Impressas em 3D, próteses 'high-tech' mudam a vida de crianças e adolescentes amputados

Quando tinha apenas sete anos de idade, a carioca Caroline Pereira Nunes, precisou amputar o braço direito. A condição radical veio de um tumor ósseo, que a quimioterapia não foi capaz de aplacar. O risco de a doença se espalhar era altíssimo.

Paralisia de Bell: entenda a doença que acomete o influenciador Gustavo Tubarão

Anitta: saiba como é a recuperação da cirurgia feita pela cantora

— Pensei que seria melhor não ter um braço do que eu morrer. Depois da amputação, me recuperei totalmente e me adaptei a essa vida de ter uma mão só — conta Caroline, hoje com 19 anos.

Logo após a cirurgia, ela começou um tratamento de reabilitação e recebeu uma prótese estética, mas conta que não se adaptou.

— Como eu era muito criança, não tinha força de vontade para usar a prótese. Ela era pesada e me atrapalhava brincar — explica. Em pouco tempo, desistiu do aparelho.

Aneurisma: Emilia Clarke diz que parte do cérebro não funciona mais

— Eu tinha passado mais tempo sem um braço do que com ele, então arrumei um jeito para fazer tudo o que eu queria. Só não ficava sem fazer porque aí sim seria uma frustração — diz em tom descontraído.

Só aos 18 anos, voltou a pensar na possibilidade da prótese, por aparência e para tentar reduzir as dores nas costas. Recorreu ao Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into), do Ministério da Saúde, no Rio de Janeiro, onde havia iniciado o tratamento de reabilitação com a primeira prótese em 2010. O cenário era outro. Dessa vez, tratava-se de um dispositivo 3D, fabricado no próprio local através de impressoras.

— Essa prótese é espetacular. Ela é da minha cor e tem uma extensão do ombro, que acho que era o que faltava na outra. Quando eu coloco, eu fico totalmente reta e isso melhorou muito a minha postura e as minhas dores nas costas. Quando tiro, percebo que meu cérebro sente falta daquele preenchimento — diz Caroline.

Tratamento inovador: ‘Quero apenas viver’, diz brasileiro, 1ª pessoa no mundo a usar terapia individualizada contra câncer

Caroline faz parte de um grupo de 24 pacientes do instituto, sendo 13 crianças e 11 adultos, que receberam modelos fabricados no próprio local com impressoras 3D. Outros 15 pacientes já foram avaliados e aguardam a confecção de suas próteses. O projeto começou em 2017 com o objetivo de oferecer próteses para crianças que nascem sem uma parte da mão devido a uma má formação congênita. Sandra Helena Moura, terapeuta ocupacional do instituto, explica que não havia opção de prótese para esses pacientes.

Em seguida, seu uso foi sendo expandido para crianças e adolescentes amputados. A pediatra Germana Bahr, diretora-geral do Into, explica que esse é um grupo difícil protetizar com o acessório convencional, dado que o crescimento das crianças exige trocas constantes do dispositivo.

O período mínimo exigido para troca de uma prótese convencional, é de dois anos. Entretanto, para acompanhar o crescimento da criança, isso precisaria ser feito a cada seis meses, por exemplo. Apesar desse desafio, o Into oferece próteses convencionais para criança, mas isso não é comum.

— Tem muito lugar que não faz próteses para crianças porque elas crescem muito rápido e a troca de prótese se dá muitas vezes e isso tem um custo alto — complementa Moura.

Varíola dos macacos: três crianças são diagnosticadas com a doença

O valor de uma prótese varia de acordo com seu tipo. Mas uma prótese convencional de membro superior para crianças custa, em média, 13 mil reais. Para adultos, em torno de 18 mil. Enquanto a versão 3D custa cerca de 30 dólares, o que equivale a aproximadamente 165 reais.

Além do custo, o processo de compra e confecção da prótese convencional é mais demorado do que a 3D. Muitas vezes, quando a liberação ocorre, a criança já cresceu e é preciso refazer alguns passos. Na 3D, não há esse problema porque tudo é feito no instituto. O tempo de espera será apenas o necessário para avaliação do paciente, medição e confecção do produto. Segundo Moura, o processo de produção demora cerca de sete dias, a depender da complexidade da prótese.

— Parcial de mão é mais rápido que uma de braço inteiro, por exemplo — pontua a terapeuta ocupacional.

Olhos amarelados e inchaço: médico alerta para os sinais do câncer no fígado

Ela também é mais maleável. Por exemplo, como toda a produção é feita na impressora, se uma parte for danificada, é possível substituir apenas aquele componente. Na mecânica, a única opção é trocar a prótese inteira. Outras vantagens da versão 3D incluem ser mais leve, customizável e poder ser usada na água.

Pode parecer insignificante, mas o simples fato de poder ser usada na água, faz diferença. Para uma criança, isso significa poder realizar mais atividades na piscina, tomar banho de mangueira e usar os dedos da prótese para pintar com uma tinta lavável, por exemplo. Para um adulto, permite tomar banho, fazer comida e lavar a louça.

Outro ponto comemorado pelos pacientes, principalmente os infantis, é que o material pode ser personalizado como desenho de super-heróis e borboletas, por exemplo. Há ainda a opção de cores próximas aos tons de pele, que foi a escolha de Caroline. Afinal, embora a prioridade seja a parte funcional, a estética também é importante.

