Ilha da Trindade: santuário ecológico que demarca a fronteira leste do Brasil

Por VITORIA VELEZ
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(Arquivo) Imagens de aratus-vermelhos, uma espécie de caranguejo, na Praia das Tartarugas, na Ilha da Trindade, em 29 de novembro de 2015

Quando o astrônomo britânico Edmond Halley desembarcou em 1700 na Ilha da Trindade com um punhado de cabras e ovelhas, selou o destino desta pequena ilha oceânica em pleno Atlântico Sul que marca a fronteira leste do Brasil.

“Aqui [as cabras] foram introduzidas em 1700 pelo Edmond Halley, o mesmo do cometa Halley. Foi nessa época que ele pegou as cabras de Santa Helena [n.r: território britânico no Atlântico Sul onde Napoleão Bonaparte morreu no exílio, em 1821], pôs num navio e largou em Trindade”, explica à AFP Anabele Stefânia Gomes, 30 anos, doutoranda em botânica pela Universidade de Brasília (UnB).

“Era uma tradição das grandes navegações deixar animais, como cabras e porcos, quando se chegava a uma ilha remota como Trindade para as pessoas terem algo para comer”, completa Bruno Santos Rabelo, 26 anos, também doutorando em botânica pela UnB.

Sem predadores, os animais se reproduziram sem controle e consumiram a floresta que havia ali, afetando cursos d’água e a reprodução de espécies, como aves marinhas que fazem ninhos em árvores.

Ponto estratégico

Situada a 1.167 km da costa de Vitória (ES), Trindade é um relevo acidentado e rochoso, coberto por vegetação rasteira, mas pouco a pouco, com a ajuda de cientistas, voluntários e das forças armadas brasileiras, se recupera da devastação.

Ponto estratégico para o Brasil por sua localização, entre os litorais brasileiro e africano, a ilha está sob controle da Marinha brasileira e abriga centenas de pesquisas científicas.

"A ilha pode rapidamente se transformar em um posto de apoio de ações militares", explicou à AFP o capitão-de-fragata Mauro Medeiros Santos, que há alguns dias se despediu do comando do Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade (Poit), instalado pela Marinha em 1957.

Saindo do Rio de Janeiro, foram três dias de viagem a bordo do navio patrulha oceânico APA, da Marinha do Brasil, até chegar à ilha. O mar é a única via para acessar este território isolado - helicópteros não têm autonomia para voar até lá, onde tampouco há pistas para aviões.

Hoje, o Poit mantém na ilha cerca de 30 militares que trabalham em missões de dois a quatro meses. Também conta com posto médico com capacidade para pequenas cirurgias e dotado de unidade de cuidados intensivos.

Caçada

Embora a ilha tenha sido descoberta pelo navegador português João da Nova, em 1501, Halley teria sido o primeiro a desembarcar ali, cinco anos antes de descobrir o cometa que leva seu nome.

Ao chegar, reivindicou a ilha como parte do território britânico. O ato foi refutado diplomaticamente e a ilha passou a pertencer ao Brasil no final do século XIX. A recuperação de Trindade começou em 1994, depois que cientistas do Museu Nacional do Rio de Janeiro recomendaram a remoção das cerca de 800 cabras, 600 ovelhas e centenas de porcos, pois os invasores tinham devastado a vegetação.

Ao longo dos séculos, os animais se adaptaram à ilha e desenvolveram tal capacidade de ocultação, que retirá-los era impossível. Finalmente, decidiu-se abatê-los a tiros. A última cabra foi eliminada em 2005 e dez anos depois, Trindade dá sinais de recuperação.

“Na minha primeira missão, em 1994, encontrei a ilha devastada. [Hoje] acredito que a cobertura vegetal está em franca regeneração. Temos acompanhado isso por terra e em imagens de satélite. A água em alguns córregos aumentou. Deixando a natureza seguir seu curso, há resultados notórios mesmo sem nova intervenção", afirma à AFP o doutor Ruy Valka Alves, professor do Departamento de Botânica do Museu Nacional, que fez mais de 20 missões na ilha.

Caranguejos, tartarugas e "pirajás"

A estação científica da Ilha da Trindade (Ecit) funciona desde 2011 e recebeu cerca de 500 pesquisadores. Trindade também abriga uma estação meteorológica – a única do Brasil e uma ilha oceânica -, que contribui para a previsão do tempo em todo o mundo.

“A ilha é de uma riqueza enorme – há espécies a serem descobertas, há espécies que estavam extintas e que estão conseguindo retornar”, diz Anabele Gomes, que estuda a competição entre duas espécies de plantas rasteiras na ilha, Glandina bonduc e Cyperus atlanticus.

Seu trabalho de campo inclui analisar e coletar amostras no Pico do Desejado, o mais alto da ilha, com 600 metros de altitude. Mas ela precisa esperar a liberação das trilhas. Os temporais repentinos, chamados “pirajás”, são comuns e normalmente passam rápido. Mas uma chuva persistente impede que ela e outros pesquisadores vão a campo pelo segundo dia, pois o solo molhado e o terreno acidentado transformam qualquer caminhada em um risco.

Trindade é, ainda, local de reprodução de diversas espécies de aves marinhas, é abundante em corais, peixes e crustáceos, entre eles o caranguejo-amarelo, em risco de extinção.

Além disso, abriga a segunda maior colônia de tartarugas- verdes do Atlântico sul. Desde 1982, o projeto Tamar de preservação das tartarugas marinhas monitora as populações de tartarugas-verdes nas praias de Trindade, que recebem anualmente 3.600 ninhos.

A desova ocorre entre dezembro e julho. Na última temporada reprodutiva (2014/2015), nasceram mais de 134 mil filhotes. O estudante de biologia Uriel Rodrigues, de 27 anos, e a oceanógrafa Fernanda Alves, de 28, são voluntários do Tamar e estão na ilha pela primeira vez.

“As tartarugas são animais impressionantes, de uma imponência e, ao mesmo tempo, uma fragilidade incomuns”, diz Fernanda. “Há algo de místico em ver uma tartaruga, que é um animal pré-histórico, desovar”, completa Uriel, que abandonou a carreira em marketing em São Paulo para se dedicar aos animais.

Apesar de seus muitos encantos, explorar Trindade sozinho é proibido e o banho de mar é restrito a poucas praias por causa da onda ‘camelo’, que se forma em alto-mar, a profundidades abissais e, ao se aproximar da ilha, mais superficial, ganha força e massa, varrendo tudo com a força de um tsunami.

Desde que o Poit foi inaugurado, em 1957, mais de uma dezena de pessoas morreu - a maioria afogada pela temida onda.