Igreja dos EUA monta presépio com Sagrada Família separada e atrás das grades

Por Sébastien VUAGNAT
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O menijo Jesus, retratado como um refugiado, com manta térmica e dentro de uma jaula, em um presépio de uma igreja protestante da Califórnia

O menino Jesus em uma jaula, envolto em uma manta térmica e separado de Maria e José, também atrás das grades: um presépio de uma igreja protestante na Califórnia usou a tradição da representação do nascimento do filho de Deus para denunciar as condições de detenção de muitos migrantes nos Estados Unidos.

"Os colocamos separados em diferentes prisões... É como um símbolo de como a nossa gente e todos os imigrantes estão nos centros de detenção e precisam de mais atenção", disse à AFP Genaro Córdoba, cocriador do presépio e porta-voz da Igreja Metodista de Claremont, situada 50 km a leste de Los Angeles.

"Jesus, Maria e José, todos migrantes, todos refugiados, não só nos Estados Unidos, mas em todo o mundo, especialmente na Europa. Vimos como sofrem, as pessoas não os querem e no nosso país é igual", condenou, falando em espanhol e inglês.

"O que acontece se eles estivessem na mesma situação? Deixaríamos Jesus separado de Maria e José? E o que o mundo diria sobre isso?", acrescentou.

O presidente republicano Donald Trump decretou em 2018 uma política de tolerância zero com a imigração ilegal aos Estados Unidos e fez da luta contra a chegada de imigrantes em situação irregular um eixo do seu governo e uma mensagem central de sua campanha para a reeleição.

Esta política incluiu no ano passado a separação de milhares de filhos de seus pais migrantes e teve que ser suspensa após uma onda de indignação. Uma corte determinou a reunião destas famílias, mas segundo veículos de imprensa americanos, as políticas de separação continuam.

"Em um momento em que chegam famílias de refugiados buscando asilo em nossas fronteiras e são separadas contra a sua vontade, recorremos à família de refugiados mais conhecida do mundo: Jesus, Maria e José, a Sagrada Família", escreveu a pastora de Claremont, Karen Clark Ristine, no Facebook.

- Politização -

"Logo após o nascimento de Jesus, José e Maria foram obrigados a fugir com o filho de Nazaré para o Egito para escapar do rei Herodes, um tirano. Eles temiam perseguição e morte", continuou Ristine.

"E se essa família buscasse refúgio em nosso país hoje? Imagine José e Maria separados na fronteira, e Jesus, com cerca de dois anos de idade, separado de sua mãe e colocado numa cela de um Centro de Detenção de Patrulha Fronteira, como mais de 5.500 crianças nos últimos três anos".

Milhares de pessoas, muitas demonstrando seu apoio a Trump, condenaram a representação, que eles chamaram de "blasfêmia" e "estratégia política".

Outra igreja em Los Angeles, a Founders Metropolitan Community Church, montou seu presépio com uma mensagem muito semelhante. Nele, o bebê Jesus também está em uma gaiola, com um sinal que diz "para adoção". Maria e José também aparecem em gaiolas separadas, com placas onde pode-se ler as palavras "Detenção" e "Deportação".

O Natal é usado por várias paróquias para tratar das questões atuais.

Uma igreja em Dedham, Massachusetts, já havia colocado seu Jesus em uma gaiola no ano passado, levantando críticas de muitos conservadores, incluindo o apresentador Sean Hannity.

No ano anterior, o tema foi os ataques com armas de fogo mais mortais da história recente dos Estados Unidos e agora em 2019, a Paróquia de St. Susanna dedicou seu presépio às mudanças climáticas, colocando o menino Jesus flutuando na água, cercado por garrafas de plástico.

"Não acho que estamos politizando, estamos apenas pintando uma imagem precisa de como é o mundo hoje", disse o padre Steve Josoma, para o canal WCVB.