'A importância do Censo é reafirmada pela própria pandemia', diz presidente do IBGE em carta de despedida

Cássia Almeida e Carolina Nalin
·10 minuto de leitura

RIO E BRASÍLIA - A presidente do IBGE, Susana Cordeiro Guerra, despediu-se nesta quinta-feira dos funcionários do IBGE por meio de uma carta. Amanhã é o último dia dela à frente do órgão que ainda não tem sucessor escolhido para o cargo. A economista, que pediu demissão um dia depois de o Congresso ter reduzido a verba do Censo, que estava previsto para acontecer este ano, a R$ 71 milhões, inviabilizando o levantamento decenal, afirmou que “mais do que nunca será fundamental para o futuro do Brasil.”.

No e-mail aos servidores, diz: “A importância do Censo é reafirmada pelo próprio contexto de pandemia, que coloca ao país uma ampla gama de profundos desafios. O Censo é crítico nesse processo, uma vez que só ele será capaz de revelar, com precisão, essa realidade”.

Susana é funcionária do Banco Mundial cedida ao governo brasileiro. Segundo fontes, o passo natural seria voltar ao banco, mas a decisão ainda não está tomada.

O sucessor de Susana não deve ser escolhido tão cedo. Segundo fontes do Ministério da Economia, a indicação não está na lista de prioridades do ministro Paulo Guedes, que só tem olhos para o impasse do Orçamento.

Na carta, em que discorreu sobre seu trabalho à frente do instituto durante um ano e sete meses, aproveitou para agradecer e enaltecer os servidores do instituto. Logo que assumiu, houve críticas sobre a falta de reconhecimento do trabalho da equipe.

“O IBGE é uma verdadeira joia no serviço público brasileiro, uma instituição da qual todos devemos nos orgulhar, como cidadãos brasileiros, a cada dia de nossas vidas”.

Destaque para Pnad-Covid

Até agora, não está garantida a verba para realização do Censo, o instituto cancelou a prova para contratar os cerca de 200 mil recenseadores e agentes necessários para visitar os mais de 70 milhões de domicílios brasileiros. O impasse sobre o Orçamento da União ainda não foi resolvido entre o Congresso e o Executivo.

Na carta, apesar de ressaltar a importância da realização do censo, Susana não citou os cortes de orçamento que inviabilizaram o censo e nem a polêmica sobre a redução do questionário que provocaram protestos de funcionários e de pesquisadores.

Indicada pelo ministro Paulo Guedes para o cargo, Susana não recebeu apoio público do Ministério quando o relator do Orçamento, senador Marcio Bittar (MDB-AC), reduziu em 96% a verba para o Censo.

— O Censo de 2021 já não terá mais. Ela (Susana) estava há 40 dias tentando negociar em Brasília, ficou completamente sozinha, não tinha o que fazer — disse o sociólogo Simon Schwartzman, ex-presidente do IBGE, ao comentar a saída de Susana do IBGE.

Susana disse aos funcionários que deixou as bases para a realização do Censo, que serve de direção para todas as pesquisas domiciliares amostrais, que precisam ser atualizadas a cada dez anos, para retratar com fidelidade as características da população brasileira.

“Tenho a convicção de que conseguimos lançar bases sólidas para que a operação censitária seja implementada. O próximo Censo terá, como lastro, o aprendizado e os avanços técnicos viabilizados nos últimos meses, mas também se apoiará na expertise e na experiência construídas pelos ibgeanos ao longo de décadas”, diz a carta.

O Sindicato dos funcionários não aprovou a gestão da economista:

—Susana não ouviu o corpo técnico do IBGE. Foi aceitando um orçamento cada vez menor até que chegamos neste cenário em que o Censo se tornou impossível em 2021 — afirmara Luanda Botelho, coordenadora do Sindicato Nacional dos Trabalhadores do IBGE, ao saber do pedido de demissão da presidente no fim de março.

Na carta, a presidente do IBGE ressaltou as pesquisas Pnad Covid-19, que divulgaram resultados semanais sobre o impacto da quarentena no mercado de trabalho, o afastamento dos trabalhadores, o acesso ao auxílio emergencial, que foi interrompido em dezembro último, assim como a Pulso Empresa, que acompanhou o fechamento das empresas com a pandemia.

“A quarta linha de ação envolveu a implementação das primeiras pesquisas de pulso na história do IBGE, que tinham como principal objetivo capturar, em tempo hábil, os impactos da pandemia na economia nacional.”

