Imortal da ABL, Geraldo Carneiro lança livro em que lembra época de ouro do Rio e internação: 'Sou bipolar'

Teve a noite em que Vinicius de Moraes lhe ensinou a aliviar a bexiga sem precisar levantar do canto da mesa cheia rumo ao banheiro do bar onde tomavam um porre de uísque: "O ideal é fazer no balde porque o gelo tira o cheiro. Se o balde está longe, faz no copo mesmo", indicou o poetinha.

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Houve também o dia em que o escritor Paulo Mendes Campos, já cheio de birita nas ideias, lhe aplicou uma gravata bem encaixada que quase o estrangulou. Os dois travavam um "debate" futebolístico com direito a impropérios escatológicos como “tricocô” e “bostafogo”. "Paulo, você está matando o garoto", alguém precisou avisar.

Felizmente, o poeta, letrista, dramaturgo, roteirista e imortal, ocupante da cadeira 24 da Academia Brasileira de Letras, Geraldo Carneiro sobreviveu para contar essas e outras histórias no livro de memórias "Folias de aprendiz", que ele lança nesta terça-feira (23), na Livraria da Travessa do Leblon.

Publicado pelo selo História Real, o livro celebra os seus 70 anos de vida (completados no último dia 11) e 54 de carreira, reunindo lembranças da infância e da juventude, que refletem também uma época de ouro do Rio (e da música popular brasileira), quando a cidade era a capital política e cultural do pais.

O olhar do mineiro que aportou em terras cariocas ainda criança conduz o leitor para os anos 1950, quando seu pai dava expediente como assessor do presidente Juscelino Kubitschek. As memórias infantis misturam a descoberta da literatura, os jacarés na praia de Ipanema tomada por tatuís e os bastidores do poder no Palácio das Laranjeiras e do Catete, com personagens ilustres como Jânio Quadros e Garrincha.

A convivência com personalidades como Mendes Campos e Jacob do Bandolim, que frequentavam as reuniões organizadas por seus pais, acabaram incentivando a entrada precoce de Geraldo na vida artística, aos 16 anos. Talvez por isso, o jornalista Zuenir Ventura o defina como "um elo perdido entre as gerações do passado e do presente". O fato é que, raramente, Geraldo teve amigos de sua idade.

As parcerias musicais no teatro e na música, com nomes como Egberto Gismonti, Astor Piazzolla e Yo -Yo Ma, além da amizade de 40 anos com Millôr Fernandes também são narradas ao longo das 264 páginas.

Tudo isso dentro de um contexto em que "bebia-se loucamente", como conta o autor na obra: "Beber no século XX era tão obrigatório como fazer ginástica na Grécia ou no século XXI. Nossos heróis literários eram quase todos alcoólatras", escreve ele, antes de citar anedotas envolvendo escritores como William Faulkner e F. Scott Fitzgerald.

Tom Jobim é outro lembrado em meio à esbórnia. Mas como uma espécie de "anjo". Era o compositor que levava para casa os amigos que entornavam demais. Fazia de seu fusca azue ambulância que os despachava sob em segurança para, em seguida, estacionar novamente na porta do Antonio's, reduto da boemia carioca nos anos 1970.

Também no Leblon, o autor se recorda do cantor Cazuza pendurado no chifre da cabeça de touro que decorava a parede do restaurante Real Astória e da mania do poeta Torquato Neto de morder o nariz de seus interlocutores. Não à toa, Geraldo recorda, a região diante desses bares era chamada de "calçada da vergonha" tantos eram os micos que os beberrões pagavam.

De porre em porre, chegou o momento em que o poeta precisou escolher entre o copo e a saúde - mas isso ele não conta no livro. A certeza que sempre carregou de que morreria de cirrose num conjugado em Copacabana, portanto, não se concretizou. Preferiu optar pela vida.

- Meu fígado disse: "Ou dá ou desce". Então, moderei. Hoje, bebo pouquíssimo, cada vez menos - conta ele, que embarcou em viagens de ácido na juventude, mas sequer cogitou drogas injetáveis por motivos de pavor de injeção.

Hoje, acha "esquisitíssimo" completar 70 anos. Diz que continua "uma criança perturbada, assombrada pelo menos três vezes por dia pelos deuses da alegria".

- Quando a alegria irrompe de maneira intensa, dá um trabalho danado.

Foi mais ou menos isso que aconteceu quando Geraldo foi internado numa clínica psiquiátrica em 2007. O apogeu do desvario se deu quando ele não deixou o amigo João Ubaldo Ribeiro abrisse a boca durante uma mesa na Bienal do Livro. Simplesmente, desandou a falar num monólogo interminável em que perguntava e ele mesmo respondia. O episódio serviu de gota d'água para que a família optasse por sua internação.

'Ser exageradamente feliz é uma coisa que incomoda a sociedade'

Naquele dia fatídico, Geraldo pagou o táxi que pegara rumo à Bienal com uma nota de 50 Libras que achou perdida na carteira. Foi depois de constatar com a maior surpresa que não tinha sequer um real no bolso.

Andava tão no mundo da lua que havia cismado que aquele táxi tinha sido enviado especialmente para ele por alguém que cuidara para que tudo saísse perfeito na ocasião. Provavelmente sua companheira, a poetisa Ana Paula Pedro, pensava. Só que não, era tudo viagem de sua cabeça. O poeta ainda lembra a sensação de estar pisando nas nuvens.

—Estava falando demais, amando demais, sendo exageradamente feliz, uma coisa que incomoda, que é insuportável para a sociedade. Acho vem daí a minha suposta patologia — analisa. — Naquele dia, fiz coisas completamente loucas, além de conversar muito com o taxista, o que era normal para mim, mas parei de fazer em 2018 porque estavam se tornando bolsonaristas... Nesses períodos mais animados, meus irmãos me reconhecem desde sempre, mas as pessoas com quem não tenho contato, estranham. A não ser em alguns momentos em que a gente fica destruído demais pela realidade...

O diagnóstico oficial não veio, mas o poeta arrisca um palpite:

— Sou, provavelmente, bipolar. Tenho alterações de humor e percebo que muita gente é assim. No meu manicômio pessoal, me sentia tão pouco louco que ficava inveja dos mais loucos — brinca ele, referindo-se aos outros internos da clínica.

Geraldo credita metade de suas “extravagâncias psíquicas” ao fato de ter tido certa dificuldade em sair da barriga da mãe. O médico precisou recorrer ao fórceps. Hoje, procura se equilibrar no fio tênue que liga a realidade e a loucura.

— Tem uma herança psicanalítica aí (o pai de Geraldo foi internado algumas vezes). Mas acho que um certo desequilíbrio psíquico é fundamental para fazer qualquer coisa. Não creio nessa tese de que o ser humano seja equilibrado. O equilíbrio é uma conquista precária e cotidiana — define. — Acho importante revelar esse momento em que cruzei um pouco a fronteira e, assim, me tornei assumidamente maluco. Acredito na tese da maluquice geral, somos todos malucos!

Controlando a sua “maluquez”, misturada com a lucidez, ele segue firme e olha adiante com confiança.

— Pedro Nava, meu memorialista preferido, dizia que a experiência é um carro com os faróis voltados para trás. Para mim, os faróis continuam voltados para frente — diz. — Quando me tornar de fato um velho, daqui uns dias (risos), vou em busca do meu tempo perdido como Proust, da minha, digamos, “proustituição” — diverte-se.

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