Mais de 1.000 migrantes tentam cruzar fronteira em "via-crúcis" rumo aos EUA

Isabel Reviejo.

Mapastepec (México), 29 mar (EFE).- A pé ou pedindo carona, cerca de 1,2 mil migrantes centro-americanos atravessam atualmente o território do México rumo aos Estados Unidos em uma caravana que, neste ano, teve um aumento significativo na quantidade de participantes por conta da delicada situação de Honduras.

Chamada de "Via-Crúcis: imigrantes na luta" por causa da coincidência com a Semana Santa, a caravana começa cedo. Os migrantes iniciam a caminhada às 5h, para aproveitarem um horário em que o sol castiga menos.

Sentados ou deitados em cobertores no chão em um parque da cidade de Mapastepec, eles descansam na sombra depois de horas andando. Um deles é Donaldo Enrique Romero. Com um boné com a bandeira americana e uma águia na estampa, ele não esconde o seu desejo.

"Meu objetivo é chegar aos Estados Unidos", declarou.

Cansado das ameaças e da crise política em seu país, o hondurenho chegou à cidade mexicana de Tapachula, bem perto da fronteira com a Guatemala, em janeiro.

"Fui assaltado em Honduras, e ficaram me ameaçando. Não queria continuar assim", contou ele à Agencia Efe, ao lado da família, em um ponto de descanso por onde passam os migrantes que participam desta edição da caravana.

Depois de algumas semanas tentando fazer o trâmite legal que, segundo ele, era muito lento, Donaldo decidiu entrar na via-crúcis com a ideia de chegar ao Mississipi, onde ele e a família são esperados por parentes já estabelecidos.

Da mesma forma que eles, são muitos os participantes que já têm alguém à espera do outro lado da fronteira. Josué Deras, outro hondurenho, contou que tem um amigo no estado de Nebraska trabalhando na construção.

O plano, segundo ele, é "chegar aos Estados Unidos para trabalhar, ter um futuro, um dia ter uma família". No campo, onde trabalhava, Josué ganhava cerca de R$ 16 por dia.

"Isso não dá para quase nada", ressaltou.

Muito da ajuda que os imigrantes recebem ao longo do caminho, incluindo a comida, é dada pelos moradores das comunidades por onde passam. Organizações como a Cruz Vermelha também fornecem algum auxílio, como leite em pó, porções de comida e fralda. De acordo com os organizadores, a caravana tem 500 mulheres e crianças.

Ivi Jeannette Amaya González, que uma filha de dez meses e outra de 4 anos, é ciente de que o caminho é duro para as meninas, mas tanto ela quanto o marido quiseram assumir o risco para dar um "futuro" às crianças. Ela contou que, se o plano de chegar aos EUA não der certo, a família vai procurar outro lugar, mas não voltará a El Salvador, onde um parente foi assassinado.

"Não podemos voltar para lá, por isso estamos aqui, enfrentando essa situação", justificou-se.

Normalmente, as caravanas começam com mais ou menos 300 pessoas, mas desta vez o número mais do que triplicou, especialmente com os hondurenhos, que representam quase 80% do total.

"Nunca tínhamos visto uma quantidade tão grande de hondurenhos", disse à Efe o diretor no México da ONG Pueblos sin Fronteras, Irineo Mújica, ressaltando que o motivo deste aumento é a "militarização" desse país, de acordo com relatos dos imigrantes.

Nas próximas semanas, a caminhada continuará rumo ao norte. Depois de passarem pela Cidade do México, os itinerários dos migrantes se dividirão. Alguns tentarão chegar aos EUA pela Baja California, outros por Tamaulipas, otros por Sonora, mas todos com a intenção de, em solo norte-americano, realizar o sonho de uma nova vida. EFE