Trump se tornou um perigo para os EUA. Nunca é tarde para reagir

Matheus Pichonelli
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US President Donald Trump tours a section of the border wall in Alamo, Texas on January 12, 2021.US President Donald Trump speaks after touring a section of the border wall in Alamo, Texas on January 12, 2021. (Photo by MANDEL NGAN / AFP) (Photo by MANDEL NGAN/AFP via Getty Images)
O presidente Donald Trump e seu muro na fronteira com o México. Foto: Mandel Ngan/AFP (via Getty Images)

Um dos efeitos mais perversos e silenciosos da ascensão de líderes com os pés na violência e a cabeça na megalomania é o surgimento, devidamente encorajado, de legiões de pequenos tiranos nas pontas da cadeia social.

Em um perfil publicado na revista “piauí”, uma amiga brasileira que mora na Georgia, estado-chave das eleições americanas, conta como sentiu na pele a mudança de tratamento recebida nas ruas ou na escola dos filhos, onde trabalhava voluntariamente, desde a eleição de Donald Trump, em 2016.

De repente, os nativos se sentiram autorizados a dizer, na lata, que não gostavam dela nem de seu sotaque. E já não disfarçavam o incômodo por sua presença nos espaços onde o presidente republicano prometia resgatar a grandeza, com a ajuda de muros e discursos anti-imigração

Essa “América Grande” tinha sotaque próprio. E cor, como se viu nos inúmeros símbolos supremacistas impressos em faixas, bandeiras, roupas e acessórios dos invasores do Capitólio, o Congresso americano, no dia em que os parlamentares confirmaram a vitória de Joe Biden nas urnas.

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Por incitar a revolta, dizendo dia sim, outro também, que a eleição foi fraudada e que seus eleitores precisavam mostrar coragem para evitar a queda no tapetão, Trump é alvo agora de seu segundo processo de impeachment, já autorizado pela maioria da Câmara, com apoio de deputados republicanos. O caso vai agora ao Senado, onde ele tinha maioria antes de assinar o recibo de mau perdedor. Um recibo capaz de botar fogo na América caso sua vontade não seja atendida.

Antes, Trump foi banido das redes sociais, as plataformas por onde passou os últimos quatro anos estimulando conflitos, paranoias e fake news.

Trump precisa ser contido, embora a essa altura não faltem ingênuos e espertalhões de toda ordem dizendo que não cabe a uma empresa (privada, diga-se) de tecnologia determinar quem pode ou não fazer parte de sua comunidade.

Em qualquer lugar do mundo, se o direito a fazer parte daquela comunidade, e se comunicar com eleitores, simpatizantes ou não, é subvertido em direito a estimular o que se viu no Capitólio, a parte mais visível de um iceberg alimentado por ódio e desinformação, a responsabilização de quem semeia a confusão é o mínimo que se espera.

Se eu ou você acordarmos num belo dia para postar, ininterruptamente, mensagens conclamando nossos poucos seguidores a lutarem por justiça pegando em armas e invadindo nossas sedes do poder, os vizinhos poderiam começar a contagem regressiva até o momento da viatura policial estacionar em frente de casa.

Tratando-se de um líder global, a coisa se complica, mas não pode ser ignorada.

Para piorar, como todo sádico conhecedor das cartilhas do cinismo, Trump opera na ambiguidade: passa semanas estimulando a revolta e, quando a revolta eclode, apela para que seja pacífica, não sem antes reforçar que a eleição foi fraudada, que entende os marginais e terminando dizendo: “I love you”.

Se a História aceitasse o “se” como final alternativo, parte da destruição produzida por quem usou, no século 20, o desespero popular em tempos de crise para oferecer uma sombra de pertencimento e um inimigo comum a ser exterminado poderia ser contida se seus planos megalomaníacos fossem devidamente barrados na largada. Como Trump, eram lobos em pele de lobos normalizados pela expectativa de que seriam naturalmente domesticados pelas instituições até começarem a produzir tragédias humanitárias. A solução do impasse se converteu em guerra. Ninguém, de um dia para o outro, acordou consciente do horror incubado no projeto nazi-fascista. O projeto precisou ser contido.

Do Congresso americano às gigantes da tecnologia, muitos entenderam o risco Trump, que sempre faturou em cima do caos para vender a solução de ordem. Hoje é risco de vida para quem não está disposto a implodir as bases da democracia, esta que separa vencedores e vencidos em processos eleitorais, e coroá-lo rei.

Cinco pessoas morreram na confusão no Capitólio, entre eles um policial. Do que mais são capazes os fanáticos que encontraram na promessa furada de resgate de uma nação ilusória um sentido para a vida e uma razão para matar ou morrer? O que pode acontecer nas esquinas das cidades distantes dos centros, e das câmeras, das grandes reuniões quando essa fúria tem um líder disposto a manipular a multidão?

O banimento das redes, seguido do processo de impeachment, deixa a pergunta em aberto. Tardiamente, os EUA e parte do mundo começam a perceber que é melhor não pagar para ver. Os pequenos tiranos, de supramacistas adeptos da Ku-Klux-Klan a simpatizantes neonazistas, estão nas ruas. Não querem voltar tão cedo.