Igreja Católica francesa oferecerá "contribuição financeira" às vítimas de pedofilia

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O Arcebispo de Reims Eric de Moulins-Beaufort fala durante uma entrevista coletiva no final da Assembleia Plenária da Primavera dos Bispos da França em 26 de março de 2021 em Notre-Dame de Lourdes

A Igreja Católica francesa oferecerá uma compensação financeira aos milhares de menores que foram vítimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero desde os anos 1950, anunciou nesta sexta-feira (26) a Conferência Episcopal, que pediu "perdão por seus crimes".

"A Igreja quer assumir sua responsabilidade perante a sociedade, pedindo perdão por seus crimes e falhas", anunciaram os bispos franceses em uma entrevista coletiva, explicando que essa "contribuição econômica" será financiada por um "fundo" especial determinado por um "organismo independente que se encarregará de examinar as solicitações".

O fundo terá uma dotação inicial de 5 milhões de euros (cerca de 6 milhões de dólares) e poderá ser completado com “doações de bispos, padres, fiéis e quem quiser participar”, acrescentaram os bispos.

Este anúncio vem seis meses após a entrega das conclusões de uma comissão independente encarregada de investigar o abuso sexual cometido dentro do clero na França nos últimos 70 anos.

Desde o início das investigações, a Comissão Independente de Abuso Sexual na Igreja (Ciase) identificou a existência de pelo menos 3.000 vítimas, mas afirmou no início deste mês que o número pode ultrapassar 10.000 casos.

Esta "contribuição" não é "compensação ou reparação", insistiu Monsenhor Eric de Moulins-Beaufort, presidente da Conferência Episcopal, que disse que a Igreja busca com esse dinheiro "contribuir" para ajudar as vítimas "no caminho da reconstrução" , financiando, por exemplo, ajuda psicológica.

O anúncio da Igreja Católica francesa chega tarde em comparação com outros países, como Estados Unidos, Irlanda, Suíça ou Bélgica, que já lançaram indenizações ou reconhecimentos financeiros em favor das vítimas.

De acordo com o calendário adiantado pelos bispos, as primeiras contribuições serão entregues em 2022.

- "Não estão à altura" -

A diocese de Lyon (sudeste), marcada por um dos casos mais notórios de abusos de menores na França, já indenizou 14 vítimas do ex-padre Bernard Preynat por meio de um excepcional fundo próprio.

Preynat, que abusou sexualmente de cerca de 70 escoteiros entre as décadas de 1970 e 1990, foi condenado em março de 2020 a cinco anos de prisão.

Este caso, revelado em 2015, atingiu a máxima autoridade da Igreja francesa, o cardeal Philippe Barbarin, que foi acusado, e finalmente absolvido, por não ter denunciado estes atos ocorridos em sua diocese.

Os 120 bispos da França, que se reuniram em uma assembleia plenária, votaram também onze resoluções, várias delas a favor do combate à pedofilia.

Eles decidiram, entre outras coisas, o princípio de um "dia de oração" todo ano em memória das vítimas de abusos sexuais, proposto pelo Vaticano. Além disso, "continuarão trabalhando" no projeto de criação de um memorial possivelmente na cidade de Lourdes (sudoeste da França).

Os bispos também decidiram formar uma "equipe nacional de ouvintes" e criar um "tribunal penal canônico nacional".

O episcopado, que pretende mobilizar todos os fiéis, distribuirá nas paróquias uma "carta aos católicos", na qual destacará que este tema diz respeito a "todos", em particular à "ajuda financeira" às vítimas. “É preciso levantar os fundos necessários”, disse ele.

Olivier Savignac, um dos membros de um grupo de vítimas que trabalha com os bispos, disse à AFP que estava “satisfeito com todas as propostas, especialmente com o reconhecimento da responsabilidade da Igreja nos atos perpetrados contra as crianças”.

“Os termos usados admitem que a Igreja teve uma cumplicidade ativa e passiva”, estimou, em declarações à AFP.

Por outro lado, François Devaux, cofundador de uma associação de vítimas de Lyon, criticou que não foram esperadas as recomendações da Ciase. “Os bispos não estão à altura desta questão, eles esperaram muito antes de dar as respostas, poderiam ter esperado mais seis meses”, afirmou.

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