Fiocruz: Covid-19 matou três vezes mais crianças que a soma de outras 14 doenças

A prótese 3D também permite mais experiências motoras e funcionais do que a convencional. Com a 3D, por exemplo, é possível realizar o movimento de dobrar os dedos. Isso também é possível com a biônica, mas não com a convencional – que também é chamada de mecânica. Esse modelo permite apenas uma abertura em forma de "C", na qual o polegar se movimenta junto com os demais dedos. E esse simples ato de mexer o dedo faz diferença para os pacientes.

—São atividades simples, mas que adicionam funcionalidade ao dia a dia do paciente e é com isso que nos preocupamos— avalia a terapeuta ocupacional.

Por outro lado, a opção 3D é mais frágil que uma prótese convencional. A mecânica também se parece mais com um braço de verdade. Por isso, as próteses convencionais continuam a ser oferecidas. No fim, a escolha é do paciente, afirma Moura.

Rejuvenescer a pele do rosto no inverno: Dermatologistas listam as 7 técnicas mais indicadas

Reabilitação

O Into é referência nacional para tratamento em traumatologia, ortopedia e reabilitação de amputados, destinado a atender exclusivamente aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS). Neste ano, o Centro Ortopédico da Criança e do Adolescente do instituto foi classificado como um dos melhores hospitais de ortopedia do mundo no ranking da revista americana Newsweek, feito em parceria com a empresa de pesquisa Statista. Todos os pacientes do instituto que recebem prótese, seja com a tecnologia convencional ou a versão 3D, estão inseridos no programa de reabilitação.

— A nossa intenção não é simplesmente dar próteses. A prótese faz parte do projeto de reabilitação, mas ela não o ponto mais importante. Dar a prótese sem reabilitar o paciente faz com que ela seja um simples objeto ou até mesmo um brinquedo. O paciente precisa ver a função daquilo e entender como pode ajudá-lo em seu dia a dia — afirma Moura.

Por isso, antes mesmo de receber a prótese, o paciente é submetido a um tratamento com terapia ocupacional e psicóloga. Esse acompanhamento continua após a entrega do dispositivo. A reabilitação tem como objetivo possibilitar que o indivíduo, em especial a criança, consiga desempenhar suas atividades normalmente. Seja brincar, escrever, tomar água ou realizar atividades domésticas. Por isso, a parte fundamental é fazer com que o uso da prótese seja natural. Que ela se torne parte do indivíduo e do seu cotidiano.

Fiocruz: 'Brasil está sob risco de retorno da poliomielite'

Moura conta que muitas pessoas consideram inútil dispor de prótese para crianças porque elas “se viram”. O que de fato, é verdade, mas uma prótese de dedo, mão ou braço pode trazer ganhos inestimáveis para o desenvolvimento infantil. Uma prótese funcional, como a 3D, minimiza agravos e perdas funcionais, além de favorecer a estimulação e reorganização da neuroplasticidade.

Isso fica nítido no caso da pequena Maria Heloá. Com apenas quatro anos, ela foi a criança mais nova a receber uma prótese 3D no Into. Diagnosticada ainda na barriga da mãe com má-formação congênita, Maria Heloá nasceu sem o antebraço esquerdo. A menina tinha o sonho de andar de bicicleta. Por isso, sua mãe procurou o instituto. Hoje, além da bicicleta, Heloá consegue pular corda, fazer penteados no cabelo das bonecas e brincar com a bola.

— A plasticidade cerebral da criança se desenvolve a partir de experiências motoras e cognitivas. A prótese é importante para o desenvolvimento neuromotor da criança. Isso melhora a qualidade desse desenvolvimento, pois aumenta as possibilidades de atividade que ela pode realizar — explica a terapeuta ocupacional.

Para essa faixa etária a prótese 3D é ainda melhor do que a convencional, pois suas características permitem a realização de um número maior de experiências motoras e funcionais. A criança consegue jogar bola, andar de bicicleta, brincar no trepa-trepa, pintar com os dedos da prótese e segurar a mão do adulto.

Tosse persistente: o que pode ser e o que fazer quando não passa?

Impressão 3D

A prótese 3D é algo muito recente não só no Into, como no mundo. A impressão 3D, por exemplo, virou assunto no Brasil há pouco mais de duas décadas. A tecnologia veio dos setores industrial e automobilístico e mais recentemente, mostrou que podia ter impacto real na vida das pessoas. A criação de próteses é apenas um de seus usos na medicina. Esse tipo de tecnologia já ajuda médicos no planejamento de cirurgias complexas e permite a criação de órteses e implantes personalizados.

Para produzir as peças tridimensionais, a equipe de terapia ocupacional trabalha diretamente com os técnicos de informática. Um programa especial de computador reúne as informações vindas das medição dos pacientes e de modelagens feitas com outros materiais para configurar os instrumentos. A partir daí, as peças de PLA, um termoplástico utilizado na impressão 3D, são desenvolvidas.

O foco do projeto, que começou em 2017 com o nome “Pelas Mãos”, ainda é oferecer as próteses 3D para melhorar a reabilitação de crianças e adolescentes. Mas, em 2021, adultos também passaram a ser incluídos. Por enquanto, o foco está na confecção de membros superiores.

Segundo Bahr, que está diretamente desenvolvida no projeto desde a impressão da primeira prótese de mão, o objetivo é ampliar para membros inferiores. Além disso, as impressoras 3D já são usadas para outras finalidades no INTO

— Vão de coisas simples como artefatos para melhorar a mobilidade, a próteses, guias e modelos para planejamento de cirurgias complexas, como as de coluna — explica a diretora-geral.

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos