Impopularidade histórica é transferida para a "turma de Temer" em Pernambuco

AP Photo/Andres Kudacki

Por Sérgio Montenegro

Recife (PE) — A tradicionalíssima polarização das disputas eleitorais em Pernambuco jamais permitiu o surgimento de uma terceira via, e este ano não seria diferente, principalmente com o país tomado pelo clima do “nós contra eles”. Após articular e obter o apoio do PT nacional à sua candidatura à reeleição, o governador Paulo Câmara (PSB) buscou a todo custo nacionalizar seu discurso. A meta era colar no principal palanque de oposição a imagem radioativa do presidente Michel Temer (MDB). Ainda que a chapa adversária tivesse na cabeça o senador Armando Monteiro (PTB), ex-ministro do governo Dilma Rousseff e amigo de longa data do ex-presidente Lula, a coligação de Câmara a batizou de “turma do Temer”.

A expressão pegou a ponto de a Frente das Oposições travar uma dura batalha jurídica no TRE-PE – da qual saiu derrotada – pela proibição do apelido tóxico. Na verdade, embora Armando Monteiro não tenha se alinhado politicamente ao atual presidente – votou inclusive contra o impeachment – duas grandes “sombras” pesaram demais no seu palanque: primeiramente, o fato de ter votado a favor da reforma trabalhista proposta pelo governo Temer, o que lhe rendeu acusações na propaganda eleitoral adversária de ser favorável ao “trabalho escravo”, numa referência às suas raízes familiares, fincadas no patriarcado das usinas de cana-de-açúcar do Estado.

O segundo aspecto polêmico foi a própria composição da chapa majoritária das oposições. Eleitor declarado de Lula e defensor da sua libertação, Armando Monteiro abraçou-se com partidos da antiga base aliada de Michel Temer. Principalmente o DEM e o PSDB, aos quais presenteou com as vagas de candidatos ao Senado na chapa, nas quais materializaram-se dois ex-ministros da atual gestão: os deputados federais Mendonça Filho (DEM) e Bruno Araújo (PSDB), ex-ocupantes das pastas da Educação e de Cidades, respectivamente.

De quebra, o senador petebista ainda aceitou como seu candidato a vice-governador o vereador recifense e líder evangélico Fred Ferreira, cujo partido, o PSC, também integra a base de Temer. Dos 13 partidos que compõem o palanque de sustentação de Armando Monteiro, praticamente todos passaram ao menos algum tempo abrigados sob o guarda-chuva governista. A maioria também mantém ligações com o poderoso Centrão na Câmara dos Deputados.

Tanto Mendonça quanto Araújo tentaram, a todo custo, desvencilhar-se da toxicidade do governo ao qual serviram. Em ambos os casos, a estratégia foi chamar para si os louros das obras federais executadas pelos seus ministérios em Pernambuco, evitando mencionar o nome do ex-chefe. Ainda assim, assistem à liderança nas pesquisas ser dividida entre os dois candidatos ao Senado pela aliança governista – Jarbas Vasconcelos (MDB) e Humberto Costa (PT).

“Em todas as funções que exerci, o sangue pernambucano sempre se fez mais forte nas minhas veias. E foi com essa garra e determinação que ocupei por quase dois anos o cargo de ministro. Para servir não a um governo ou ao meu partido, mas como ministro da Educação do Brasil, enfrentando, inclusive, propostas que estavam engavetadas há vinte anos, como a reforma do ensino médio”, disparou Mendonça Filho, em uma das várias ocasiões em que demonstrou irritação quando questionado sobre sua ligação com Temer.

Mais ponderado no humor, o tucano Bruno Araújo também costuma listar, a cada oportunidade que lhe é dada, todas as obras federais que sua pasta garantiu ao Estado. Diante de críticas à sua participação na gestão Temer, o autor do voto número 342 – que consolidou o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, na Câmara Federal – geralmente tenta colher algum dividendo. Lembra sempre ter sido o primeiro dos ministros a deixar o governo Temer, por iniciativa própria, e emenda com um discurso semelhante ao de Mendonça: “Eu não fui servir ao Temer. Eu fui servir ao Brasil e a Pernambuco. E tantas vezes quanto for chamado, eu o farei, em qualquer governo”.

Esconde-esconde

Na opinião da cientista política Priscila Lapa, da Faculdade de Ciências Humanas de Olinda, a estratégia de esconder Michel Temer na campanha é correta, embora não tenha representado muita vantagem para os dois candidatos ao Senado, segundo indicam as pesquisas.

“Mas o fato de se apresentarem como ministros de Temer poderia gerar ainda mais impopularidade. Mendonça ainda tem chances na disputa, e em uma eleição com grande influência dos debates nacionais isso pode ser decisivo”, analisa a professora. Mendonça Filho tem se mantido na terceira colocação nos levantamentos. Já Bruno Araújo tem oscilado entre o quarto e quinto lugares.

