Idosos mudam de carreira e realizam velhos sonhos: de balé a tatuagem

Lu começou as aulas de balé aos 60 anos, Francisco passou para a faculdade de Medicina aos 64, e Nilton fez a primeira tatuagem aos 93. Eles envelheceram, mas não se deixaram paralisar com a passagem do tempo: aproveitaram as condições que tinham em mãos para realizar sonhos antigos e se aventuraram em novos projetos. Se para alguns a velhice representa o fim da vida, eles descobriram um novo começo, afinal, podem até ter se aposentado do trabalho, mas da vida, nem pensar.

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— Quando vi no meu e-mail que eu tinha sido aprovado no vestibular, pelo amor de Deus, eu fiquei numa alegria tão grande! Era o sonho da minha mãezinha e o meu também. O meu grande objetivo na Medicina é ajudar as pessoas carentes — conta Francisco Almir Freitas Brito, de 64 anos.

O enfermeiro aposentado é de Fortaleza, mas vai se mudar para o interior do Ceará, perto da faculdade, em Quixadá. Ele se aposentou trabalhando no Hospital Universitário Walter Cantídio, da Universidade Federal do Ceará.

— Sempre gostei de estudar. Chorei quando li a mensagem de uma antiga aluna dizendo que sabia que eu já era médico desde aquela época e que eu fui a maior inspiração dela na faculdade — conta Francisco, emocionado.

Mas nem todas as mensagens foram de incentivo. O futuro médico conta que também recebeu críticas dizendo que ele estaria roubando vaga de pessoas mais jovens.

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— As pessoas não fazem ideia do esforço do outro e falam besteira. Não sabem da dor que eu fico no corpo de estudar 8 a 10 horas por dia, de virar noite. Foram quatro anos de estudo. Eu diria para estudarem mais. Se não conseguir, tenta de novo, foca em você e no que quer — responde.

O comportamento hostil em relação aos idosos tem nome: velhofobia, como explica a antropóloga Mirian Goldenberg, autora do livro “A invenção de uma bela velhice”. No imperativo pela juventude, sobram estigmas sobre as velhices que, segundo a escritora, são plurais, tendo em vista a diversidade de cenários possíveis. De todo modo, a fase pode ser muito mais proveitosa do que normalmente se imagina.

— Se tem saúde boa, se tem autonomia, que é a palavra mais importante para pessoas mais velhas, e se tem uma condição econômica suficientemente boa para fazer escolhas, a velhice pode sim ser uma fase de muitos projetos, de conquistas e até de realização de sonhos que nunca puderam ser realizados, porque havia outros compromissos e obrigações — resume.

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Mirian explica que essa geração que envelheceu hoje é a mesma que era jovem nos anos 1960, 1970, anos da revolução comportamental:

— Obviamente essa geração iria inventar essa bela velhice e fazer o que eu chamo de revolução da bela velhice.

Alegria tatuada na pele

Lu Fernandez também faz parte desse time revolucionário. Movida pela inquietação que a chegada dos 60 anos causou, realizou um sonho antigo e começou as aulas de balé. Ela tinha medo de envelhecer e da invisibilidade que poderia sofrer, até que decidiu fazer o que sempre quis e não tinha coragem.

— Fiz uma tatuagem, assumi os cabelos brancos e comecei o balé que eu tanto queria. Isso me trouxe mais confiança para ser quem eu sou. A sensação é de liberdade. Quero viver um dia de cada vez, trabalhando, dançando, amando, comendo, viajando, curtindo os amigos e a família. Vivendo — conta.

Outros exemplos não faltam. Quem também fez uma tattoo pela primeira vez foi Nilton Ribeiro Ferreira, de Petrópolis, na Região Serrana do Rio. Aos 93 anos, ele se inspirou no neto, no filho e na nora, que fizeram homenagens a ele na pele.

— A tatuagem é a minha assinatura, que tem as primeiras letras do meu nome. Eu admirava essa rubrica e resolvi fazer também. Fui com medo, mas fui. Nunca pensei em fazer tatuagem, principalmente agora com a idade, achei que não ficaria bem. Mas quando vi na pele, foi de boa — diz, bem-humorado.

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Aos 77, o aposentado José Benedito Alves Ferreira, de Campos Gerais, em Minas, conquistou a desafiadora aprovação no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Em entrevista ao “G1”, ele conta que via os advogados da empresa em que atuava e pensava: “Podia ser eu”. Ele se formou em Direito em 2020, fez a prova e em abril deste ano conseguiu a habilitação da Ordem. E ele quer mais: “Vou me inscrever para fazer pós-graduação, e depois encarar a profissão [...] E que fique o exemplo, a idade não é obstáculo. Só depende da vontade de cada um”, disse ao portal.

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