Impedido de entrar no Peru e no Brasil, caminhoneiro vive no limbo sobre ponte fronteiriça

FABIANO MAISONNAVE
ACRE, 26.03.2020 - CAMINHONEIRO-AC - Rodovia do Pacífico na fronteira entre Brasil e Peru, fechada desde o último dia 15 por causa do coronavírus; as cidades fronteiriças são Assis Brasil (AC) e Iñapari. (Foto: Fabiano Maisonnave/Folhapress)

ASSIS BRASIL, AC (FOLHAPRESS) - Resguardada por militares com máscaras cirúrgicas em ambos os lados, a ponte da Estrada do Pacífico que une Brasil e Peru só não está deserta pela presença solitária do caminhoneiro peruano Arturo Palomino, 28.

Desde terça-feira (24), Palomino tenta atravessar de volta para o seu país com uma carga de canos metálicos, mas a aduana peruana nega a entrada, sob a justificativa de que só podem ingressar artigos de primeira necessidade.

Outro problema é que, como já fez o desembaraço na Receita Federal brasileira, tampouco foi autorizado a voltar até um posto de gasolina próximo.

No limbo, Palomino precisa andar por uma picada de 2km na mata para tomar banho e conseguir comida em Assis Brasil (AC), a pequena cidade fronteiriça do lado brasileiro. O resto do tempo é dividido entre a boleia e uma rede armada sob o caminhão.

"O meu próprio país não me deixa entrar. É desumano, é injusto", afirma Palomino. "Aqui não tenho onde lavar as mãos, onde comer, estou no meio do nada aqui."

O motorista carregou seu caminhão em Cuiabá, a 2.270 km da fronteira —percurso feito em dois dias. O destino final é a cidade de Arequipa, a 1.055 km de distância.

Por causa do novo coronavírus, o Peru está com a fronteira fechada desde o dia 15. Nesta quinta-feira (26), o presidente peruano, Martín Vizcarra, prorrogou o estado de emergência até 12 de abril, incluindo os bloqueios fronteiriços.

O Peru adotou toque de recolher contra a pandemia. A mobilidade está bastante restringida, com quase todo o comércio fechado, e já houve 21 mil detenções por desrespeito ao estado de emergência. O país contabiliza 580 casos confirmados e 9 mortos até esta quinta.

Com relação à fronteira, o decreto presidencial não prevê a restrição de mercadorias. Em outro trecho, no entanto, a medida determina que só poderão ser circular bens de primeira necessidade, como alimentos e produtos farmacêuticos.

Palomino afirma que, nos dias em que está parado sobre a ponte, caminhões carregados de milho e de castanha foram autorizados a entrar no Peru.