Pesquisador Fulbright na área de comunicação e política da Universidade de Tulane (EUA), o pernambucano Juliano Domingues minimiza a interferência negativa de Michel Temer sobre as candidaturas dos aliados. “Os dois têm históricos de desempenho eleitoral atrelado ao chamado voto de estrutura, vinculado à geografia do voto, principalmente no interior. Para boa parte desse eleitorado, a relação com o governo federal não tem tanto peso, porque o foco é essencialmente local, tanto que Mendonça e Bruno foram ambos reeleitos deputados federais, mesmo se opondo ao PT”, lembra.

Entretanto, segundo o professor, para ganhar uma eleição majoritária é preciso ampliar o número de votos. Conquistar, por exemplo, o segmento de opinião, os eleitores indecisos, a parcela volúvel do eleitorado. “Só o voto de estrutura não me parece suficiente. E é aí que a relação de proximidade com Michel Temer se torna mais tóxica para ambos, ao ponto de comprometer esse esforço”, acrescenta Domingues.

Embora o candidato da oposição a governador tenha uma posição pessoal favorável a Lula reconhecida pelo eleitor pernambucano, o mesmo não ocorre em sua relação com Fernando Haddad e com o próprio PT. Após a exclusão definitiva do ex-presidente da disputa, Armando Monteiro – que há algumas semanas fez questão de visitar o amigo petista na prisão, em Curitiba – ficou liberado, mas não oficializou apoio a nunhum dos demais presidenciáveis. Ainda assim, a pecha de “turma do Temer” o incomoda.

“Estive ao lado de Lula até o final, assim como do lado de Dilma. Votei contra o impeachment e não apoiei o governo Temer”, explica Monteiro para, em seguida, defender seus companheiros de chapa. “Essas forças (Mendonça e Araújo) se alinham no campo da oposição em Pernambuco, e isso é o que nos reúne. Eu reconheço neles homens honrados, com uma extensa folha de serviços prestados, tanto que não me sinto desconfortável ao lado deles e nem mudei de posição”, assegura.

Ironias de Temer

A coligação de Paulo Câmara, porém, insiste em associar o adversário ao atual presidente, ao passo em que fustiga Michel Temer repetidamente, acusando-o de negar recursos federais para o Estado por motivos políticos. Mas em entrevista a uma rádio local, o próprio Temer rebateu as críticas e ironizou o governador, afirmando que o socialista “precisa ter alguém em quem bater” no período eleitoral, mas disse que depois das eleições “ele se pacifica”. Incisivo, o emedebista lembrou ainda o voto dos deputados do PSB pernambucano a favor do impeachment, com o aval de Câmara.

Apesar das reações contrárias, a estratégia de ligar a chapa de Armando Monteiro ao governo Temer foi uma das mais acertadas da Frente Popular nesta campanha, na avaliação da professora Priscila Lapa. A intenção, segundo ela, foi mostrar ao eleitor que a disputa local tem dois lados, apesar dos questionamentos acerca da coerência desse discurso numa perspectiva histórica. “Em Pernambuco, onde os traços do lulismo são especialmente fortes, essa narrativa de que tem um lado ligado a Temer foi estratégico”, reforça a estudiosa.

Da mesma forma pensa o pesquisador Juliano Domingues. Para ele, em termos de comunicação política, a mensagem da “turma do Temer” foi bem elaborada, e de maneira simples e direta consegue sintetizar um sentimento com potencial de alcançar ampla parcela do eleitorado. “Os números mostram uma quase absoluta reprovação do governo Temer, e isso é contagioso. Quem conseguir convencer o eleitorado de que o opositor é parte disso, leva vantagem”, afirma.

Do outro lado, porém, as tentativas de formular, diante do eleitorado, uma imagem de traição cometida pelo PSB pernambucano ao PT, quando o partido defendeu e votou pelo impeachment, não parecem surtir efeito. Em vários momentos da disputa, os opositores levantaram a questão, mas não conseguiram fazer com que a acusação viralizasse na campanha.

A explicação, segundo Domingues, pode estar também no lulismo fiel dos pernambucanos, levando em conta o fato de o próprio ex-presidente ter “perdoado” os socialistas, esquecido o assunto e avalizado o acordo PT-PSB no Estado. “É como se o eleitor adotasse uma postura um tanto cínica quanto à instabilidade das alianças políticas. Além disso, na hora de decidir em quem votar, o pragmatismo acaba se sobrepondo a aspectos retrospectivos, em termos ideológicos ou programáticos”, conclui o professor.