Como imagens virtuais viram alternativa para o uso de cadáveres reais em faculdade de medicina?

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Por Vitor Valencio

Para que os milhares de alunos de medicina do Brasil – e do mundo – possam estudar a biologia humana é preciso que alguém morra. Uma constatação cruel, mas realista... Por enquanto. Uma universidade do Paraná inaugurou um simulador digital para o treinamento cirúrgico e dissecação virtual de corpos. Será que isso pode substituir cadáveres reais?

Embora a doação de corpos para estudos já ocorra no Brasil, com todos os procedimentos legais e necessários, a prática ainda é pouco expressiva quando comparada a de países como os Estados Unidos, onde quase todos os corpos usados para fins de estudos médicos em faculdades e universidades são provenientes da cultura de doação já estabelecida ao longo de décadas.

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Os alunos do curso de medicina da Universidade Paranaense (Unipar) acabam de ganhar uma nova tecnologia como método alternativo ao uso de cadáveres em aulas de anatomia. Trata-se da Plataforma Multidisciplinar 3D, que funciona como um simulador digital para treinamento cirúrgico e dissecação virtual.

Utilizado atualmente em cerca de 70 cursos de medicina (humana e veterinária) no Brasil, Estados Unidos, México e Peru, o simulador 3D, desenvolvido pela empresa brasileira da Csanmek, a tecnologia funciona como uma mesa que exibe modelos tridimensionais altamente detalhados e anatomicamente corretos de todos os sistemas do corpo humano para treinamento de cirurgias virtuais.

A plataforma, que pode custar entre R$ 200 mil e R$ 400 mil, possui ainda uma ferramenta de integração entre hospitais e salas de aula e oferece aos alunos a possibilidade de estudar casos clínicos e exames reais de pacientes, pois permite que os professores convertam tomografias e ressonâncias magnéticas em clones virtuais 3D, com acesso total e irrestrito a anatomia real.

Também utiliza algumas linhas de atlas anatômicos e fisiológicos, com mais de 6,55 mil estruturas anatômicas idênticas, incluindo todos os órgãos e sistemas do corpo masculino e feminino, e pode ser usada em cursos de medicina, veterinária e demais áreas da saúde.

Segundo o fundador da Csanmek, Claudio Santana, a expectativa para este ano é dobrar de faturamento, à medida em que as instituições de ensino no Brasil estão mais atentas às novas tecnologias de ensino e aos métodos alternativos ao uso de cadáveres no estudo da anatomia. “Apesar de ser um equipamento para educação, a plataforma 3D também é utilizada por médicos e profissionais da saúde no dia a dia, para melhorar o aprendizado e compreensão das estruturas anatômicas reais e modeladas”, comenta Santana.

Como funciona, no mundo real

Os procedimentos para que a doação de corpo seja oficializada são realizados de modo mais simples do que se imagina, segundo a Dra. Mirna Duarte Barros, chefe do Departamento de Morfologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Aqueles que queiram manifestar sua vontade de Doar o Corpo precisam elaborar um documento, expressando o desejo de doar o seu corpo após a morte. “Com essa iniciativa, obtém-se o consentimento do doador para que seu corpo seja doado a uma instituição de ensino específica na área da saúde, indicada pela pessoa para fins de ensino e/ou pesquisa”, explica.

A doação, de acordo com a Dra. Mirna, pode ser feita por qualquer pessoa dentro das suas condições normais de saúde, que esteja apta a manifestar seu desejo e que tenha mais de 18 anos: “É necessário também assinar o documento, reconhecer firma e entregar uma cópia ao centro que receberá a doação”, acrescenta a Dra. Mirna Barros.

Além disso, recomenda-se que os familiares estejam cientes da decisão do doador. “Esses familiares precisam ter em mãos uma cópia desse documento. Após o falecimento, o velório pode ser realizado normalmente. O que muda é que ao invés de se dirigir para um cemitério ou crematório, o corpo vai para a instituição de ensino escolhida pelo doador”, conta a chefe do Departamento de Morfologia da FCMSCSP.

Apesar de ser um procedimento bastante simples, a professora esclarece que muitas vezes pela falta de conhecimento ou até por uma questão cultural, grande parte das universidades da área da saúde do Brasil ainda utiliza cadáveres sem identificação ou não reclamados para a realização de estudos, seguindo, claro, os procedimentos legais para esses casos.

A Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo possui um processo já estabelecido para que as doações de corpos sejam realizadas. "Existe uma legislação, que é seguida pela Instituição, e temos um protocolo. Ao recebermos a documentação necessária do doador, o processo é levado para um cartório, onde o juiz dá ciência que o corpo daquele indivíduo está depositado aqui na FCMSCSP e para um determinado fim: de ensino e/ou pesquisa. Assim, tudo fica muito bem documentado e a responsabilidade de uso e guarda passa a ser da Instituição que responde legalmente”, complementa a Dra. Mirna Barros.