tomar uma cervejinha sem preocupação [com a Covid-19]." Os portões do autódromo abriram às 8h, pontualmente. Logo na entrada, funcionários da Saúde, em uma tenda, verificavam se a documentação dos idosos estava correta, da mesma forma que a faixa etária deles. Quem não faz parte do perfil do grupo, é impedido de continuar no local. Após isso, os veículos trafegaram até uma segunda tenda, onde foi verificado se os idosos estavam com uma guia de trânsito, entregue na primeira etapa de seleção. "Acontece de algumas pessoas entrarem no autódromo, falando que irão na pista [de corrida], mas mudam o caminho e tentam furar a fila da vacinação", explicou um funcionário, que realizava a segunda triagem. Os eventuais "furões", porém, não contam com a guia entregue pela Saúde e, por isso, são convidados a se retirar. Passando por essa tenda, veículos onde estão pessoas aptas a serem imunizadas, finalmente são liberados para irem ao ponto de vacinação, onde profissionais da saúde se dividem entre duas filas de carros, para aplicar as doses da vacina. Não tomou vacina Cabisbaixa, a aposentada Maria Andina de Mello, 84 anos, voltava da tenda de vacinação, por volta das 8h20. "Me falaram que não posso tomar vacina, pois ainda não tenho 85 anos. Uma vizinha me disse que podia e, por isso, vim aqui ver se tomava [a primeira dose]. Mas não adiantou", lamentou. Ela completa 85 anos em 3 de abril, mas antes disso, em 1º de março, está previsto o início da vacinação para este tipo de público, conforme anunciado nesta quarta-feira (10) pelo governo estadual. A senhora afirmou não se preocupar com a Covid-19, mas pretende se imunizar para evitar que seu enteado, de 64 anos, seja infectado. "O que eu tinha que viver, já vivi. Meu medo é o menino [enteado] pegar o vírus. Ele tem problema cardíaco e neurológico e eu sou a única pessoa que cuida dele neste mundo, desde que o pai morreu", explicou. Em uma hora, foram vacinados 52 idosos no drive-thru do autódromo, quase uma pessoa por minuto. A aposentada Odette Gargiulo, 86, foi imunizada às 9h em ponto. Acompanhada da neta, uma nutricionista de 29 anos, a idosa sorridente também faz planos para quando for completamente imunizada. "Sinto muita falta de fazer hidroginástica, essa será a primeira coisa que vou fazer, além de andar bastante pela rua." Prefeitura Além dos cinco pontos de drive-thru, a Prefeitura de São Paulo também começa a vacinar idosos acima de 85 anos em 468 UBSs (Unidades Básicas de Saúde), a partir desta sexta-feira, mesmo dia em que também começará a imunização de 2.200 pessoas em situação de rua, acima de 60 anos. O governo municipal afirmou ter vacinado 34 mil pessoas com mais de 90 anos, ultrapassando em mil o número de idosos residentes na capital paulista acima desta faixa etária. "Aqui na cidade de São Paulo o SUS [Sistema Único de Saúde] é porta aberta. A gente não nega atendimento a ninguém. Pessoas que procuram os drive thrus e UBSs [dentro da faixa etária permitida] estão sendo vacinadas, isso é normal", afirmou o prefeito , em coletiva de imprensa nesta quinta, destacando que pessoas de outras cidades costumam também usar o sistema de saúde pública da capital. A vacinação de idosos a partir de 90 anos começou no estado nesta segunda (8). Na cidade de São Paulo, a imunização dessa faixa etária foi antecipada desde a sexta-feira passada (5).