Inadimplência termina 2020 em 2,9%, o menor patamar da história

Gabriel Shinohara
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BRASÍLIA — Depois de ter subido no período mais crítico da crise econômica causada pelo coronavírus, a taxa de inadimplência no sistema financeiro fechou 2020 no menor patamar da série histórica, iniciada em 2011. O indicador ficou em 2,9% em dezembro, segundo dados divulgados nesta quinta-feira pelo Banco Central.

Foi a sétima queda seguida, após o percentual de calote ter chegado a 4% em abril, no início da pandemia. O movimento ocorreu tanto em recursos para pessoas físicas quanto para empresas.

Para pessoas físicas, a inadimplência estava em 5,5% em abril e atingiu 4,2% em dezembro. Já no caso de empresas, a taxa passou de 2,4% para 1,4%, no mesmo período.

O movimento está diretamente relacionado às medidas para aliviar os efeitos da crise adotadas no ano passado. O auxílio emergencial ajudou a manter a renda de muitas famílias, o que pode ter contribuído para que elas pagassem dívidas ou mesmo evitassem deixar de pagar alguns compromissos, afirmam especialistas.

Em outra frente, instituições financeiras de modo geral, estimuladas pelo Banco Central, passaram a renegociar contratos de empréstimos para evitar o calote nesses compromissos. Em aguns casos, essas renegociações previam aumento dos prazos de pagamento ou um período de carência.

O economista-chefe do TCP Partners, Ricardo Jacomassi, ressalta que essas duas medidas foram importantes para reduzir a inadimplência, mas as taxas devem voltar a subir, principalmente no segundo semestre deste ano.

— Nós tinhamos um modelo que estava prevendo o fechamento de empresas de uma ordem bastante agressiva e quando teve essa medida que foi a postergação das linha de crédito e ao mesmo tempo os estímulos como o proprio auxílio emergencial, a gente teve que revisar essa modelagem, porque você está jogando o problema um pouco mais para frente — afirma.

Apesar dos dados do BC, o fim das medidas emergenciais em 2021 já acendeu o sinal de alerta em empresas. Pequenas empresas já relatavam ter contas em atraso ainda em novembro e temem o efeito da retirada dos estímulos.

Ao longo do ano, as taxas de juros também registraram queda. Para empresas, a média em janeiro era de 17,6% ao ano e para pessoas físicas, 45,7% ao ano. Já em dezembro, esses números caíram para 11,7% e 37%, respectivamente.

O economista Miguel Ribeiro, diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), ressalta que várias operações tradicionais registraram alta nas taxas, como no cartão de crédito de empresas, e outras se mantiveram, como o capital de giro, mas no geral as condições econômicas derrubaram os juros.

— Nas operações mais tradicionais, as taxas até subiram, mas quando você vê no contexto todo, tem que você tem renegociação de dívidas, operações especiais, esssa acabaram tendo taxas menores e fizeram com a taxa média apresentasse uma pequena redução.

As taxas de juros do cartão de crédito rotativo foi uma das modalidades que tiveram um comportamento contrário. Elas terminaram o ano em alta, atingindo 328,1% ao ano. Em janeiro, essa taxa estava em 316,7%.

Nesse caso, Ribeiro explica que é um efeito do aumento do risco de não pagamento.

— É uma das linhas que tem o maior percentual de risco de crédito, primeiro porque a taxa de juros é muito alta e acaba encarecendo e é a primeira coisa que a pessoa acaba deixando de pagar, acaba entrando no rotativo.

Já as taxas do cheque especial, que no início do ano foram limitadas a 8% ao mês pelo Banco Central, continuam bem abaixo desse teto. Ao longo do ano, ela variou de 7,6% em janeiro a 6,4% em junho, fechando o ano em 6,6% ao mês.

As concessões de crédito subiram 1,2% durante o ano, puxado pelos financiamentos para empresas, que aumentou 4,8%, em contraste com as concessões para pessoas físicas, que caiu 2,1%.

Para o Banco Central, a expansão do crédito é relacionada diretamente aos programas que estimularam os financiamentos para pequenas empresas, como o Pronampe, que foi muito procurado durante o ano.

Esse aumento pode ser visto nas concessões de capital de giro, por exemplo, que dá mais liberdade para os gastos das empresas, registrou altas históricas. Em um ano, a alta foi de 68,4%, subindo de R$ 16,8 bilhões em janeiro para R$ 31,2 bilhões em dezembro.

O chefe do Departamento de Estatísticas do Banco Central, Fernando Rocha, explica que o comportamento das concessões de capital de giro mudou durante o ano.

No início da crise, a procura era maior para financiamentos de mais curto prazo, devido às incertezas. Depois, com o cenário mais consolidado, o crédito com prazo mais longo começou a ser mais demandado.