Imigração no centro da cúpula virtual entre Biden e López Obrador

Paul HANDLEY, Alina DIESTE
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Os requerentes de asilo esperam do lado de fora da passagem de fronteira de El Chaparral em Tijuana, México, na esperança de cruzar para os Estados Unidos.

O fluxo de migrantes e comércio, legal e ilegal, através da fronteira entre os Estados Unidos e o México será o foco das conversas na cúpula virtual desta segunda-feira (1) entre o presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, e seu homólogo mexicano, Andrés Manuel López Obrador.

O encontro acontece no momento em que os Estados Unidos enfrentam uma nova onda de imigrantes sem documentos na fronteira do sul, enquanto Biden, que acaba de assumir o cargo, suspende a construção do muro fronteiriço promovido por Donald Trump, ameniza a dura política anti-imigração de seu antecessor.

Horas antes da reunião, o secretário de Segurança Interna dos Estados Unidos, Alejandro Mayorkas, se recusou a falar em "crise" na fronteira, embora reconhecesse o "desafio" que isso acarreta.

Ele garantiu que seu principal objetivo é substituir "a crueldade" do processo de imigração do governo Trump por um sistema "humano", "organizado" e "seguro".

“É difícil e vai demorar, mas tenha certeza de que o faremos”, disse ele em entrevista coletiva, destacando que com Biden não há mais deportações de crianças para o México.

A Casa Branca disse que o encontro com López Obrador abordará a colaboração em migração, esforços conjuntos de desenvolvimento no empobrecido sul do México e América Central, recuperação da pandemia da covid-19 e cooperação econômica.

- "Programa Bracero" -

O presidente mexicano, também conhecido por suas iniciais AMLO, disse neste sábado que no encontro com Biden vai enfatizar a importância da mão de obra migrante para a economia dos Estados Unidos.

Ele também lembrou que, na Segunda Guerra Mundial, os dois países concordaram com o "Programa Bracero", por meio do qual trabalhadores mexicanos se dirigiam legalmente aos Estados Unidos para fazer a colheita na ausência dos americanos, então enviados para a guerra.

López Obrador estimou no sábado que a economia dos Estados Unidos precisaria de 600.000 a 800.000 trabalhadores migrantes por ano.

Trump fechou a porta para trabalhadores legais do México dos quais os dois países dependem: os Estados Unidos para o trabalho agrícola e o México para carregamentos.

Como parte de seus esforços para reformar as políticas de imigração, o governo Biden propôs que milhões de pessoas que vivem nos Estados Unidos sem documentos legais, principalmente trabalhadores agrícolas, principalmente de origem mexicana, recebam "green cards" que lhes permitiriam ficar e trabalhar legalmente em solo americano.

- Segurança, "essencial" -

Os Estados Unidos e o México compartilham uma fronteira de 3.200 km, com quase US$ 1,9 bilhão em comércio diário e um importante trânsito legal de pessoas.

Mas também há um grande número de passagens de imigrantes ilegais, milhares de requerentes de asilo tentando entrar nos Estados Unidos vindos do México e grandes quantidades de tráfico de drogas do sul para o norte.

“A cooperação em questões de segurança continua essencial se quisermos abordar o abuso de drogas, a corrupção e o crime organizado que afetam as duas nações”, disse Andrew Rudman, especialista em México do centro de estudos Wilson Center, antes da reunião.

“A migração, que também é afetada pelo crime organizado, também exige uma abordagem conjunta”, disse ele.

Com Biden, os Estados Unidos suspenderam todos os novos registros no polêmico programa Protocolos de proteção de migrantes (MPP), ou "Fique no México", e começaram a processar a entrada de pessoas que aguardavam a resolução de seus casos em território mexicano.

De acordo com organizações civis dos EUA, cerca de 70.000 migrantes foram devolvidos ao México entre janeiro de 2019 e dezembro de 2020. O governo mexicano estima que, destes, cerca de 6.000 permanecem no país.

- Luta contra a covid-19 -

Outra questão importante para os dois líderes é a cooperação para combater a pandemia da covid-19.

O México, o terceiro país do mundo com o maior número de mortes pelo coronavírus, queixou-se da falta de acesso adequado às vacinas, enquanto os Estados Unidos, o país com mais óbitos, é um grande produtor de imunizantes.

Em 23 de janeiro, três dias após sua chegada à Casa Branca, Biden falou por telefone com a AMLO sobre a migração e a pandemia.

A reunião desta segunda-feira por videoconferência terá lugar após a primeira "cúpula" deste tipo de Biden com o líder do vizinho do norte, o Canadá, Justin Trudeau, realizada na terça-feira passada.

As economias dos três países norte-americanos estão intimamente ligadas por seu acordo de livre comércio em vigor desde 1994, originalmente denominado NAFTA, mas que se tornou o Acordo Estados Unidos-México-Canadá (T-MEC) depois que Trump forçou uma renegociação alegando que era injusto com os Estados Unidos.

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