Inauguração por Bolsonaro de obra inacabada no AM vira ato em desagravo a Pazuello, alvo da CPI da Covid

FABIANO MAISONNAVE E RICARDO DELLA COLETTA
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**Arquivo**BRASILIA, DF,  31.03.2021 - O presidente Jair Bolsonaro durante anúncio do novo auxílio emergencial, no Palácio do Planalto, em Brasília (DF). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
**Arquivo**BRASILIA, DF, 31.03.2021 - O presidente Jair Bolsonaro durante anúncio do novo auxílio emergencial, no Palácio do Planalto, em Brasília (DF). (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

MANAUS, AM, E BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - No momento em que o Brasil se aproxima dos 400 mil mortos pela Covid, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) viajou até Manaus nesta sexta-feira (23) para inaugurar um centro de convenções inacabado com capacidade para 10 mil pessoas.

A visita virou um ato de desagravo ao ex-ministro Eduardo Pazuello (Saúde), que é de Manaus. Ovacionado cinco vezes por dezenas de simpatizantes de Bolsonaro aglomerados em um dos cantos do centro de convenções, o general foi elogiado por Bolsonaro e pelo ministro do Turismo, Gilson Machado.

Ao final, os simpatizantes gritaram “Pazuello governador”. O ex-ministro é dos principais alvo da CPI da Covid, que será instalada no Senado na próxima terça-feira (27) e que irá apurar ações e omissões do governo federal na pandemia, além de repasses federais a estados e municípios.

O presidente falou por apenas cinco minutos. Além da menção positiva a Pazuello, presente entre as autoridades do evento, o presidente repetiu que o país “começou a sair das garras da nefasta esquerda brasileira” e que, se o petista Fernando Haddad fosse presidente, "estaríamos em um lockdown nacional. Graças a Deus, isso não aconteceu".

A agenda presidencial desta sexta-feira em Manaus incluiu um encontro com líderes evangélicos e a distribuição simbólica de cestas básicas.

Mais efusivo, Machado (Turismo) chamou Pazuello para o centro do palco em meio a elogios: "Cadê o general Pazuello? Cadê ele? Venha cá. Eu fui testemunha da luta desse homem pela erradicação da doença no nosso país”.

Esta foi a primeira viagem de Bolsonaro ao Amazonas desde que o sistema local de saúde colapsou, em janeiro, devido à segunda onda da epidemia. O presidente, porém, não fez nenhuma referência à morte de 6.600 pessoas no primeiro trimestre e um dos índices de óbito per capita mais elevados do mundo.

O evento teve uma gafe do ministro de Turismo. Com a sanfona em mãos no palco, Machado anunciou que tocaria uma música da banda amazonense Carrapicho. Mas ele acabou fazendo uma versão quase irreconhecível da lambada “Chorando se Foi”, uma adaptação do grupo Kaoma de uma canção boliviana.

Na entrada do centro de convenções, Bolsonaro falou brevemente aos jornalistas para agradecer o título de Cidadão Amazonense concedido pela Assembleia Legislativa, aprovado com 14 votos a favor e apenas um voto contrário.

O Centro de Convenções do Amazonas Vasco Vasques começou a ser construído em 2015 e custou R$ 40 milhões, pagos pelo Ministério do Turismo, além de R$ 224 mil do governo estadual.

O espaço faz parte do complexo da Arena da Amazônia, erguido para a Copa do Mundo de 2014, no governo Dilma Rousseff (PT). Desde então, a estrutura tem sido subutilizada.

Apesar da inauguração com Bolsonaro, o saguão da cerimônia, no entanto, ainda estava sem acabamento. As paredes, de blocos de concreto, estavam sem reboco. Cinco pilares e um parede tinham remendos de cimento à vista. O governo estadual diz que 99% das obras estão prontas.

No salão, havia distanciamento entre cadeiras reservadas a jornalistas e convidados, mas a organização permitiu a entrada de dezenas de simpatizes de Bolsonaro, que se aglomeraram em um dos lados do salão, com bandeiras do Brasil e de Israel.

Alguns tiravam a máscara para gritar em coro “mito”, “eu vim de graça” e “fora, Globo lixo”, além do Hino Nacional.

​Tampouco há pressa para o uso. Por causa da epidemia, as convenções estão proibidas no Amazonas por tempo indeterminado. O local, com quatro andares, tem capacidade para receber 10 mil pessoas.

