Ilha da Trindade, um paraíso da biodiversidade no Atlântico Sul brasileiro

Por VITORIA VELEZ
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(Arquivo) Vista da Ilha da Trindade, a 1.200 quilômetros da costa de Vitória, Espírito Santo, em 1º de dezembro de 2015

Em pleno Atlântico Sul, um paredão rochoso demarca a fronteira leste do Brasil – é a Ilha da Trindade, um paraíso de rica biodiversidade, sob vigilância da Marinha, que atrai cientistas de todo o país e onde a vegetação se recupera após ter sido devastada por cabras.

Situada a 1.167 quilômetros da costa de Vitoria (ES) e com apenas 10 km2, a ilha – que forma um arquipélago com a vizinha Martim Vaz - é considerada estratégica pela localização, entre os litorais brasileiro e africano.

“Estar em Trindade representa um grande trunfo para o Brasil, pois a ilha pode rapidamente se transformar em um posto de apoio de ações militares”, explica à AFP o capitão-de-fragata Mauro Medeiros Santos, 48 anos, há 29 na Marinha, ao se despedir do comando do Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade (Poit).

Saindo do Rio de Janeiro, foram três dias de viagem a bordo do navio patrulha oceânico APA, da Marinha do Brasil, até chegar à ilha.

O mar é a única via para acessar este território isolado - helicópteros não têm autonomia para voar até lá, onde tampouco há pistas para aviões.

Fator cabra

À primeira visita, o relevo acidentado e rochoso de Trindade disfarça a vegetação, que já foi de florestas, e hoje, predominantemente rasteira, se recupera do desmatamento provocado por cabras e outros animais introduzidos pelo Homem há mais de 300 anos. “Aqui [as cabras] foram introduzidas em 1700 pelo Edmond Halley, o mesmo do cometa Halley. Foi nessa época que ele pegou as cabras de Santa Helena [n.r: território britânico no Atlântico Sul onde Napoleão Bonaparte morreu no exílio, em 1821], pôs num navio e largou em Trindade”, explica à AFP Anabele Stefânia Gomes, 30 anos, doutoranda em botânica pela Universidade de Brasília (UnB).

“Era uma tradição das grandes navegações deixar animais, como cabras e porcos, quando se chegava a uma ilha remota como Trindade para as pessoas terem algo para comer”, completa Bruno Santos Rabelo, 26 anos, também doutorando em botânica pela UnB. Sem predadores, os animais se reproduziram descontroladamente e consumiram a vegetação, afetando cursos d’água e a fauna, como as tartarugas marinhas, cujos ovos também comiam.

Após expedição à ilha, cientistas do Museu Nacional do Rio de Janeiro recomendaram a remoção das cerca de 800 cabras, 600 ovelhas e outras centenas de porcos.

A operação começou em 1994 e os animais foram abatidos a tiros devido à sua adaptação e capacidade de ocultação na ilha. A última cabra foi eliminada em 2005. Dez anos depois, Trindade se recupera.

“Na minha primeira missão, em 1994, encontrei a ilha devastada. [Hoje] acredito que a cobertura vegetal está em franca regeneração. Temos acompanhado isso por terra e em imagens de satélite. A água em alguns córregos aumentou.

Deixando a natureza seguir seu curso, há resultados notórios mesmo sem nova intervenção", afirma à AFP o doutor Ruy Valka Alves, professor do Departamento de Botânica do Museu Nacional, que fez mais de 20 missões na ilha.

Rica biodiversidade

Trindade também é local de reprodução de diferentes espécies de aves marinhas e é abundante em corais e peixes, em crustáceos (entre eles o caranguejo-amarelo, ameaçado de extinção) e abriga a segunda maior colônia de tartarugas-verdes do Atlântico Sul.

Tanta biodiversidade atrai cientistas de todo o país. Desde que foi inaugurada, em 2011, a Estação Científica da Ilha da Trindade (ECIT) recebeu cerca de 500 pesquisadores, que permanecem ali entre três dias e dois meses, realizando estudos ambientais selecionados pelo programa PROTRINDADE.

Desde 1982, o projeto Tamar de preservação das tartarugas marinhas monitora as populações de tartarugas-verdes nas praias de Trindade, que recebem anualmente 3.600 ninhos. A desova ocorre entre dezembro e julho.

Na última temporada reprodutiva (2014/2015), houve mais de 1.300 desovas e nasceram mais de 134 mil filhotes.

O estudante de biologia Uriel Rodrigues, de 27 anos, e a oceanógrafa Fernanda Alves, de 28, são voluntários do Tamar e estão na ilha pela primeira vez.

“Amo conservação e sempre que posso dedico um tempo a este trabalho. Escolhi as tartarugas porque são animais impressionantes, de uma imponência e, ao mesmo tempo, uma fragilidade incomuns”, diz Fernanda.

“Há algo de místico em ver uma tartaruga, que é um animal pré-histórico, desovar”, completa Uriel, que abandonou a carreira em marketing em São Paulo para se dedicar às tartarugas marinhas. Trindade abriga, ainda, a única estação meteorológica do Brasil instalada em uma ilha oceânica, que contribui para a previsão do tempo em todo o mundo.

“Os dados da ilha da Trindade são de grande importância para a meteorologia aeronáutica e a navegação marítima”, explica à AFP o meteorologista Antonio Marcos Vianna, do Centro de Previsão do Tempo e Estudos Climáticos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).

“Os dados são inseridos num sistema de telecomunicações da Organização Meteorológica Mundial (OMM), o que permite que cheguem, em tempo quase real, aos serviços meteorológicos oficiais dos países-membros da OMM, onde são empregados na previsão do tempo”, continua.

Território disputado

Formada por erupções vulcânicas há 3 milhões de anos, a ilha da Trindade está ligada ao território continental brasileiro por uma cadeia de montanhas submersa. Inaugurado em 1957, o Poit assegura a presença permanente de cerca de 30 militares que executam tarefas que permitem a vigilância e a manutenção das atividades e da infraestrutura na ilha.

A cada dois meses, navios da Marinha abastecem e levam novos militares e pesquisadores. Os militares ficam ali entre dois e quatro meses, quando são substituídos.

Trindade foi descoberta em 1501 pelo navegador português João da Nova, mas o primeiro desembarque só teria ocorrido em 1700, quando o astrônomo britânico Edmond Halley – que descobriu o cometa Halley em 1705 - tentou apossar-se da ilha em nome da Inglaterra.

O ato foi refutado diplomaticamente e a ilha passou a pertencer ao Brasil no final do século XIX.