Impacto da covid nas favelas é a antítese do retrato pintado por Bolsonaro

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General view of the Oswaldo Cruz Foundation (FIOCRUZ) headquarters and the Complexo da Mare favela in Rio de Janeiro, Brazil on April 02, 2020, during the new coronavirus outbreak. (Photo by MAURO PIMENTEL / AFP) (Photo by MAURO PIMENTEL/AFP via Getty Images)
Bairro do Complexo da Maré, próximo à sede da Fundação Oswaldo Cruz. Foto: Mauro Pimentel /AFP) (via Getty Images)

Andréia (nome fictício) é a antítese do retrato pintado por Jair Bolsonaro sobre as vítimas da covid no país. Em entrevista a um canal negacionista alemão, o presidente afirmou que muitos dos mortos possuíam comorbidades e que a pandemia apenas acelerou, em alguns dias, a morte certa.

No caso da primeira vítima do coronavírus registrada no Rio de Janeiro, o que encurtou a vida foi o contato com a patroa, moradora do Alto Leblon, bairro nobre da capital fluminense. A dona da casa, onde Andréia trabalhava como empregada doméstica, acabava de voltar de uma viagem da Itália e apresentava sintomas de covid-19. De sua casa, em Miguel Pereira, a empregada atravessava 120 quilômetros até chegar ao trabalho. Ela morreu dois dias após apresentar os primeiros sintomas.

Como no caso dela, a pandemia tem sido especialmente cruel com a população periférica e mais vulnerável do país. Um retrato dessa situação é a pesquisa “Coronavírus nas favelas: a desigualdade e o racismo sem máscaras”, que acaba de ser divulgada pelo coletivo Movimentos com apoio do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC).

O estudo, realizado entre setembro e outubro de 2020, mostra dados alarmantes sobre o impacto da pandemia em três grandes favelas do Rio — Complexo do Alemão, Complexo da Maré e Cidade de Deus. Juntas, essas comunidades possuem quase 240 mil moradores, a maioria negra.

Entre outros dados, o documento aponta que a média de pessoas por cômodo das casas nessas localidades era de três moradores —o que coloca em xeque o cumprimento do isolamento social, que só pode ser seguido por 54% das pessoas ouvidas pelos pesquisadores.

A principal razão para isso foi a necessidade de sair para trabalhar, apresentada por 55% dos entrevistados.

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Quase todos os entrevistados (93%) conheciam pessoas infectadas e 73% souberam de alguém que morreu pela doença —número superior à média nacional (67,9%) apurada em uma pesquisa divulgada em abril pela CNN Brasil. Mais da metade (55%) moram com pessoas pertencentes a grupos de risco, mas apenas 24% foram testadas em algum momento —entre quem relatou sintomas, o índice salta a 45%, número ainda considerado baixo se for comparado com países e regiões onde a testagem em massa foi um dos pontos fundamentais do controle da pandemia.

Quatro em cada dez (34%) entrevistados disseram não ter conseguido atendimento público quando precisaram de atenção médica, e 14% tiveram de recorrer à rede particular.

Pouco mais da metade das pessoas que contaram ter sido infectadas (56%) conseguiram fazer isolamento social.

A doença causou impactos sociais diversos nessas localidades.

Entre os entrevistados, 53,9% disseram ter perdido o emprego durante a pandemia. O relatório aponta que 62% das pessoas solicitaram o auxílio emergencial, mas somente 52% o receberam. Como numa tragédia em efeito cascada, 83% dos moradores entrevistados ouviram tiros durante a pandemia e 69% presenciaram ou souberam de operações policiais no período —isso mesmo após o Supremo Tribunal Federal (STF) proibir operações policiais em favela durante a pandemia. A falta de água fez parte da rotina de 37% dos entrevistados.

Para os responsáveis pela pesquisa, o agravamento do descaso histórico do Estado foi pela postura negacionista do governo federal. Vale lembrar que, no início da pandemia, Bolsonaro ainda apostava que o coronavírus não "pegaria" por aqui e justificava o prognóstico dizendo que o brasileiro precisava ser estudado porque pulava no esgoto e não acontecia nada.

Segundo o coletivo Movimentos, as declarações públicas reducionistas do presidente da República em relação à gravidade do vírus, o desestímulo às medidas preventivas, a falta de coordenação da crise e o atraso das vacinas constituem um verdadeiro genocídio nas favelas.

O documento aponta ainda que em 2020 o governo federal deixou de gastar mais de R$ 80 bilhões do orçamento destinado ao combate à pandemia.

A sensação de aumento da violência foi relatada por 73,8% dos entrevistados. Quase metade deles (47%) afirmou ter sofrido algum episódio de racismo ou discriminação na vida —o que ajuda a explicar o alto índice de pessoas que desenvolveram algum nível de depressão ou manifestaram o desejo de experimentar substância psicoativa, como o álcool.

A rotina de violência, pobreza e falta de acesso a direitos básicos estão associadas, segundo os pesquisadores, a transtornos como distúrbio de sono, relatado por 76% dos participantes, e algum nível de depressão (43,1%).

Para 34% dos entrevistados, a ansiedade é o sentimento mais presente em relação à pandemia.

O estudo completo pode ser acessado em https://www.movimentos.org.br/

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