Imprensa ultraconservadora dos EUA relativiza gravidade da invasão ao Congresso

Thomas URBAIN
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Polícia tenta conter partidários de Donald Trump em frente ao Congresso, em Washington, em 6 de janeiro de 2020

A imprensa ultraconservadora americana minimizou, na quarta-feira (6), a gravidade do ataque de Donald Trump ao Capitólio, evocando uma fúria legítima e acusando - sem provas - a extrema esquerda de ter se infiltrado na multidão.

"A maior parte do que vimos hoje [quarta] foi magnífico", disse em frente ao prédio do Congresso Ben Bergquam, repórter do Real America's Voice, um pequeno canal de transmissão online - um comentário que contrasta com o da maioria dos observadores.

Os novos atores ultraconservadores do noticiário televisivo, que tentam arrebatar parte do mercado do veículo de referência Fox News, buscaram, insistentemente, dissociar os partidários de Trump do caos no Poder Legislativo. O Capitólio é considerado o templo da democracia americana.

Por um lado, "uma grande maioria de manifestantes pacíficos", segundo Ben Bergquam, e por outro, um "pequeno grupo" de elementos perturbadores, como descreve Chris Salcedo, um dos apresentadores do canal Newsmax, pelo qual um número significativo de republicanos desfilou desde a eleição presidencial.

Do Newsmax ao Real America's Voice, passando pela One America News Network (OAN), que Trump recomendou em várias ocasiões nas últimas semanas, vários meios de comunicação denunciaram a suposta infiltração de pequenos grupos de extrema esquerda, sem qualquer tipo de prova.

"Acho que eram 'Antifas' disfarçados", disse Gina Loudon, apresentadora do Real America's Voice, sobre os invasores que viu em primeira mão nos corredores do Congresso.

Os Antifa - abreviação de antifascistas - são um movimento de extrema esquerda repetidamente apontado por Trump como "terrorista", "baderneiro, anarquista, agitador e saqueador".

"Nem sabemos quem estava do outro lado das portas", entre aqueles que invadiram o Capitólio, disse o congressista republicano Pat Fallon ao Newsmax.

- "Gente furiosa" -

Ao denunciar a violência cometida no Congresso, Greg Kelly, do Newsmax, considerou lógicos os acontecimentos de quarta-feira que chocaram o mundo.

"Se você rouba uma eleição", disse ele, ecoando as acusações dos partidários de Trump, "vai ter um monte de gente furiosa".

Nos portões do Capitólio, os manifestantes "empurraram, brigaram, mas, em sua maioria, isso foi tudo", alegou Kevin Corke, repórter da Fox News, referindo-se ao que vários líderes mundiais classificaram como "ataque à democracia".

"Tudo isso está acontecendo, porque as pessoas no poder decidiram reprimir a população tão duramente que as coisas acabaram explodindo", justificou o astro apresentador da Fox News, Tucker Carlson.

"Nunca tinha visto o governo se opor aos 'patriotas'", criticou Gina Loudon, em alusão aos confrontos entre os partidários de Trump e a polícia.

Embora tenha manifestado sua rejeição a qualquer forma de violência, outro âncora da Fox News, Sean Hannity, acusou a grande mídia, assim como muitos outros comentaristas conservadores, de fazer uma cobertura tendenciosa dos fatos.

"Vão dizer que todos os apoiadores de Trump são violentos", criticou Grant Stinchfield, da Newsmax.

"Gostaria que apenas denunciassem o fato de que muitas cidades foram danificadas" durante os protestos contra o racismo na primavera nos EUA (outono no Brasil).

Em nenhum momento, esses veículos de comunicação mencionaram a eventual responsabilidade de Donald Trump, que incitou seus seguidores, reiteradamente, a questionar os resultados das eleições, para além dos recursos legais cabíveis para isso.

Todos, com Sean Hannity à frente, destacaram os pedidos de calma feitos pelo presidente Trump no Twitter, postados depois que a situação já estava fora de controle.

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