A alguns quilômetros do evento, um pequeno grupo de manifestantes de organizações de esquerda se reuniu na Assembleia Legislativa para protestar contra a homenagem dos deputados estaduais a Bolsonaro.

Dali, eles caminharam até o centro de convenções carregando diplomas falsos de "Fuleiro" e cruzes em alusão aos mortos pela epidemia.

Bolsonaro, no entanto, já havia deixado o local. Antes de embarcar a Belém, ele concedeu uma entrevista a Sikera Jr., simpatizante do presidente e apresentador do programa de notícias policiais Alerta Nacional.

O turismo no Amazonas tem interessado o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Em setembro, os dois filhos do presidente inspecionaram as obras na companhia do governador Wilson Lima (PSC), em uma agenda focada no turismo.

À época, Flávio defendeu a abertura de cassinos na Amazônia. “O que nós ouvimos em Las Vegas é que há um grande interesse que esses grandes players do turismo invistam pesado nessa área em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Amazonas”, disse, em evento para a “retomada turística” no estado.

A viagem desta sexta ocorreu uma dia após o presidente ter participado da Cúpula do Clima, convocada pelo colega norte-americano, Joe Biden, e realizada de forma virtual. No discurso, disse que é preciso solucionar o “paradoxo amazônico” de melhorar o baixo índice de desenvolvimento humano na "região mais rica do país em recursos naturais”.

Bolsonaro também fez a entrega simbólica de cestas básicas. O Ministério da Cidadania promete distribuir a 121 mil famílias de comunidades tradicionais do estado.

Desde o início do ano, período do recrudescimento da pandemia no Brasil, Bolsonaro realizou viagens para uma dezena de estados, para participar, entre outros atos, de cerimônias de entrega de obras e solenidades militares.

De acordo com a agenda do Palácio do Planalto, o único deslocamento de Bolsonaro para fora de Brasília em agenda oficial sobre a Covid ocorreu em 7 de abril. Na ocasião, ele foi a Chapecó (SC) para encontro com o prefeito João Rodrigues (PSD), defensor do chamado tratamento precoce contra a doença —que consiste na administração de remédios como a hidroxicloroquina, sem eficácia comprovada contra o vírus.

Na ocasião, além de rechaçar a adoção de um lockdown nacional, Bolsonaro elogiou o suposto tratamento precoce ao dizer que médicos têm autonomia para prescrever qualquer medicamento.

“Fui acometido de Covid. Procurei não me apavorar. Tomei um medicamento [hidcroxicloroquina] que todo mundo sabe qual foi e no outro dia estava bom. Muitos fizeram isso. Mas não podemos admitir impor limite ao médico. O ‘off label’, fora da bula, é entre médico e paciente. Hoje tem aparecido medicamentos ainda não comprovados que estão sendo testados”, disse Bolsonaro na ocasião.

Neste ano, as demais agendas de Bolsonaro fora de Brasília não foram —ao menos oficialmente— sobre o enfrentamento à doença. Mas em diversos casos ele aproveitou seus pronunciamentos para tratar da crise sanitária, frequentemente atacando medidas de isolamento social adotadas por governadores e prefeitos.

No mesmo dia da visita a Chapecó, Bolsonaro foi a Foz do Iguaçu (PR) para acompanhar obras no aeroporto e participar da posse do novo diretor da usina de Itaipu. À noite, teve reunião com empresários em São Paulo.

Antes da visita desta sexta a Manaus, Bolsonaro esteve em São Paulo para a passagem do Comando Militar do Sudeste. A cerimônia ocorreu em 15 de abril.

Em março, o presidente teve apenas uma viagem oficial, para participar da inauguração de trecho da Ferrovia Norte-Sul, em São Simão (GO).

“Nós temos que enfrentar os nossos problemas, chega de frescura e de mimimi. Vão ficar chorando até quando?", disse ele na ocasião.

Em fevereiro foram sete viagens, dentre visitas a obras, entrega de títulos de propriedades, sobrevoo a regiões inundadas no Acre e participação em cerimônia da escola preparatória de cadetes, em Campinas (SP).

Durante o Carnaval, o presidente viajou para São Francisco do Sul (SC). A exemplo do que fez no recesso de fim de ano, Bolsonaro provocou aglomerações ao interagir com apoiadores na praia.

No mês de janeiro, ainda de acordo com a agenda oficial do Planalto, viajou para uma cerimônia alusiva à liberação do tráfego de ponte sobre o rio São Francisco, em Própria (SE); e para entrega de obras da BR-135 em Coribe (BA).