Idosos em Copacabana adotam cuidados para evitar contágio do novo coronavírus

Ana Paula Blower

RIO — “Não tenho tendência depressiva, mas essa situação tem me deixado muito triste. Dá até vontade de chorar”. Aos 75 anos, sem sair de casa desde o último dia 14, Maria Alice Lenzi teme não só por seu estado de saúde, mas pelo que pode acontecer com familiares, amigos e a sociedade em geral. A empresa onde trabalha liberou por tempo indeterminado todos os funcionários acima dos 60 e com doenças preexistentes como ela, que é hipertensa.

— Não vou sair de casa. Cada um deve fazer sua parte, nossas ações podem atrapalhar ou ajudar nessa hora. Suspendi por um tempo, além do trabalho, encontro com amigos. E não estou vendo meus filhos e netos — conta ela. — Fui ficando mais apreensiva nos últimos dias, com as notícias mostrando o tamanho do vírus no mundo.

Maria Alice mora em Copacabana, bairro com o maior número de idosos no Rio — 43.431, o equivalente a 29% de toda a população do local e a 14% do total de idosos do município, segundo o Censo do IBGE, de 2010. A administradora reflete o sentimento de seus vizinhos mais velhos: apreensão por integrar o grupo de risco para a Covid-19. Ruas e praças, agora vazias,contrastam com os mercados, onde muitos idosos procuram alimentos — vários usando máscaras e luvas de borracha. Aos 83 anos, Lilia Muller é uma delas.

Além de fazer parte do grupo de risco, a aposentada aderiu aos itens de proteção porque mora com o marido, que é três anos mais velho. Esta semana, ela saiu rapidamente de casa para ir ao banco e ao mercado. Para Lilia, o idoso carioca ainda não está levando o vírus a sério como deveria:

— Estou pasma em ver nas ruas muitas pessoas, sem se cuidar... Saí rapidamente porque precisava. Meus filhos também fazem parte de grupo de risco, então não vamos nem nos ver mais.

Já a psicanalista Dorita de Almeida, de 73 anos, só saiu de casa para tomar vacina pneumocócica em uma clínica particular de Copacabana. Além de medidas particulares como priorizar o isolamento, ela optou por atender seus pacientes de forma remota.

— A medida partiu de mim mesma porque vi que tinha que colaborar com a diminuição do trânsito de pessoas pela cidade. E é preciso manter o atendimento porque essa situação gera uma angústia. Não sabemos até quando acontecerá o confinamento —ressalta.

Filhos e pais aflitos

Mas nem todos os idosos de Copacabana parecem assustados com a pandemia de coronavírus.

— Quando se chega aos 83, não se tem medo de mais nada — comenta Ilma Serra, que não gosta de álcool gel porque diz que a incomoda e não usou máscara para fazer compras em um supermercado lotado no bairro.

Já sua filha, a engenheira Patricia Rosa, de 58, demonstrava comportamento oposto: estava de máscara e luvas, além de usar álcool nas mãos a todo momento. Ela é mãe de uma jovem que sofre de síndrome rara e incapacitante, a Dravet, e fica emocionada ao pensar na possibilidade de contrair a Covid-19.

— Nem posso imaginar o que seria da minha filha se acontecesse alguma coisa comigo. E nem quero pensar se meus pais adoecerem, minha mãe tem mais de 80, e meu pai, 90 — diz Patrícia. — Eu não tenho medo, mas a situação da menina, sim, me deixa muito triste.

O uso de máscaras, por outro lado, não é uma orientação geral. A geriatra Maísa Kairalla, da Comissão de Imunização da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG), alerta que o uso ainda é recomendado apenas para quem apresenta sintomas ou convive com quem pode estar doente. A médica explica que é importante trocar a máscara periodicamente.

— Precisamos ter muita consciência para que não faltem recursos para quem precisa. O uso da máscara é importante para quem tem sintomas, ou se você está perto de alguém que tem. É preciso usar com consciência. Não é possível a população inteira usar máscara — destaca.

Uma dose de carinho

Ainda não se sabe o número exato de pessoas com 60 anos ou mais infectadas pelo coronavírus no Brasil e no mundo, mas elas integram o grupo de risco, principalmente se têm uma doença crônica, como diabetes. Diante disso, manter o isolamento domiciliar voluntário é a recomendação geral para interromper a transmissão do vírus.

— Situações drásticas exigem respostas drásticas. A recomendação é clara: se tem 60 ou mais, deve restringir ao máximo o contato social — orienta o médico gerontólogo Alexandre Kalache. — Todos devem respeitar isso para o nosso bem, para evitar o colapso do serviço de saúde: 83% dos idosos precisam do Sistema Único de Saúde (SUS).

Mas esse isolamento, por outro lado, tem efeitos emocionais, ainda mais em quem já experimentava a solidão e tinha poucas atividades externas. Com isso, ações de solidariedade, tanto para apoio prático, como para abastecer a despensa, e conversas a distância com uso de tecnologia são importantes e cada vez mais rotineiras nos prédios e comunidades do Rio.

— É a hora que precisamos exercer a solidariedade. Vamos buscar os agentes que podem trazer conforto, quebrar a solidão. Adote um idoso. Você sabe quem mora na sua vizinhança e tem pouco apoio, ausência de familiares? Procure fazer com que ele não se sinta só. Dê a mão física, colaborando com questões práticas, mas também a virtual, a do carinho que eles precisam igualmente — diz Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade.

Cuidados especiais são necessários

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*Colaborou Letícia Lopes