Iggy Pop: aos 75, o pai do punk volta às origens em disco cheio de estrelas

A vida vem em ondas para Iggy Pop — o cara que basicamente inventou o punk e que agora, depois de fazer de tudo um pouco em seus discos com os Stooges e nos da carreira solo (que mais recentemente tiveram de jazz a música eletrônica ambient), resolveu voltar aos primórdios. “Every loser”, que bate esta sexta-feira no streaming, é um álbum de baixo, guitarra e bateria furiosos, bem no estilo do início musical do cantor, lá se vão 52 anos, com a banda dois irmãos Ron e Scott Asheton.

Iggy se mostra incansável aos 75 anos de idade: canta, berra, narra, ri e xinga, como se a idade não fosse empecilho. E se farta com uma banda formada por estrelas do rock, como Taylor Hawkins (baterista do Foo Fighters, falecido em março do ano passado, aqui em uma de suas últimas gravações), Chad Smith (baterista dos Red Hot Chili Peppers), Travis Barker (baterista do Blink-182), Duff McKagan (baixista dos Guns N’ Roses) e Dave Navarro (guitarrista do Jane’s Addiction). Um time reunido pelo premiado produtor Andrew Watt, que ainda lança “Every loser” por seu recém-criado selo, Gold Tooth Records.

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Referência para sucessivas gerações de roqueiros (em 2021, ele gravou com o grupo italiano Måneskin uma participação na canção “I wanna be your slave”), Iggy Pop chega a “Every loser” como uma espécie de filósofo decano do punk: ele concentra sua sabedoria de sobrevivente da tríade fama-drogas-rock’n’roll (com um bocado de sarcasmo, é claro) em um disco de 36 minutos de pura energia e refrãos impactantes, mas com uma riqueza musical acima da média para o rock de 2023.

“Minha mente está em chamas / quando é que eu deveria me aposentar?”, debocha Iggy de si mesmo em “Frenzy”, poderosa faixa de abertura do disco e clara revisão do rock pré-punk dos Stooges — só que com a sonoridade anabolizada e polida pelo software dos dias de hoje. Em sua capacidade de instaurar o caos, ela faz um bom trio no disco com “Modern day rip off” (que é “TV eye” com o pianinho martelado de “I wanna be your dog” e um bocado de tosse de velho) e “Neo punk”, um ataque cheio de ironias às gerações que fizeram dos cabelos azuis e espetados um caminho para a multiplicação dos likes nas redes sociais.

A fama e suas armadilhas nos tempos da internet, por sinal, são tema de duas outras boas canções de “Every loser”: o rock “Comments” (que cita nominalmente Mark Zuckerberg, criador do Facebook, hoje acionista principal da Meta Platforms) e a balada folk, meio “Angie” (dos Rolling Stones), que é “Morning show” — com voz abissal e algumas cascatas de tristeza na interpretação, Iggy toca a real: “ajeito a minha cara e vou / para o programa matinal de TV / como um profissional”. Igualmente depressivo pode parecer a alguns o título “All the way down”, mas dá para garantir: a faixa é um dos melhores rocks que se pode encontrar em um disco recente de Iggy Pop.

E que tal ainda um pouco de pós-punk com sabor gótico, como não se ouvia com tal classe desde os tempos do Mission? O cantor entrega em “Strung out Johnny” (canção com reflexões sobre suas muitas aventuras com estupefacientes — “Deus me fez um junkie, mas Satã é que me disse para ser”) e em “The regency”, um belo e intenso desabafo que encerra “Every loser”.

No meio disso tudo, porém, ainda tem uma declaração de amor e ódio a Miami, cidade onde vive (“New Atlantis”), uma vinheta jazzy em que ele lê o anúncio de um tratamento psiquiátrico (“The news for Andy”) e “My animus interlude”, um tira-gosto à base de violão e trevas. São todos eles sabores que hoje em dia você só consegue no disco de um chef com a experiência de um Iggy Pop — o cara que pode ter jurado que vai parar de pular do palco nos braços da plateia, mas não consegue deixar de fazer um dos melhores discos de rock de um ano que mal começou.

Cotação: Ótimo