Implodir PT e PSDB é um risco para o país

Leonardo Benassatto/Futura Press

Por José Antonio Lima (@zeantoniolima)

Está no discurso oficial de Jair Bolsonaro e nas ações de seus militantes uma ideia que possui centralidade na campanha do deputado federal pela Presidência da República: a tese de que PT e PSDB são duas partes do mesmo problema e devem ser derrubados juntos.

Bolsonaro expressou essa argumentação ao reagir, há duas semanas, aos comentários de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) a respeito da possibilidade de petistas e tucanos se unirem contra o capitão da reserva do Exército no segundo turno. “É a certeza de que PT e PSDB são farinha do mesmo saco. Na verdade, o grande projeto deles é o indulto para Lula e os condenados no mensalão e no petrolão. É a certeza de que o Brasil é deles e não de nós, brasileiros”, disse o candidato.

Para transmitir a mesma ideia nas redes sociais, a militância pró-Bolsonaro aposta, como é costume na internet, em mentiras. Uma famosa foto de 1978, em que FHC e Lula aparecem distribuindo panfletos juntos em São Bernardo do Campo (SB), é distribuída com a inscrição “FHC e Lula panfletam o comunismo”. Na realidade, na época, FHC, então filiado ao MDB, que aglutinava a oposição à ditadura, concorria ao Senado e tinha o apoio de Lula, então um líder operário ascendente que só fundaria o PT dois anos depois.

A campanha de Bolsonaro insiste nesta estratégia por saber que parte significativa da intenção de voto no deputado é oriunda de um sentimento de rebelião contra o sistema derivado justamente desta percepção de que ambos os partidos são iguais. Mas quão iguais eles são?

A mais óbvia semelhança entre PT e PSDB são as práticas adotadas uma vez que ambos chegam ao poder: foi na base na compra de votos que ambos conseguiram governar. Essa compra se deu tanto diretamente, como no caso da emenda da reeleição de FHC, quanto indiretamente, como nos acertos de financiamento de campanha que o PT fez no “mensalão” e na Lava Jato.

Como o escândalo da reeleição de FHC nunca foi investigado e como o PSDB desfrutou por anos da simpatia da imprensa e do Ministério Público de São Paulo, onde seus principais caciques fizeram suas carreiras políticas, por muito tempo muitos acreditaram que o PT detinha uma espécie de monopólio da corrupção. Curiosamente, esta ideia foi por terra juntamente com a derrubada de Dilma Rousseff. A Operação Lava Jato avançou e mostrou casos escabrosos envolvendo também políticos tucanos, como Aécio Neves.

Após o impeachment, a sanha antissistema de junho de 2013 se juntou com a campanha anticorrupção e Bolsonaro tem surfado essas duas ondas de modo magistral até aqui. Apesar de não ter propostas concretas e ser um orador frágil, segue bem nas pesquisas de intenção de voto.

Por outro lado, igualar PT e PSDB no campo ideológico, e portanto em termos de projeto de país, é fazer uma leitura rasa da realidade. Os dois partidos surgiram no fim da ditadura, no campo opositor aos militares, e adotaram trajetórias bastante diversas. Enquanto o PSDB teve como foco tornar o país mais palatável para o capitalismo, o PT centrou seus esforços no combate à pobreza. Um se tornou o polo principal da centro-direita e o outro passou a liderar a centro-direita.

As conquistas dos últimos 25 anos não são nada triviais. Isso fica evidente se levarmos em consideração como critério o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas. Em 1991, três anos antes de FHC assumiu o Palácio do Planalto, 85,8% dos municípios brasileiros tinham IDH muito baixo e 13,4% deles tinham índice baixo. Em 2010, no último ano do governo Lula, só 0,6% dos municípios tinham IDH muito baixo e 24,6% estavam como baixo. Pouco mais de 40% dos municípios tinham IDH médio e outros 33,9% estava na faixa alta.

Não há dúvidas de que o Brasil poderia hoje ser um país mais avançado e, como sempre, estamos aquém de nosso potencial. Também é preciso lembrar que essas conquistas não servem para esconder a realidade: o sistema político brasileiro se degenerou na corrupção a ponto de se tornar um entrave para novos avanços.

Nas eleições deste ano, uma das escolhas diante do povo é a respeito do futuro da política. Não há claramente uma candidatura que expresse claramente o desejo de reformar o sistema. Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede) buscam articular essa posição, mas o fazem de forma marginal e sem propostas críveis, que aparentemente falham em atrair o eleitorado que está farto da política.

Jair Bolsonaro, por sua vez, é o representante principal da opção por implodir o sistema político. Seu projeto é aparelhar o Estado com militares e afugentar os partidos tradicionais. Essa possibilidade parece ser atrativa para muitos, mas coloca o país num rumo incerto.

Como destacou em recente artigo o cientista político Bruno P. W. Reis (Um Réquiem para os Partidos? Sistema partidário no Brasil, daqui para o futuro), a institucionalização do sistema partidário, ou seja, a força dos partidos políticos, é o mais forte indicador a prever a longevidade de um regime democrático.

O mais preocupante para o Brasil, assim, é que justamente os partidos mais fortes, PT e PSDB, foram os protagonistas de escândalos que levaram a parte significativa do eleitorado o sentimento de que é preciso realizar uma “limpeza” no sistema político. A depender da eleição presidencial e da configuração do Congresso saberemos a força relativa de PT e PSDB e, em caso de enfraquecimento de ambos, se há novos atores aptos a substitui-los. Por enquanto, supõe-se que não, o que não é um auspício nada bom para o futuro do regime democrático.