Ilha da Trindade, um laboratório a céu aberto cheio de desafios para exploradores

Por VITORIA VELEZ
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(Arquivo) Vista da Ilha da Trindade, a 1.200 quilômetros da costa de Vitória, Espírito Santo, em 1º de dezembro de 2015

A Ilha da Trindade, a mais de mil quilômetros da costa brasileira, é um laboratório a céu aberto que atrai cientistas de todo o Brasil.

Mas explorar este remoto território exige coragem e persistência para enfrentar imprevistos, terrenos acidentados, trilhas fechadas e uma onda que varre tudo com a força de um tsunami.

Frustração e persistência Passa da 01h00 e a escuridão é total na Praia das Tartarugas. Faz quatro horas que Uriel Rodrigues e Fernanda Alves, voluntários do Tamar, em visita à ilha pela primeira vez, chegaram para ver as tartarugas-verdes subirem a areia para desovar, mas eles deixam o local frustrados.

“Não foi desta vez”, diz a oceanógrafa Fernanda, de 28 anos, à jornalista da AFP que acompanha a dupla de ‘tartarugueiros’, depois que ambos decidem que é melhor tentar de novo no dia seguinte.

Naquela manhã, eles tinham avistado rastros de tartarugas em duas praias – Andradas e Tartarugas – onde ocorre a maioria das desovas em Trindade, um indício de que elas voltariam à noite, quando costumam depositar os ovos. Infelizmente, as previsões não se confirmaram.

Mas Fernanda e o estudante de biologia Uriel, 27 anos, não desanimam e se preparam para trocar o dia pela noite para acompanhar os animais pelos próximos dois meses – tempo que permanecerão na ilha.

Confinados

“A ilha é de uma riqueza enorme – há espécies a serem descobertas, há espécies que estavam extintas e que estão conseguindo retornar”, explica à AFP Anabele Stefânia Gomes, de 30 anos, doutoranda em botânica pela Universidade de Brasília (UnB).

Anabele estuda a competição entre duas espécies de plantas rasteiras facilmente encontradas na ilha - Glandina bonduc e Cyperus atlanticus – e parte de seu trabalho de campo inclui visitas para coleta e análise em áreas remotas, como o Pico do Desejado, o mais alto de Trindade, com 600 metros de altitude.

Os temporais repentinos, chamados “pirajás”, são comuns na ilha, e normalmente passam rápido. Mas uma chuva persistente impede que ela e outros pesquisadores vão a campo pelo segundo dia.

O jeito é torcer para a chuva passar, pois o comandante do Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade (Poit), capitão-de-fragata Mauro Medeiros Santos, proíbe as caminhadas, pois o solo molhado e as condições do terreno, acidentado e pedregoso, transformam qualquer trilha em um risco que se quer evitar a todo custo.

Embora o posto, que dá suporte à estação científica que acomoda os pesquisadores, seja equipado com centro para pequenas cirurgias e UTI e tenha um médico da Marinha destacado, a distância do continente e a dificuldade de acesso complicariam qualquer resgate em um caso mais sério.

"Trindade é uma ilha muito distante. Em um sinistro qualquer, vão demorar no mínimo dois dias e meio, três dias para chegar aqui” de navio, o único transporte disponível para o continente, argumenta o comandante do Poit.

“Onda camelo”

Além da chuva e do terreno acidentado, outro perigo de Trindade é a onda denominada “camelo”. Esta ondulação se forma em alto-mar, a profundidades abissais e, ao se aproximar da ilha oceânica, varre tudo com a força de um tsunami. Desde que o Poit foi inaugurado, em 1957, mais de uma dezena de pessoas morreu, a maioria por afogamento provocado pela temida onda. Por isso, o banho de mar é restrito a poucas praias abrigadas e andar desacompanhado é proibido.