Impasse entre setores público e privado pode deixar Manaus sem caixões durante pandemia

Rafael Oliveira
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Embora não tenha recebido uma resposta do Governo Federal, o setor funerário do Amazonas já não conta mais com a ajuda da União para fazer chegar em Manaus uma carga de 2 mil caixões até o fim de semana. O silêncio diante do pedido por um avião cargueiro foi o suficiente para a associação da classe enviar caminhões de São Paulo e do Espírito Santo repletos de urnas. E já se sabe que dificilmente chegarão antes do estoque atual zerar, já que o cemitério da capital entrou em colapso devido à pandemia de Covid-19.

- Hoje mandei um novo e-mail dizendo: "Preciso de um sim ou de um não". Porque não posso ficar com o silêncio. Se ficarmos perdendo tempo, o problema vai se agravar - afirmou Lourival Panhozzi, presidente da Associação Brasileira de Empresas e Diretores do Setor Funerário (Abradif).

- Fizemos reuniões por videoconferência e trocamos e-mails. Eles ficaram de dar resposta na segunda de manhã. Depois, à tarde. Por fim, até terça ao meio-dia. E ela não veio. Já estou com os caminhões indo para Porto Velho (RO). Então, para mim, aquilo foi um 'não'.

O "aquilo" a que Panhozzi se refere é a nota de esclarecimento enviada pela Secretaria de Governo (SEGOV) nesta terça. O órgão informou que pediu mais informações à Prefeitura de Manaus para saber da real necessidade de realizar este tipo de operação. Afinal, a solicitação não fora feita pelo órgão municipal.

Procurada pela reportagem, a SEGOV esclareceu que não negou o pedido de apoio logístico feito pela Abradif. No entanto, como ainda não havia recebido nenhuma posição da prefeitura manauara, não tinha uma resposta para dar ao apelo da associação funerária.

Prefeitura tem estoque próprio

O silêncio da prefeitura à consulta da SEGOV é resultado de uma falta de entendimento entre os setores público e privado na capital amazonense. Um problema cujas consequências atingirão a população, que sofre com o novo coronavírus.

Ao GLOBO, a prefeitura lembra que oferece um serviço funerário gratuito para aqueles que não têm condições de arcar com os custos do traslado do corpo e da taxa de sepultamento. Chamado de SOS Funeral, ele conta com estoque próprio de urnas. Em que pese Manaus enterrar mais de 100 pessoas por dia, a administração municipal assegura que sua reserva de caixões não está ameaçada. Por isso, não vê necessidade de ajudar o setor privado.

O estoque do SOS Funeral é fornecido por uma fabricante local que possui contrato com a administração municipal. Como se trata de uma empresa capaz de atender apenas a uma demanda reduzida, o setor privado não compra com ela. Faz negócio com fornecedores do Sudeste e do Sul. Segundo a Abredif, o transporte das urnas pode levar até 10 dias para chegar em Manaus.

De acordo com a prefeitura, o SOS Funeral conseguiu ampliar sua capacidade durante a pandemia para fazer 40 atendimentos diários. No entanto, desde o último dia 19 Manaus tem registrado mais de 100 sepultamentos a cada 24 horas. Ou seja: a maior parte deles é feito pelas funerárias particulares. A previsão do setor é que o estoque termine no fim de semana.

- Cinco funerárias já suspenderam o atendimento particular para garantir que não falte caixão aos seus associados - conta Manuel Viana, presidente do sindicato das empresas funerárias do Amazonas.

Se a projeção se confirmar, os caminhões enviados nesta terça não chegarão a tempo. Há duas alternativas: a cremação ou o armazenamento dos corpos em contêineres frigoríficos até a chegada dos novos caixões, prevista para a próxima semana.