Ilha bolsonarista em PE foca eleição em conflito sobre polo de confecção

JOÃO VALADARES
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SANTA CRUZ DO CAPIBARIBE, PE (FOLHAPRESS) - Na entrada de Santa Cruz do Capibaribe, joia do polo de confecções encravada no agreste pernambucano, um outdoor com a imagem sorridente do presidente da República Jair Bolsonaro (sem partido) avisa: "Única cidade de Pernambuco que o mito foi campeão". A peça publicitária, que faz alusão ao segundo turno das eleições de 2018, assinada pelo grupo Aliança pelo Brasil, é referência isolada ao presidente. Bolsonaro não aparece no discurso dos candidatos a prefeito, nos panfletos nem nas bandeiras que enchem as ruas. É mencionado apenas por alguns candidatos a vereador. No município, ilha no mapa eleitoral vermelho de Pernambuco com pouco mais de cem mil habitantes, o embate ideológico passa ao largo. A cidade vive o eterno conflito entre a formalidade do emprego com carteira assinada e o trabalho por conta própria, em linhas de produção caseiras. A esperada nacionalização da campanha não chegou por lá. O candidato da oposição, filiado ao PP, que integra uma coligação que congrega PT, PC do B, PROS e Republicanos, também não usa o ex-presidente Lula. "Aqui, tem muitos eleitores de Bolsonaro e de Lula misturados pelas três chapas. Não há uma lógica de direita e de esquerda. Ninguém sabe direito quem é quem. É tudo muito espalhado", diz o aposentado José Jairo dos Santos, 73, que acompanha a evolução do processo eleitoral na cidade há bastante tempo. Em Santa Cruz do Capibaribe, que cresce em ritmo acelerado em razão da expansão econômica proveniente da produção de roupas, boa parte dos moradores não nasceu no município. Está lá para ganhar a vida produzindo peças de vestuário. Muitos trabalham por conta própria. Abandonaram os salários baixos, a carteira assinada e os direitos trabalhistas para montar uma linha de produção que funciona na sala, na cozinha e na garagem de casa. De maneira genérica, os três principais candidatos prometem programas de qualificação profissional e cursos de capacitação. "Eu começo a costurar às 7h e vou até a meia-noite. Prefiro assim. Trabalho para mim, mesmo sendo muito cansativo", diz Janecleia da Silva Dão, 39. Nascida em Arapiraca (AL), ela migrou para Santa Cruz do Capibaribe há 20 anos. "Nunca trabalhei de carteira assinada. Eu votei em Bolsonaro para que as coisas melhorassem. Não está bom, não. Para prefeito, eu voto em qualquer um. Nem sei com quem eles estão." Historicamente, Santa Cruz do Capibaribe vive alternância de poucas famílias tradicionais no poder. Dividem-se entre os chamados Bocas Pretas, grupo alinhado à direita e identificado pela cor azul, e os Taboquinhas, que usam o vermelho e estão mais posicionados à esquerda. Até 2018, a cidade sempre consagrou o lulismo nas urnas. Nas eleições deste ano, após a ascensão de Jair Bolsonaro, uma chamada terceira via chega pela primeira vez com um candidato considerado competitivo. O empresário Allan Carneiro (PSD), que conta com o apoio de parte do empresariado local e se candidata pela primeira vez a um cargo eletivo, traz na chapa de vereadores nomes que apoiaram o presidente em 2018. Mesmo assim, não usa a imagem do presidente na campanha e faz um discurso focado na melhoria da infraestrutura e saúde da cidade. Ele faz parte de uma coligação formada por PRTB e PDT. Um de seus apoiadores é o candidato a vereador Adilson Bolsonaro (PSD), que levou o sobrenome do presidente para a urna e tem participado ativamente dos eventos. Carneiro não quis falar com a reportagem. Alegou que não tinha tempo para entrevista por causa da campanha puxada. "Existem as famílias tradicionais na política aqui de Santa Cruz e tem a terceira via. Em 2018, verificamos que o movimento para eleger Bolsonaro existiu nas três alas aqui da cidade mesmo", diz o empresário do ramo de confecção Paulo da Silva Júnior, 27. Ele começou a trabalhar aos 14 anos com a mãe e com o tio. É gerente de uma confecção e tem também o seu próprio negócio. "Eu acho que o impacto dos programas sociais governamentais aqui é menor. A pessoa que não tiver acesso a um programa vai ter trabalho sim. Não falta emprego. Talvez aí esteja uma explicação." Ele relata que alguns empresários do ramo de confecção estão com dificuldade para encontrar mão de obra na cidade. "Não conseguimos preencher todas as vagas. Todo mundo gosta de segurança, de direitos trabalhistas, mas tem uma força grande de querer empreender e abrir mão da carteira assinada pelo sonho do negócio. Isso é bom." Dida de Nan (PSDB), candidato apoiado pelo atual prefeito que conta na coligação com PSL, DEM, MDB, Podemos e PL, diz que pretende criar uma espécie de incubadora social para fomentar pequenos negócios e cursos profissionalizantes. Mesmo sem usar Bolsonaro na propaganda, diz defender o presidente. "Tenho sempre falado da importância do auxílio emergencial. Agora, Bolsonaro deixou bem claro que não iria participar e nem subir no palanque de ninguém." Ele declara que, em 2018, a onda bolsonarista tomou conta da cidade de maneira muito rápida. "Muitas pessoas não esperavam isso, mas, pela movimentação, percebia-se a força de Santa Cruz na direção de Bolsonaro." O candidato dos chamados Taboquinhas é Fábio Aragão (PP). Ele assumiu a cabeça da chapa após falecimento do seu pai, Fernando Aragão, em agosto deste ano em decorrência do novo coronavírus. Fábio é novato na política e se apresenta como empreendedor e servo de Deus. Ele não quis falar com a reportagem sobre a disputa política em Santa Cruz do Capibaribe. O vereador Ernesto Maia (PC do B), que era do PT e tenta a reeleição, diz que vai votar em branco para prefeito. "O debate aqui não passa por Bolsonaro. Aqui, você vai escutar falar muito mais de Taboquinha e Boca Preta do que de Bolsonaro." Ele explica que Santa Cruz do Capibaribe segue uma lógica própria no âmbito político-eleitoral. "A cidade cresceu em situação extremamente adversa exatamente pela força das pessoas. Essa informalidade que existe aqui é uma questão grave ainda", declara. Nos bairros mais pobres, as pessoas estão preocupadas com a falta de água. A cidade está localizada numa região bastante seca. Apesar do crescimento econômico, não há abastecimento regular. As pessoas vivem em um racionamento sem fim. Wemerson José Morreira da Silva, 30, cortava cana-de-açúcar em Catende, município do interior de Pernambuco. Há dois anos, corta pano para confecções em um pequeno imóvel alugado. Questionado sobre a campanha municipal na cidade, diz que não tem muita informação. "O que importa é que aqui tem problema para todo lado. Todo mundo reclama da água e de outras coisas. Mas eu não vou reclamar mais de nada. Só quero que quem ganhar a eleição em Santa Cruz olhe por nós."