'Impossível fazer um teatro que não seja humanista': Olivier Py se despede do Festival de Avignon

© RFI / Marcia Bechara

O diretor, ator e autor francês Olivier Py é figura carimbada no meio teatral francês e mundial. À frente do Festival de Avignon desde 2014, ele assinou nos últimos anos a curadoria e programação deste que é considerado o maior encontro de artes cênicas do planeta. Em entrevista exclusiva à RFI Brasil, ele fala sobre sua despedida do evento, mas também sobre a vocação do teatro contemporâneo, sua relação com as narrativas de guerra, os desafios do futuro e, é claro, o Brasil de Bolsonaro.

Márcia Bechara, enviada especial a Avignon

RFI: Curiosamente, a história do teatro se mistura com a história da guerra desde a antiguidade clássica, me lembro aqui de “Os Persas”, de Ésquilo, refletindo sobre as consequências da batalha de Salamina, mas também de como as guerras mundiais interferiram no fazer teatral de sua época. O que o teatro aprende hoje de nossas guerras contemporâneas?

Olivier Py: A guerra é o que há de pior na humanidade, e o teatro é o que há de melhor nela (risos). E é por isso que existe essa dialética. É preciso dizer que o que acontece no Festival de Avignon, durante três semanas no mês de julho, é uma utopia. Uma utopia do coletivo, do ‘viver juntos’. Mesmo se não falamos de política, é algo político. Porque estamos em paz, e porque a ligação entre os artistas é mais importante do que a ligação entre os Estados. Expliquei isso ontem a russos, e antes de ontem aos chineses: o que nós criamos aqui é um mundo de paz.

RFI: No ano passado, era preciso “Se lembrar do futuro”, era essa a temática que dava o subtexto do Festival de Avignon. Esse ano, para a 76ª edição, que é também a sua última à frente do evento, você escolheu o “Era uma vez”: é uma expressão que remete à criação de algo...

Olivier Py: “Era uma vez” porque se trata de meu último festival, eu achei bonito terminar dizendo justamente que ele está começando. E também porque me dei conta que a narrativa, particularmente num contexto de guerra, voltando à sua pergunta anterior, é extremamente importante. Não fazemos a guerra apenas com armas. Fazemos também com histórias. Histórias às vezes falsas, que são mal contadas, ou que não são as mesmas, na medida em que a violência ou a paz estão a caminho. Então, “Era uma vez” lembra aos homens que não vivemos apenas com ideologias, mas também com mitos, lendas e histórias.

RFI: O que o teatro tem a ensinar ao mundo em 2022?

Olivier Py: Primeiramente a presença real. Estamos intoxicados por um mundo onde estamos todos isolados atrás de telas. O teatro é, antes de tudo, reaprender o real, em sua dimensão mais simples, face a uma geração que enfrenta desafios que a humanidade nunca havia experimentado. Na minha opinião, há esses dois desafios. Primeiro a perda do real, o fato de que o real tenha se tornado fictício, e, logicamente, a questão ecológica, muito presente este ano nos espetáculos.

RFI: Quando o fazer teatral se projeta no mundo, qual a sua missão hoje, na sua opinião?

Olivier Py: Acredito que, primeiro de tudo, seja reunir os humanos no silêncio. Lembrá-los de que são mortais (risos), e, nesse caminho, lembrá-los também de que eles possuem um compromisso a ser mantido com seus irmãos. Há, entre o teatro e o Humanismo, uma ligação indefectível. Eu não acredito que possamos fazer um teatro que não seja humanista. Mesmo o teatro mais monstruoso, o mais sombrio, o mais sangrento, apesar de tudo ele nos fala sobre o que é ser humano, e ele tenta nos ensinar a viver com mais dignidade.

RFI: Houve um dramaturgo e escritor brasileiro, Nelson Rodrigues, que dizia: “Levo o monstro para o palco, para que o homem surja na plateia”. É por aí?

Olivier Py: É totalmente verdade isso. Inventei uma palavra, tenho o costume de dizer que o teatro é antropogênico, quer dizer, que ele cria o “humano” no humano. Mas não existem garantias de que o Humanismo triunfe no humano, mas também nem tudo está perdido. Estamos aqui, neste momento de combate, e é melhor sermos muitos, estarmos reunidos, estarmos juntos, estarmos de acordo, para viver esse combate.

A cultura não age de maneira bélica, nunca. Ela não procura vencer, mas convencer.

RFI: Vivemos hoje uma guerra. O teatro faz parte da guerra cultural, dentro da guerra?

Olivier Py: Essa expressão “guerra cultural” me incomoda um pouco. Porque eu acredito que a cultura não age de maneira bélica, nunca. Ela não procura vencer, mas convencer. Mas é claro que é a questão cultural que está no centro [dessa discussão]. Uma democracia não quer dizer nada se não existe cultura e educação. Uma civilização é antes de tudo uma civilização cultural, ela não pode ser apenas financeira e tecnológica. E é isso que tentamos modestamente lembrar durante três semanas nesta bela cidade de Avignon.

RFI: Você acompanha o momento político e o contexto cultural no Brasil hoje?

Olivier Py: Sim, tivemos a alegria de acolher a [diretora brasileira] Christiane Jatahy em duas edições [do Festival de Avignon], e penso que a França se importa muito com o que se passa no Brasil. Não se deve imaginar que não estamos vendo e ouvindo o que o governo Bolsonaro pode produzir sobre uma civilização, uma cultura, em um país tão maravilhoso. E acreditamos que assistimos a isso bastante assustados, mas também porque sabemos que aqui [na França] também existem Bolsonaros.

RFI: Uma pergunta difícil.... Que momento marcante vem à sua memória quando você olha para trás e se lembra dos anos que esteve à frente do Festival de Avignon?

Olivier Py: Sim, é difícil escolher uma lembrança, sendo que houve tantas... Mas, muito pessoalmente, acho que [um momento marcante] foi quando conseguimos que os presos da prisão de Pontet fossem liberados para atuar em “Hamlet” [em 2017]. Na primeira vez, alguns deles não haviam saído da prisão há mais de 15 anos... Pudemos então ensaiar e encenar na frente do público. É verdade que emocionalmente foi muito forte, e tive a impressão que os projetos artístico e político se encontraram e se confundiram, sob os aplausos da plateia.

RFI: Você deixa o Festival de Avignon depois de anos. Já está com saudade? O que você sente, finalmente, ao deixar a direção de um evento como esse?

Olivier Py: Eu vou deixar não apenas o Festival de Avignon, mas também a cidade de Avignon, onde vivo há 10 anos. Eu o farei com uma enorme tristeza. Mas sei que voltarei todo ano e tenho um sucessor maravilhoso, [o diretor português] Tiago Rodrigues, e isso me consola um pouco, nesse momento que, pessoalmente, será difícil.

RFI: Você fecha o festival esse ano apresentando a Miss Knife, uma personagem alterego que o acompanha há 30 anos. Tudo isso na presença do cabaré das ucranianas do Dakh Daughters. É como fechar um ciclo?

Olivier Py: Sim, nem foi tão premeditado isso, nem tão cheio de significado... Quero dizer que eu queria apenas festejar [no palco], e festejar com as amigas e a música (risos). Era esse o objetivo principal.

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