Em seu último dia na presidência do instituto, Susana assinou três acordos — dois com a Organização Mundial das Nações Unidas (ONU) e um com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI) -, a fim de acelerar a agenda de modernização pela qual passa o instituto nos últimos anos.

Susana disse ao GLOBO que não quer falar neste momento sobre sua saída, mas ressalta que entregou melhorias para o instituto até o fim do mandato:

— Emplacamos três acordos que são estruturantes para o órgão num momento muito importante.

Leia a íntegra da carta enviada ao funcionários:

Estimados ibegeanos,

No dia 26 de março de 2021, com muito pesar, anunciei que, por motivos pessoais efamiliares, deixarei o cargo de presidente do IBGE. Meu último dia oficial à frente doInstituto será sexta-feira, 9 de abril.Nos últimos dois anos, servir nesta função tem sido uma honra extraordinária, tantopessoal quanto profissionalmente.

Com espírito de gratidão, gostaria de compartilharminha avaliação sobre as conquistas alcançadas pelo IBGE nestes tempos tãodesafiadores, não sem antes congratular a todos pelo trabalho e engajamento, cujaexcelência é marca registrada do corpo técnico do IBGE.Como todos sabem, o IBGE - e o país - enfrentaram desafios significativos nos últimosdois anos.

Cheguei à Presidência do instituto a apenas 17 meses do início do CensoDemográfico 2020, nosso maior e mais complexo projeto institucional. Contudo, fomostodos surpreendidos pelo advento de uma pandemia que alterou nosso planejamentoinicial e nos impôs uma série de desafios, dentre eles repensar a forma como coletamosos dados e formular instrumentos inovadores para mensurar o impacto da pandemia naeconomia e na sociedade brasileira.

Devo dizer que estou muito orgulhosa de como o IBGE se posicionou para enfrentar essedesafio sem precedentes. Os talentosos e dedicados ibgeanos honraram a tradição de 85anos de excelência do Instituto, superando barreiras e gerando as mais produtivassoluções. Apesar da pandemia, podemos enaltecer o fato de que, nos últimos 13 meses, oIBGE manteve toda sua produção estatística, sem nenhuma interrupção.

Para alcançar esse resultado, nos ancoramos estrategicamente em seis linhas principaisde ação, que envolveram tanto o impulsionamento de processos já em andamento na casaquanto a realização de esforços disruptivos, com o objetivo de acelerar o processo demodernização do IBGE, em especial no que tange à coleta de dados.A primeira linha de ação estruturante foi a migração imediata de cerca de 10.000funcionários para uma plataforma de trabalho remota, uma escala nunca antesexperimentada pela instituição.

Em um período de cinco semanas, concluímos a transiçãopara o modelo de trabalho remoto, alicerçado em fluxos e processos de trabalhoautomatizados, implantação da assinatura eletrônica e adesão ao SEI.Segundo, e concomitante, impulsionamos o uso e a absorção de novas tecnologias eferramentas no uso, processamento e análise de dados.

Buscamos potencializar o uso deferramentas tecnológicas na coleta de dados e, ao mesmo tempo, intensificar o uso deregistros administrativos nas pesquisas regulares. Ferramentas e recursos comowebscraping, big data e pareamento de bases de dados são grandes exemplos de áreas emque foram verificados significativos avanços para manutenção da produção estatística egeocientífica na pandemia.

Nesse contexto, a parceria firmada com a Receita Federal, com apoio do BancoInteramericano de Desenvolvimento, foi um marco histórico na agenda do uso deregistros administrativos do país.

As parcerias também firmadas com o Ministério daSaúde, Ministério da Cidadania e Ministério da Justiça, entre outras, são emblemáticasdesse avanço, de forma significativa, no papel do IBGE como coordenador de fato dosistema estatístico nacional.

Terceiro, tornamos a comunicação interna mais fluida e frequente, fortalecendo nossointercâmbio de informações durante a pandemia. Essa iniciativa foi fundamental para aintegração das diferentes áreas do IBGE. Criamos novos fóruns virtuais (com uma médiade 200 membros em cada estado quase toda semana), servindo como instâncias deintercâmbio em tempo real entre as diretorias e a rede de coleta.

Essa iniciativa se mostrouuma ferramenta eficaz para curtos “loops” de feedback entre as equipes e identificaçãode oportunidades de melhoria, em meio às muitas adversidades que enfrentamos nacoleta.

