Incêndio atinge hospital federal no Rio de Janeiro; duas pacientes morreram

WALESKA BORGES E ANA LUIZA ALBUQUERQUE
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RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Um incêndio atingiu o Hospital Federal de Bonsucesso, na zona norte do Rio de Janeiro, na manhã desta terça-feira (27). A brigada de incêndio da unidade removeu 162 pacientes para outra unidade da própria instituição até a chegada do Corpo de Bombeiros. Até as 16h30, 66 pessoas foram transferidas para outros hospitais da capital.​ Duas mulheres morreram durante a ocorrência. Ambas estavam internadas com Covid-19 e em estado de saúde considerado grave. Uma delas, de 42 anos, teve uma parada cardíaca depois de ser transferida do prédio 1 para o 2. A outra, de 83 anos, também morreu na unidade, mas não foram informados mais detalhes. O fogo foi controlado ainda pela manhã, mas os bombeiros seguirão o dia inteiro fazendo o rescaldo da estrutura afetada. Segundo funcionários do hospital, o fogo começou no subsolo do prédio 1 por volta das 9h30 e se alastrou pelo almoxarifado, onde há estoque de fraldas. Nesse edifício, estão localizados o CTI (Centro de Terapia Intensiva), o setor de nefrologia e enfermarias da emergência. “Todo mundo ajudou. Médicos, enfermeiros, pessoal da limpeza e até a equipe do administrativo. Foi muita correria. Graças a Deus conseguimos descer com os pacientes no oxigênio. Todos foram levados para o pátio até serem levados para outros prédios do hospital”, contou uma enfermeira, que pediu para não ser identificada.De acordo com um médico residente, que também pediu para não ser identificado, no prédio 1, havia pacientes internados no CTI com Covid-19. “Todos foram levados para o prédio 2. Houve muita correria com macas e equipamentos, muitos pacientes graves. Foi um desespero grande, medo de deixar algum paciente no prédio. Mas o Corpo de Bombeiros estava o tempo todo auxiliando e tranquilizando a gente”, contou o residente. Dirigente do Sindsprev-RJ (Sindicato dos Trabalhadores em Saúde, Trabalho e Previdência Social no Estado do Rio de Janeiro), Sidney Castro, lamentou o ocorrido na unidade e reclamou da falta de manutenção no hospital. “Esse incêndio é mais uma prova do abandono da rede federal em suas manutenções, porque a saúde para os governantes não dá lucro. Por isso vemos esses acidentes constantes”, disse Castro. Segundo ele, a inexistência de uma rampa de saída de emergência dificultou a evacuação do prédio. Muitas mangueiras de incêndio também não estavam funcionando. Castro afirma que essa situação já havia sido denunciada pelo Sindsprev/RJ junto à Defensoria Pública da União. Quartéis do Corpo de Bombeiros de Ilha do Governador, São Cristóvão, Penha, Méier e Central, além do Grupamento Tático de Suprimento de Água para Incêndios (GTSAI), atuaram no combate às chamas. O governador em exercício, Cláudio Castro, informou em rede social que acompanhava o caso de Brasília,, onde cumpre agenda ao lado do presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), André Ceciliano. De acordo com o site do hospital, em média, por mês, são realizadas 15 mil consultas ambulatoriais, 1.300 internações, 1.200 atendimentos de emergência, 120 mil exames laboratoriais e 5.000 exames de imagem. HISTÓRICO Em setembro do ano passado, a DPU (Defensoria Pública da União) cobrou explicações da direção do hospital sobre a estrutura de combate a incêndios na unidade. Na ocasião, ainda de acordo com a DPU, o sistema de combate a incêndios do hospital era precário. Não havia sistema de detecção de fumaça e sprinklers (componentes que soltam água em caso de incêndio). Reportagem da Folha também mostrou que um relatório do próprio governo federal indicava que o hospital não tinha um plano de combate a incêndio. A avaliação feita por engenheiros apontou que o risco de incêndio no prédio era alto. Três geradores estavam mal conservados e dois transformadores estavam superaquecidos. O edifício não possuía autorização do Corpo de Bombeiros. O documento mostrava que o hospital não contava com detector ou alerta de fumaça, escadas pressurizadas, elevadores à prova de fogo ou chuveiros automáticos. Em março deste ano, o Hospital Federal de Bonsucesso foi anunciado pelo Ministério da Saúde como unidade de referência no tratamento de pacientes da Covid-19. Mas, durante a pandemia, o hospital sofreu com a insuficiência de funcionários, o que resultou num acúmulo de leitos ociosos, e com a falta de equipamentos de proteção. Em maio, a Justiça Federal do Rio chegou a intimar o Ministério da Saúde a substituir a direção do hospital por omissão no enfrentamento à pandemia. Posteriormente, o TRF-2 (Tribunal Regional Federal da 2ª Região) suspendeu a liminar da primeira instância, garantindo a permanência da diretoria. OUTROS INCÊNDIOS A fragilidade dos hospitais em relação ao risco de incêndio é observada em todo o país. Em 2019, ao menos 20 instituições de saúde pegaram fogo. A situação nas instituições cariocas de saúde é bastante grave. Em setembro do ano passado, um incêndio de grandes proporções atingiu o Hospital Badim, no Maracanã, na zona norte do Rio. O acidente causou a morte de 25 pacientes. Dois meses depois, houve um princípio de incêndio no Hospital Balbino, em Olaria, também na zona norte, mas ninguém ficou ferido. Em outubro deste ano, o Hospital Municipal Lourenço Jorge, na Barra da Tijuca, na zona oeste, teve um princípio de incêndio também sem vítimas.