A quarta linha de ação envolveu a implementação das primeiras pesquisas de pulso nahistória do IBGE, que tinham como principal objetivo capturar, em tempo hábil, osimpactos da pandemia na economia nacional.

A PNAD COVID-19 acompanhou aevolução do mercado de trabalho e os impactos na saúde da população, com divulgaçõesmensais e semanais. Já a pesquisa Pulso Empresa, com divulgação quinzenal, coletouinformações sobre o desempenho das empresas nesse cenário de adversidade.

Essaspesquisas se tornaram modelos internacionais, com reconhecimento de instituiçõesmultilaterais, e o convite inédito para que o IBGE, representando o Brasil, participassedo 8º Fórum Anual de Estatística do Fundo Monetário Internacional como palestrante, emum painel junto a outros países que enfrentaram, com sucesso, a geração de estatísticasdurante a pandemia.

Na quinta linha de ação, enfrentamos o desafio de desenvolver e alavancar um modelo decapacitação à distância, com ações adaptativas e inovadoras na estratégia de capacitaçãoorganizacional e com a nossa Escola Nacional de Ciências Estatísticas, a ENCE,funcionando integralmente em plataforma virtual.

Sob este modelo, milhares defuncionários foram treinados simultaneamente em um curto período de tempo,especialmente os profissionais que viriam a atuar nas pesquisas de pulso. Esta plataformafoi estruturante ao tornar viável a condução de todas as demais ações.

Por último, mas não menos importante, trabalhamos para melhorar a acessibilidade dosdiferentes tipos de usuários - desde os formuladores de políticas até os cidadãos - àsinformações produzidas e coordenadas pelo IBGE.

O Hotsite COVID-19 foi concebidocom o propósito de centralizar todos os dados em produção relacionados à COVID, deforma a tornar a experiência do usuário mais interativa, principalmente por meio depainéis.

Pensando adiante, o IBGE precisará realizar o Censo Demográfico, operação que maisdo que nunca será fundamental para o futuro do Brasil. O Censo funciona como umaplataforma de inteligência que viabiliza e aprimora a tomada de decisões de políticaspúblicas nos 5.570 municípios do país.

A importância do Censo é reafirmada pelo própriocontexto de pandemia, que coloca ao país uma ampla gama de profundos desafios. OCenso é crítico nesse processo, uma vez que só ele será capaz de revelar, com precisão,essa realidade, subsidiando assim a tomada de decisões e a formulação de políticaspúblicas.

Tenho a convicção de que conseguimos lançar bases sólidas para que a operaçãocensitária seja implementada. O próximo Censo terá, como lastro, o aprendizado e osavanços técnicos viabilizados nos últimos meses, mas também se apoiará na expertise ena experiência construídas pelos ibgeanos ao longo de décadas.

Podemos apontar três sólidos pilares para a realização do próximo Censo. O primeiro éque a operação contará com um modelo misto de coleta, incluindo entrevistas presenciais,telefônicas e online. O segundo pilar é a tecnologia de fronteira a ser aplicada nasupervisão e no monitoramento, em tempo real, da operação censitária, fortalecendo acobertura e a qualidade da operação como um todo.

O terceiro pilar, a execução daoperação, se baseará em um amplo “benchmarking” nacional e internacional, que incluias melhores práticas de adoção de protocolos de saúde e segurança para coleta de dados,fornecendo diretrizes claras para os entrevistadores e entrevistados. Todos esses trabalhosjá foram encaminhados através de nossa experiência recente e em acordos de cooperaçãotécnica com outras instituições de ponta.

Gostaria de concluir esta carta agradecendo a todos os ibgeanos que, nesses últimos doisanos, dedicaram-se de forma extraordinária para que, juntos, pudéssemos enfrentar comtécnica, profissionalismo, galhardia, e serenidade os desafios que nos foram impostos.

Otalento, o trabalho árduo e a resiliência dos ibgeanos foram e continuarão sendofundamentais nesta trajetória. Foi um grande privilégio e uma grande honra ter servido aeste Instituto singular. O IBGE é uma verdadeira joia no serviço público brasileiro, umainstituição da qual todos devemos nos orgulhar, como cidadãos brasileiros, a cada dia denossas vidas.Com profundo respeito e gratidão,

Susana Cordeiro Guerra

Presidente do IBGE

Colaborou Manoel Ventura